Ao fim do terceiro mandato do petista, Banco Central revela crescimento de 75% no endividamento de risco em cinco anos, renda familiar comprometida e inadimplência nos maiores níveis em mais de uma década
A conta do terceiro mandato do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chega ao fim com um resultado preocupante para milhões de brasileiros: salários comprometidos, prestações acumuladas e famílias cada vez mais dependentes do crédito para equilibrar o orçamento. Segundo o Relatório de Estabilidade Financeira divulgado pelo Banco Central nesta terça-feira, 27, o número de brasileiros em situação de endividamento de risco alcançou 20,3 milhões em junho de 2026, um crescimento de 75% em relação ao mesmo período de 2021. Embora o levantamento compreenda cinco anos e inclua pequena parte do governo anterior, o resultado evidencia a gravidade do problema ao término do mandato de Lula, iniciado em janeiro de 2023. O contingente representa aproximadamente 17% dos devedores do Sistema Financeiro Nacional e expõe as dificuldades enfrentadas por uma parcela expressiva da população para honrar seus compromissos financeiros. O relatório também revela que o comprometimento da renda das famílias com dívidas atingiu o maior patamar dos últimos 21 anos, enquanto os indicadores de inadimplência e de operações problemáticas alcançaram níveis não observados desde 2012. Os números colocam em evidência um dos principais desafios econômicos do governo petista: transformar os avanços anunciados nos indicadores de renda e emprego em maior segurança financeira para os brasileiros.
O peso das dívidas é especialmente elevado entre os trabalhadores de menor renda, justamente aqueles que enfrentam maiores dificuldades para absorver o custo dos juros e as despesas essenciais do dia a dia. Entre os brasileiros que recebem até dois salários mínimos, grupo que reúne aproximadamente 61,2 milhões de pessoas, o pagamento de dívidas compromete, em média, 42% da renda mensal, sendo 15% destinados exclusivamente às obrigações relacionadas ao cartão de crédito. Para quem ganha mais de dez salários mínimos, o comprometimento total é de 18,6%, diferença que demonstra como o endividamento atinge de maneira desigual as diversas camadas da população. O Banco Central considera em situação de risco os consumidores que apresentam pelo menos duas condições de vulnerabilidade, como atrasos superiores a 90 dias, comprometimento de mais da metade da renda com dívidas, utilização simultânea de modalidades caras de financiamento ou renda restante abaixo da linha de pobreza após o pagamento das prestações. Durante o terceiro mandato de Lula, a combinação entre juros elevados, expansão de determinadas modalidades de crédito, e dificuldades de pagamento tornou-se um problema persistente. Apesar das iniciativas governamentais de renegociação de débitos, os dados mais recentes demonstram que o país chega ao encerramento do período presidencial com milhões de consumidores financeiramente pressionados.
Quatro anos de contas apertadas
O agravamento dos indicadores financeiros também levanta questionamentos sobre a eficácia das políticas econômicas e de crédito adotadas ao longo do governo Lula. Embora o Presidente tenha defendido a ampliação do poder de compra e a recuperação da renda dos trabalhadores como prioridades de sua administração, o Banco Central identificou que parte do aumento da renda disponível foi direcionada à contratação de novas dívidas, inclusive em modalidades de custo elevado. Cartão de crédito, cheque especial e empréstimos pessoais sem consignação continuaram sendo utilizados por consumidores que já apresentavam dificuldades financeiras, ampliando sua exposição aos juros. A facilidade de contratação por aplicativos e plataformas digitais também contribuiu para aumentar o acesso a financiamentos, nem sempre acompanhado de uma avaliação adequada da capacidade de pagamento. O resultado é um cenário em que a expansão do crédito não se traduziu necessariamente em maior estabilidade financeira para as famílias, especialmente entre os brasileiros de menor renda. O relatório mostra ainda que a inadimplência foi um dos principais fatores responsáveis pela deterioração da qualidade das operações bancárias, enquanto o comprometimento da renda atingiu um recorde histórico de duas décadas. A situação representa um desafio para o balanço econômico do terceiro mandato de Lula, embora não seja possível atribuir exclusivamente às decisões do governo federal um fenômeno influenciado também pela política monetária, pelas práticas das instituições financeiras e pelas condições individuais de renda e consumo.
Diante do avanço do endividamento, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, anunciou novas medidas destinadas a restringir ofertas agressivas de crédito e ampliar a proteção dos consumidores financeiramente vulneráveis. Entre as mudanças estão mecanismos para bloquear propostas de empréstimos, exigências de autorização prévia para determinadas ofertas e ferramentas digitais que permitirão aos clientes visualizar melhor suas obrigações financeiras. Parte das regras começará a valer em março de 2027, enquanto outras medidas estão previstas para julho. O governo Lula também anunciou uma nova etapa do programa Desenrola, voltada à renegociação de dívidas antigas, mas a dimensão do problema revela que as iniciativas precisarão produzir resultados concretos para interromper a deterioração da capacidade de pagamento das famílias. Apesar dos indicadores preocupantes, o Banco Central ressalta que o sistema financeiro brasileiro permanece sólido, com níveis adequados de capitalização e liquidez, o que significa que o aumento das dificuldades dos consumidores não representa, neste momento, uma ameaça generalizada à estabilidade dos bancos. Para milhões de brasileiros, entretanto, a realidade é menos confortável: o terceiro mandato de Lula termina com 20,3 milhões de pessoas em situação de endividamento de risco e com a renda familiar comprometida no maior nível em 21 anos. Mais do que apresentar programas de renegociação, o desafio econômico será criar condições para que os trabalhadores consigam pagar suas despesas, reduzir a dependência de empréstimos e recuperar o controle sobre o próprio orçamento.