Boato de que senador teria fugido para a Argentina rumo aos EUA é desmentido pelo controle migratório argentino; Eduardo Bolsonaro ironiza notícia e acusa a esquerda de espalhar informações falsas
Uma fuga internacional que não deixou rastros, um jato particular cercado de especulações, e, até, um foguete de Elon Musk entraram no roteiro de uma história que ganhou repercussão política, mas esbarrou nos registros oficiais da Argentina. Nesta terça-feira, 27, a Direção Nacional de Migrações argentina desmentiu a informação de que o senador Flávio Bolsonaro (PL) teria entrado no país para seguir viagem aos Estados Unidos, contrariando rumores repercutidos por adversários políticos do parlamentar. A versão surgiu um dia depois de o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinar a retenção dos passaportes comum e diplomático de Flávio, derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno presidencial. Segundo a narrativa que circulou nas redes sociais, o senador teria atravessado a fronteira brasileira, chegado à cidade argentina de Puerto Iguazú e se preparado para embarcar em uma aeronave particular com destino ao território norte-americano. Entretanto, as autoridades migratórias argentinas afirmaram que não havia qualquer registro oficial de entrada de Flávio Bolsonaro no país, enfraquecendo a acusação de que ele estaria tentando escapar da determinação judicial.
A história ganhou força depois da divulgação de informações sobre a movimentação de um avião executivo na região de fronteira entre Brasil e Argentina. A aeronave mencionada, um Gulfstream G400, de matrícula LV-JQW, teria realizado um deslocamento entre Buenos Aires e Puerto Iguazú, alimentando especulações de que estaria à disposição do senador. A versão foi associada a uma suposta tentativa de chegar aos Estados Unidos, onde vive seu irmão, o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro. No entanto, o controle migratório argentino informou que não encontrou registros da passagem de Flávio pela fronteira, enquanto representantes do governo de Javier Milei também negaram a existência de qualquer pedido de asilo político apresentado pelo parlamentar. As autoridades acrescentaram que a fiscalização da aeronave e de sua tripulação não identificou irregularidades documentais nem elementos que comprovassem ligação com a família Bolsonaro. Apesar de ter sido divulgada e repercutida como uma possível fuga, a narrativa não foi acompanhada de provas concretas, e a negativa oficial argentina colocou em dúvida a veracidade das acusações. A ausência de registro migratório, por si só, não permite estabelecer todos os deslocamentos de uma pessoa, mas contradiz a alegação específica de uma entrada regular de Flávio no país vizinho.
Eduardo ironiza e acusa a esquerda
A reação mais contundente veio de Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio e ex-deputado federal, que atualmente reside nos Estados Unidos. Ao ser questionado pela imprensa sobre a suposta viagem do senador à Argentina, Eduardo respondeu com ironia, e transformou a especulação em motivo de deboche. “É o Elon Musk que está mandando um foguete”, declarou, em referência ao empresário norte-americano proprietário da SpaceX. Em seguida, rejeitou categoricamente a informação e atribuiu sua circulação a adversários políticos da família. “Óbvio que é mentira. Isso é a esquerda querendo justificar ação contra ele [Flávio]”, completou. A declaração reforçou a reação de aliados do senador, que classificaram a história como uma notícia falsa utilizada para alimentar suspeitas de fuga e sustentar politicamente a decisão de Alexandre de Moraes. Eduardo argumentou que a narrativa teria sido construída para apresentar o irmão como alguém disposto a abandonar o Brasil após a derrota eleitoral. Embora a negativa das autoridades argentinas contradiga a versão divulgada, a acusação de que a esquerda teria organizado deliberadamente a circulação do boato representa uma interpretação política de Eduardo, sem comprovação independente apresentada até aquele momento.
A controvérsia ocorreu em meio ao acirramento das tensões entre a oposição e o Supremo Tribunal Federal, depois que Moraes determinou que Flávio Bolsonaro entregasse seus passaportes e permanecesse em território brasileiro. O senador já havia negado qualquer intenção de deixar o país e questionado a necessidade da medida, adotada logo após a reeleição de Lula. A Polícia Federal passou a verificar informações relacionadas à possível movimentação do parlamentar, enquanto aliados, entre eles o senador Rogério Marinho (PL-RN), rejeitaram a hipótese de fuga. O desmentido do controle de imigração argentino tornou-se o principal elemento contrário à versão de que Flávio teria utilizado o país vizinho como escala para chegar aos Estados Unidos, mas não encerrou os questionamentos políticos sobre a decisão judicial. Para os aliados do parlamentar, o episódio demonstra como informações não verificadas podem ganhar dimensão nacional em momentos de intensa polarização. Até a divulgação das negativas oficiais, não haviam sido apresentados documentos migratórios, registros de embarque ou outras evidências que comprovassem a suposta viagem. Assim, uma história que começou com rumores de fuga internacional terminou com um desmentido argentino, e uma provocação de Eduardo Bolsonaro envolvendo Elon Musk, deixando em evidência os riscos da circulação de acusações sem comprovação em meio à disputa política brasileira.