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Política

Entre a fé e o exílio, Flávio encontra acolhimento nos Estados Unidos

03/11/2026 • 07:39 • Por Leo Pinheiro

Acompanhado da mulher, Fernanda Bolsonaro, do irmão Eduardo Bolsonaro e da cunhada Heloísa, Flávio pousou ao lado dos pastores José Maurício Fernandes e Alice Fernandes

Foto: Reprodução/X (antigo Twitter)

Em sua primeira aparição pública após deixar o Brasil, senador participa de culto evangélico na Flórida ao lado da mulher e do irmão Eduardo, enquanto busca reorganizar sua atuação política no exterior

Longe do Brasil, mas cercado pela família, pela fé e por manifestações de solidariedade, Flávio Bolsonaro (PL-RJ) escolheu um ambiente de oração para sua primeira aparição pública desde que passou a viver nos Estados Unidos. O senador, derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições presidenciais de outubro, participou no domingo, 1, de um culto na igreja Celeiro Flórida Casa de Oração, em Coral Springs, nas proximidades de Miami. Acompanhado da mulher, Fernanda Bolsonaro, do irmão Eduardo Bolsonaro e da cunhada Heloísa, Flávio apareceu em fotografias e vídeos divulgados pela congregação, cantando durante a celebração e posando ao lado dos pastores José Maurício Fernandes, conhecido como Paizão, e Alice Fernandes, chamada de Mãezona. O encontro ocorreu cinco dias depois de sua saída do Brasil, em meio a decisões judiciais que o parlamentar considera parte de uma perseguição política. Instalado temporariamente em território norte-americano, Flávio apresenta sua permanência no exterior como um autoexílio motivado pela necessidade de preservar a segurança da família e manter sua atuação pública. A celebração religiosa marcou, assim, não apenas seu reaparecimento diante das câmeras, mas também um momento de acolhimento em uma fase de profundas mudanças pessoais e políticas.

Durante o culto, o pastor José Maurício dirigiu palavras de incentivo ao senador, fazendo uma referência à derrota eleitoral sem mencionar diretamente a disputa presidencial. "Se perdeu, você está ganhando", afirmou o religioso, em uma mensagem sobre perseverança, fé e a possibilidade de encontrar novos caminhos diante das adversidades. A declaração ganhou significado especial diante das circunstâncias vividas por Flávio, que continua contestando o resultado das eleições e questionando decisões do Supremo Tribunal Federal (STF). Nas redes sociais, a igreja celebrou a presença dos visitantes e compartilhou imagens dos irmãos Bolsonaro acompanhados das respectivas esposas. A congregação integra o ministério fundado pelo pastor André Fernandes, anteriormente ligado à Igreja Lagoinha Alphaville e que manifestou apoio à candidatura do senador. Com atividades voltadas à comunidade brasileira na Flórida desde janeiro deste ano, a Celeiro reúne fiéis que encontram na igreja um espaço de convivência e preservação de vínculos culturais e religiosos. Para Flávio e Eduardo, o encontro também representou uma oportunidade de reencontrar apoiadores e participar de uma celebração em português, em um ambiente familiar aos brasileiros que vivem nos Estados Unidos.

Fé e novos caminhos

A permanência de Flávio Bolsonaro nos Estados Unidos acontece em meio a uma situação jurídica complexa. O senador é investigado no Supremo Tribunal Federal por suspeitas que incluem lavagem de dinheiro e evasão de divisas, acusações que nega. Na segunda-feira, 26, um dia após o segundo turno presidencial, o ministro Alexandre de Moraes determinou a entrega de seus passaportes e estabeleceu medidas cautelares, incluindo a proibição de deixar o território brasileiro. Flávio, entretanto, já havia iniciado seu deslocamento internacional, passando pela Argentina e pelo Equador antes de chegar aos Estados Unidos. Posteriormente, a Polícia Federal cancelou seus passaportes brasileiros. O parlamentar sustenta que sua decisão de permanecer no exterior foi motivada por preocupações com a segurança pessoal e familiar, além do desejo de continuar participando do debate político sem as restrições que atribui à atuação do Judiciário. Em carta divulgada após sua chegada, agradeceu a acolhida do Presidente norte-americano Donald Trump e do Presidente argentino Javier Milei, apresentando sua permanência fora do Brasil como uma etapa de resistência política. Embora Flávio caracterize sua situação como exílio político, essa definição corresponde à interpretação do próprio senador e não altera a existência das investigações e determinações judiciais em andamento. O parlamentar também reafirmou sua intenção de continuar representando politicamente os eleitores que apoiaram sua candidatura, mesmo a distância.

A primeira aparição pública de Flávio em uma igreja evangélica também reforça a ligação histórica da família Bolsonaro com lideranças religiosas e comunidades cristãs, que desempenharam papel importante em sua trajetória política. A presença de Eduardo Bolsonaro, que vive nos Estados Unidos desde 2025, acrescentou um componente familiar ao encontro, realizado em um momento de reorganização do campo conservador brasileiro após as eleições. Flávio pretende manter contatos com parlamentares, governadores e aliados, além de realizar pronunciamentos e participar de articulações políticas a partir do território norte-americano. A proximidade com Donald Trump e o diálogo com lideranças internacionais poderão contribuir para ampliar a repercussão de suas posições, embora ainda não esteja definido como essa atuação se desenvolverá nos próximos meses. Seu mandato no Senado termina em janeiro de 2027, circunstância que também deverá influenciar os próximos passos de sua carreira. Enquanto o governo Lula se prepara para um novo período à frente do país, Flávio busca preservar sua presença no cenário nacional e manter a interlocução com os milhões de brasileiros que votaram nele. A participação no culto não resolve as questões jurídicas e políticas que cercam sua permanência nos Estados Unidos, mas revelou um lado mais pessoal desse momento, marcado pela convivência familiar, pela espiritualidade e pelo apoio de pessoas próximas. Entre a distância da terra natal e a expectativa de novos caminhos, o senador procura transformar o autoexílio em uma etapa de continuidade de sua trajetória pública, mantendo aberta a perspectiva de um futuro retorno ao Brasil.

Leo Pinheiro