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Opinião

Entre a fumaça e as apostas, a hipocrisia entra em jogo

04/11/2026 • 00:10 • Por Leo Pinheiro

Defender a legalização das drogas para combater o crime, mas condenar a regulamentação das bets revela contradições, seletividade moral, e discursos que ignoram os riscos à saúde e à sociedade

Antes de qualquer interpretação equivocada, faço questão de esclarecer: não sou apostador de bets, nunca fiz uma aposta nessas plataformas e tampouco sou usuário de drogas. Aliás, jamais consumi qualquer tipo de substância ilícita. Portanto, não escrevo em defesa de hábitos pessoais, muito menos para justificar comportamentos. O que me incomoda é a hipocrisia de quem defende a legalização de drogas recreativas, como maconha e cocaína, sob o argumento de que isso enfraqueceria o tráfico e reduziria a criminalidade, mas condena a regulamentação das apostas esportivas. Afinal, a defesa das liberdades individuais perde qualquer legitimidade quando o direito de escolha é tratado como princípio inegociável para quem consome drogas, mas como ameaça à sociedade para quem decide arriscar o próprio dinheiro em apostas. É o curioso moralismo de quem enxerga virtudes na liberação de entorpecentes, mas encontra pecados imperdoáveis na formalização das bets. Uma contradição que parece obedecer menos à lógica e mais às conveniências ideológicas e político-partidárias.

O problema é que a realidade costuma ser menos obediente aos discursos demagógicos. Dados divulgados sobre o mercado de apostas apontam que quase 700 plataformas clandestinas surgiram apenas um dia depois de uma proibição anunciada pelo governo, enquanto mais de 5,2 mil sites ilegais continuariam em funcionamento. Se confirmados, esses números demonstram como a simples repressão pode alimentar mercados paralelos, sem eliminar a demanda. Curiosamente, trata-se do mesmo raciocínio utilizado pelos defensores da legalização das drogas: a proibição não extingue o consumo, apenas favorece organizações criminosas. Por que, então, esse argumento serviria para justificar a comercialização da cocaína, mas perderia a validade diante de uma roleta virtual? A seletividade revela um falso moralismo difícil de disfarçar.

Há ainda uma questão frequentemente minimizada nesse debate: os graves danos provocados pelas substâncias psicoativas ao organismo. A maconha, muitas vezes romantizada como inofensiva, pode comprometer memória, concentração, aprendizado, e desenvolvimento cerebral, especialmente entre adolescentes. Seu consumo frequente aumenta os riscos de dependência e transtornos psicóticos, sobretudo em pessoas vulneráveis. A cocaína apresenta consequências ainda mais devastadoras, incluindo arritmias, infartos, acidentes vasculares cerebrais, paranoia, surtos psicóticos, e dependência química intensa. Evidentemente, as bets também podem causar prejuízos profundos, como compulsão, endividamento, e desestruturação familiar. Mas reconhecer esses riscos exige coerência, não uma régua moral que muda conforme o produto, a preferência de espectro político ou a conveniência do discurso.

Isso não significa que regulamentar apostas e legalizar drogas sejam medidas equivalentes, tampouco que qualquer uma delas represente solução milagrosa para a criminalidade. São atividades distintas, com riscos específicos, e exigências próprias de fiscalização. O que merece ser denunciado é a demagogia de transformar a legalização em remédio para um problema e a proibição em solução para outro, sem apresentar critérios minimamente consistentes. Se a clandestinidade fortalece o crime organizado, o argumento precisa ser enfrentado com seriedade nos dois casos. Se a proteção da saúde pública justifica restrições, também é indispensável reconhecer os efeitos das drogas sobre o organismo e a sociedade. Combater vícios, proteger famílias, e reduzir a criminalidade exige responsabilidade, não slogans ou indignação seletiva. Afinal, quando a moral muda conforme o produto, talvez o verdadeiro vício esteja na própria hipocrisia.

Leo Pinheiro

Leo Pinheiro é diretor de Cinema e Jornalista, com passagem por revistas como Veja, Isto É, Exame, e Viver Brasil, onde atuou como correspondente internacional, em Nova Iorque.