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Política

Flávio leva a melhor, pergunta a Lula “Quem governa o Brasil, você ou o Google?”, e vence último duelo na Globo

24/10/2026 • 00:51 • Por Leo Pinheiro

Sob a insistência de Lula em sugerir Flávio a procurar as respostas no "Gúgu"; o senador reagiu impiedosamente: "Lula, quem governa o Brasil, você ou o Google?"

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Senador demonstra maior controle emocional, explora desgaste do governo e pressiona Presidente com denúncias de corrupção, enquanto Lula se atrapalha com o cronômetro, perguntas confusas e respostas evasivas

No último round antes das urnas, Flávio Bolsonaro colocou Lula nas cordas e levou a melhor no debate presidencial da TV Globo, realizado na noite de sexta-feira, 23. Em um confronto marcado por acusações, provocações, e cobranças, o senador do PL conseguiu explorar as vulnerabilidades do governo petista, pressionar o Presidente com questionamentos sobre suspeitas de corrupção, e apresentar uma postura mais segura diante das câmeras. Enquanto Flávio buscava transformar o debate em um julgamento dos resultados da atual administração, Lula passou boa parte do tempo defendendo seu histórico político, atacando o adversário, e tentando justificar os problemas enfrentados pelo governo. A vantagem de Flávio ficou especialmente evidente nos momentos de perguntas livres, quando o senador demonstrou maior tranquilidade, utilizou frases de efeito, aparentemente bem ensaiadas com seu media training, e conseguiu conduzir parte dos embates para temas desconfortáveis ao Presidente. Lula, por sua vez, apresentou um desempenho irregular, marcado por dificuldades de comunicação, respostas pouco objetivas, e problemas na administração do próprio tempo. Embora o confronto não tenha produzido uma vitória incontestável, o candidato da oposição apresentou desempenho mais consistente, explorando o desgaste do governo e as dificuldades do petista para construir uma narrativa convincente sobre os próximos quatro anos.

Um dos momentos de maior pressão sobre Lula ocorreu quando Flávio Bolsonaro trouxe à discussão o nome do banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, e questionou o Presidente sobre uma suposta garrafa de uísque Macallan 1945, avaliada em aproximadamente R$ 500 mil, que teria sido oferecida pelo empresário. A acusação ganhou repercussão após a divulgação de mensagens do banqueiro e obtidas pela Polícia Federal. Lula afirmou anteriormente não saber se havia recebido o presente, e tentou trazer leveza à situação dizendo que, caso tivesse ganhado a bebida, provavelmente já a teria consumido. O Presidente tentou inverter o desgaste ao mencionar um contrato de aproximadamente R$ 134 milhões, negociado entre Flávio e Vorcaro para financiar o filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro. O senador respondeu que a negociação envolvia um investimento privado. Flávio também pressionou Lula ao mencionar Roberta Luchsinger, amiga de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, investigada por suspeitas de intermediação de pagamentos relacionados ao chamado Careca do INSS. O candidato questionou quem estaria sustentando o filho do Presidente, atualmente na Espanha, e cobrou transparência sobre visitas da lobista ao Palácio do Planalto e gastos com cartões corporativos. Lula reagiu acusando o adversário de mentir, mas o embate terminou sem esclarecimentos definitivos sobre as suspeitas levantadas.

Lula sob pressão

Um dos momentos mais marcantes do debate ocorreu quando Flávio Bolsonaro surpreendeu ao pedir desculpas a Lula, adotando uma postura conciliadora em meio à troca de ataques pessoais. O episódio começou quando o senador afirmou que o governo concedia benefícios com uma mão e retirava dinheiro dos brasileiros com os "nove dedos" do Presidente, em referência à deficiência física do petista. Irritado, Lula exigiu que o candidato do PL se desculpasse pela expressão. Flávio respondeu: "Lula, se eu te ofendi, porque eu te chamei de nove dedos, eu peço desculpas. De verdade não queria te ofender." A atitude representou um dos momentos em que o senador apresentou uma imagem mais humanizada, demonstrando empatia e disposição para reconhecer uma provocação inadequada. O gesto também teve potencial para despertar simpatia entre os espectadores, ao contrastar com o clima de hostilidade que predominava no confronto. Pouco depois, Flávio Bolsonaro conquistou direito de resposta após ser chamado novamente de "miliciano" por Lula, reforçando o contraste entre o pedido de desculpas do senador e a insistência do Presidente nas ofensas pessoais. As dificuldades do petista, entretanto, não ficaram restritas aos embates mais acalorados. Lula também se atrapalhou com aspectos básicos da dinâmica do debate, como o cronômetro e a organização das perguntas. Em diferentes momentos, formulou questionamentos genéricos, acrescentando apenas ao final referências geográficas como "no Sudeste" ou "no Rio Grande do Sul", sem desenvolver adequadamente o contexto regional. A condução das réplicas também comprometeu a clareza das discussões: em vez de se concentrar na resposta recebida, o Presidente introduzia novas perguntas, dificultando o exercício da tréplica pelo adversário, enquanto recorria repetidamente à afirmação "ele não respondeu". A comunicação verbal tampouco ajudou. Entre construções gramaticais imprecisas, frases interrompidas, e raciocínios pouco articulados, Lula apresentou um discurso frequentemente fragmentado, hesitante e de difícil compreensão, recorrendo ainda a ofensas pronunciadas em tom agressivo. Outro momento particularmente desfavorável ao Presidente ocorreu quando, diante de questionamentos, Lula insistia em sugerir Flávio a procurar as respostas no "Gúgu". O senador reagiu impiedosamente: "Lula, quem governa o Brasil, você ou o Google?". A resposta sintetizou a estratégia de Flávio de cobrar explicações diretamente do Chefe do Executivo, transformando a referência ao mecanismo de buscas em uma crítica à capacidade do Presidente de responder pelos atos de sua administração. Na discussão sobre segurança pública, Lula também utilizou uma formulação interpretada por adversários como uma promessa de "acabar com a polícia", trecho rapidamente explorado nas redes sociais por apoiadores de Flávio, incluindo o deputado Nikolas Ferreira. O debate ainda reservou espaço para uma disputa sobre a responsabilidade pela expansão das apostas eletrônicas. Flávio chamou Lula de "pai do Tigrinho", enquanto o petista atribuiu a responsabilidade a Jair Bolsonaro. A legislação que autorizou as apostas de quota fixa, entretanto, foi aprovada em dezembro de 2018, durante o governo Michel Temer. Entre ataques, respostas, e dificuldades de comunicação, Flávio conseguiu demonstrar maior controle emocional e explorar os momentos de desorganização mental do adversário, enquanto Lula teve dificuldades para escapar da defensiva e conduzir o confronto para temas mais favoráveis ao governo.

O saldo do último debate apontou vantagem de Flávio Bolsonaro no confronto televisivo, especialmente pela capacidade de explorar a insatisfação com o governo, apresentar propostas voltadas ao futuro e aproveitar as dificuldades de Lula na condução das discussões. A fragilidade do Presidente diante das cobranças sobre sua administração ganhou relevância com os números da pesquisa Datafolha divulgada na quinta-feira, 22, que apontou 48% de reprovação ao governo petista. Enquanto Lula insistiu na defesa de realizações anteriores, em comparações com a gestão Jair Bolsonaro, e em ataques pessoais, Flávio procurou concentrar sua mensagem em questões diretamente relacionadas ao cotidiano dos brasileiros, como poder de compra, segurança pública, e liberdade. O contraste também apareceu na comunicação: o senador demonstrou maior objetividade em momentos importantes, enquanto o Presidente alternou respostas evasivas, perguntas pouco elaboradas, e dificuldades para organizar seu raciocínio dentro do tempo disponível. Nas considerações finais, Flávio resumiu sua estratégia com uma pergunta dirigida aos eleitores: "Sua vida piorou ou melhorou?". Lula, por sua vez, voltou a apresentar a disputa como uma escolha entre a continuidade democrática e o que classificou como retrocesso. A diferença entre as estratégias ficou evidente: de um lado, um candidato tentando convencer o eleitor de que o país precisa mudar; de outro, um Presidente obrigado a defender os resultados de seu próprio governo. Flávio encerrou o debate com vantagem na condução dos momentos de maior tensão, maior clareza na apresentação de suas críticas, e uma imagem mais equilibrada, especialmente ao reconhecer o excesso cometido contra Lula e pedir desculpas publicamente. O Presidente, por sua vez, deixou escapar oportunidades de neutralizar as cobranças, recuperar a iniciativa política, e apresentar respostas convincentes sobre os problemas de sua administração.

Leo Pinheiro