Há muitos anos, conversando com o proprietário de uma gráfica com quem eu trabalhava frequentemente, expliquei por que tinha uma regra que considerava inegociável nas minhas relações profissionais: nunca mentir para um cliente.
Meu raciocínio era simples. Se eu avisasse que havia um problema na produção, que não conseguiria cumprir determinado prazo ou que alguma coisa não sairia como planejado, provavelmente o cliente ficaria muito bravo comigo. Mas, se eu mentisse para esconder o problema e ele descobrisse que tinha sido enganado, ficaria furioso.
E existe uma diferença enorme entre essas duas reações.
Quando alguém nos conta uma verdade desagradável, ainda temos a possibilidade de agir. Podemos procurar outra solução, mudar de fornecedor, reorganizar um compromisso, recorrer a um plano B ou até aceitar a situação como está. Podemos não gostar da notícia, mas continuamos tendo o direito de decidir o que fazer diante dela.
Quando somos enganados, esse direito nos é retirado. Tomamos decisões com base em informações falsas, acreditando que estamos no controle de uma situação que, na realidade, desconhecemos.
Por isso, descobrir uma mentira costuma provocar uma reação muito mais intensa do que receber uma notícia ruim. Não é apenas o problema original que nos incomoda. É perceber que alguém decidiu, deliberadamente, manipular aquilo que sabíamos para influenciar nossas escolhas.
Como o marketing ganhou fama de enganação
Durante muito tempo, o marketing e a publicidade conviveram com práticas que contribuíram para associar essas atividades à manipulação. Produtos apresentados como milagrosos, promessas exageradas, benefícios impossíveis de comprovar, imagens que criavam expectativas irreais e mensagens cuidadosamente construídas para esconder informações inconvenientes.
Não é difícil entender por que tantas pessoas passaram a desconfiar de discursos comerciais. A expressão “isso é puro marketing” ainda é frequentemente utilizada para desqualificar alguma coisa, como se marketing fosse sinônimo de aparência sem substância, exagero ou enganação. Mas marketing não é mentir para vender. É compreender necessidades, desenvolver ofertas de valor, comunicar diferenciais e construir relações de troca. A mentira pode até ser utilizada como recurso para conseguir uma venda, mas não se transforma em estratégia legítima apenas porque foi colocada dentro de uma campanha.
Uma promessa comercial cria uma expectativa. E, quando a experiência não corresponde ao que foi prometido, o cliente percebe a distância entre o discurso e a realidade. Às vezes, essa distância resulta de um erro. Outras vezes, é consequência de uma decisão consciente de apresentar uma realidade que não existe.
O problema não é apenas o que se diz, mas o que se faz acreditar
Existe uma forma de enganar que não depende de contar uma mentira explícita. É possível utilizar informações verdadeiras de maneira seletiva, omitir dados relevantes, retirar acontecimentos de contexto ou apresentar uma situação de modo que o público chegue a uma conclusão equivocada.
Imagine uma empresa anunciando um preço extremamente atraente, mas deixando para revelar taxas obrigatórias somente na última etapa da compra. Ou divulgando um resultado excepcional sem explicar que ele ocorreu em condições muito específicas, difíceis de reproduzir. Talvez cada informação apresentada seja tecnicamente verdadeira. Mas isso não significa que a comunicação, considerada em seu conjunto, seja honesta.
A questão fundamental é a intenção de esclarecer ou de induzir.
Uma comunicação responsável procura oferecer elementos suficientes para que as pessoas compreendam aquilo que está sendo apresentado. Uma comunicação enganosa explora justamente aquilo que o público desconhece. E quanto maior a confiança depositada em quem comunica, maior a responsabilidade sobre o que é divulgado.
A confiança é construída lentamente e pode ser perdida rapidamente
Marcas não existem apenas nos logotipos, nas campanhas publicitárias ou nos discursos institucionais. Elas existem, principalmente, na percepção que as pessoas constroem a partir de suas experiências e dos sinais que recebem.
Uma empresa pode investir durante anos para conquistar uma reputação de seriedade, competência e credibilidade. Mas, quando seus clientes descobrem que foram deliberadamente enganados, todas as experiências anteriores podem passar a ser reinterpretadas. A pergunta deixa de ser apenas “por que fizeram isso comigo?” e passa a ser “em que mais mentiram para mim?”.Esse é um dos efeitos mais destrutivos da mentira: ela contamina até aquilo que era verdadeiro.
Depois que a confiança é abalada, uma explicação legítima pode soar como desculpa, uma promessa pode parecer suspeita e até uma informação correta pode ser recebida com desconfiança.
E não adianta imaginar que o problema será resolvido apenas com uma campanha de reposicionamento, uma nova identidade visual ou um discurso mais convincente. A credibilidade não é restaurada por uma declaração de boas intenções. Ela precisa ser reconstruída por comportamentos consistentes.
Errar é humano; enganar é uma escolha
É importante distinguir situações diferentes. Empresas são administradas por pessoas, processos falham, fornecedores atrasam, previsões não se confirmam e informações podem estar incorretas. Nenhuma organização está imune a erros.
Mas existe uma diferença entre cometer um erro e decidir escondê-lo, entre divulgar uma informação equivocada e continuar repetindo-a depois de descobrir que é falsa, entre prometer algo acreditando que poderá cumprir e fazer uma promessa sabendo que ela não corresponde à realidade. A maneira como uma marca reage quando alguma coisa dá errado revela muito sobre seus valores.
Reconhecer uma falha, corrigir uma informação, assumir uma responsabilidade e explicar o que será feito para resolver o problema pode ser desconfortável. Mas demonstra respeito por quem confiou naquela empresa. Já insistir numa informação falsa porque ela produz resultados convenientes significa colocar o interesse de quem comunica acima do direito de quem recebe a mensagem de conhecer os fatos.
E essa escolha tem consequências que vão muito além de uma venda perdida.
A verdade também é uma forma de respeito
Toda comunicação influencia percepções e decisões. É por isso que ela carrega uma responsabilidade que muitas vezes é negligenciada. Quem comunica escolhe palavras, imagens, argumentos, dados e exemplos. Decide o que destacar, o que contextualizar e quais informações são necessárias para que o público compreenda determinada situação. Essas escolhas podem servir para esclarecer ou para confundir, para informar ou para manipular, para construir confiança ou explorar a confiança que já existe.
O fato de uma mensagem produzir o resultado desejado não significa que ela seja correta. Conseguir convencer alguém não é a mesma coisa que merecer sua confiança.
No mundo dos negócios, é natural querer vender mais, conquistar clientes, ampliar a audiência e fortalecer a própria marca. Mas nenhum desses objetivos deveria justificar a utilização deliberada de informações falsas ou enganosas.Porque, quando alguém nos diz a verdade, mesmo que ela seja desagradável, preserva nossa liberdade de escolha. Quando nos engana, interfere nessa liberdade.
E talvez essa seja a pergunta que toda empresa deveria fazer antes de divulgar uma mensagem: Estou oferecendo ao meu público informações para que ele possa decidir ou estou tentando conduzi-lo a uma decisão que talvez não tomasse se conhecesse toda a verdade?
A resposta diz muito sobre o tipo de relação que essa marca pretende construir com as pessoas. Afinal, ninguém gosta de ser enganado. E nenhuma marca deveria esperar conquistar confiança desrespeitando justamente quem confia nela.