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Gaivota levanta voo no Rio e mostra que as angústias humanas não saem de cena

23/10/2026 • 12:09 • Por Waleria de Carvalho

O espetáculo cumpre temporada no Teatro Municipal Carlos Gomes, na Praça Tiradentes, até 1º de novembro

Foto: Divulgação/ João Gabriel Monteiro

Clássico de Anton Tchékhov ganha montagem contemporânea da Armazém Companhia de Teatro, explorando conflitos afetivos, frustrações e a busca por reconhecimento

Há mais de um século, uma gaivota levantou voo nos palcos e, desde então, nunca mais deixou de sobrevoar as inquietações da alma humana. Entre amores frustrados, sonhos interrompidos e a eterna necessidade de ser reconhecido, Gaivota, clássico de Anton Tchékhov escrito no final do século XIX, retorna ao Rio de Janeiro mostrando que o tempo passa, mas certas angústias continuam em cartaz. Com direção de Paulo de Moraes, a nova montagem da Armazém Companhia de Teatro mistura humor, melancolia e conflitos existenciais para provocar uma reflexão tão simples quanto desconcertante: como reconhecer a vida enquanto estamos vivendo? O espetáculo cumpre temporada no Teatro Municipal Carlos Gomes, na Praça Tiradentes, até 1º de novembro, reafirmando a atualidade de uma obra que atravessa gerações sem perder sua capacidade de emocionar e incomodar.

Ambientada em uma propriedade rural às margens de um lago, a trama acompanha personagens aprisionados entre desejos, ambições artísticas e relacionamentos marcados pela falta de reciprocidade. No centro da história estão Konstantin Treplev (Jopa Moraes), jovem escritor determinado a revolucionar a linguagem teatral, e Nina (Lorena Lima), aspirante a atriz seduzida pela promessa de sucesso e reconhecimento. Ao redor deles, personagens interpretados por Bruno Lourenço, Felipe Bustamante, Isabel Pacheco, Patrícia Selonk e Sérgio Machado revelam as contradições de uma sociedade em que a busca pela felicidade frequentemente esbarra na solidão. Considerada um marco do teatro moderno, a obra rompe com as convenções dramáticas tradicionais ao transformar silêncios, frustrações e conflitos íntimos em protagonistas, mostrando que, muitas vezes, os maiores dramas acontecem justamente naquilo que não é dito.

Um clássico que não envelhece

Mais do que revisitar uma obra consagrada, a montagem estabelece uma conexão direta entre o universo de Tchékhov e os dilemas da sociedade contemporânea. Ansiedade, necessidade de aprovação, pressão pelo sucesso, crise de pertencimento e busca incessante por visibilidade são questões que aproximam os personagens do século XIX das inquietações de quem vive em uma era dominada pelas redes sociais e pela exposição permanente. Os embates entre tradição e renovação artística também ganham destaque, colocando em discussão os conflitos entre gerações e diferentes maneiras de compreender o mundo. Para o diretor Paulo de Moraes, a força de um clássico está justamente na capacidade de continuar provocando desconforto e questionamentos. Segundo ele, o desafio não é simplesmente reconstruir o universo de Tchékhov, mas descobrir de que maneira aquela gaivota continua observando a sociedade atual, especialmente diante da necessidade humana de pertencimento.

Com 120 minutos de duração e classificação indicativa de 16 anos, a montagem tem dramaturgia assinada por Maurício Arruda Mendonça, Jopa Moraes e Paulo de Moraes, cenografia de Carla Berri e Paulo de Moraes, figurinos de Carol Lobato, iluminação de Maneco Quinderé e direção musical de Ricco Vianna. Realizado pelo Centro Cultural Banco do Brasil, o espetáculo permanece em cartaz às quintas e sextas-feiras, às 19h00, e aos sábados e domingos, às 17h00, com exceção do domingo, 25 de outubro, quando não haverá apresentação. Os ingressos custam R$ 80 (inteira) e R$ 40 (meia-entrada), com benefício para estudantes, professores da rede pública e maiores de 65 anos. A bilheteria funciona às quartas-feiras, das 14h00 às 18h00; quintas e sextas, das 16h00 às 20h00; e sábados e domingos, das 14h00 às 18h00. Entre o riso e o desencanto, Gaivota convida o público a reconhecer, nas fragilidades de seus personagens, um pouco de suas próprias histórias, porque, quando o assunto é a condição humana, o espetáculo parece nunca chegar ao fim.

Waleria de Carvalho