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Bem-estar & Saúde

UTIs na UTI: governo Lula enfrenta retrato alarmante da precariedade da saúde pública

21/10/2026 • 14:05 • Por Felipe Masid

Apenas 22,7% dos médicos consideraram totalmente adequada a oferta desses produtos nas UTIs públicas, contra 57,7% nas unidades privadas

Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Pesquisa com 2.338 médicos expõe falta de medicamentos, leitos e profissionais especializados no SUS e cobra do governo federal mais resultados do que anúncios e promessas

Quando um brasileiro precisa de uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI), não deveria importar se ele tem dinheiro para pagar um plano de saúde ou depende exclusivamente do Sistema Único de Saúde (SUS). Na prática, porém, a realidade está longe desse ideal. Um levantamento da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib), com apoio do Conselho Federal de Medicina (CFM), revela um abismo entre as condições oferecidas pelas UTIs públicas e privadas, expondo fragilidades que exigem respostas concretas do governo federal. A pesquisa ouviu 2.338 médicos intensivistas e identificou avaliações superiores para a rede particular em 12 dos 13 aspectos analisados. Os resultados colocam em evidência uma questão incômoda para a gestão do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva: de que adianta anunciar investimentos, ampliar programas e defender o fortalecimento do SUS se parte dos hospitais públicos continua enfrentando dificuldades para garantir medicamentos, equipes especializadas e estrutura adequada aos pacientes mais graves? Embora muitos desses problemas sejam históricos e a administração hospitalar envolva também estados e municípios, cabe ao Ministério da Saúde exercer um papel central no financiamento, na coordenação e na definição de políticas nacionais capazes de reduzir essas desigualdades. A pesquisa mostra que a distância entre o discurso de valorização da saúde pública e as condições relatadas pelos profissionais ainda é preocupante.

Os números revelam uma situação particularmente grave na disponibilidade de medicamentos essenciais. Apenas 22,7% dos médicos consideraram totalmente adequada a oferta desses produtos nas UTIs públicas, contra 57,7% nas unidades privadas. Além disso, 16,1% avaliaram o abastecimento do SUS como inadequado ou totalmente inadequado, percentual mais de quatro vezes superior aos 3,8% registrados no setor particular. A situação também preocupa quando o assunto é a quantidade de leitos: somente 24,1% dos entrevistados atribuíram nota máxima à disponibilidade na rede pública, enquanto 51,4% fizeram a mesma avaliação das UTIs privadas. Entre os profissionais consultados, 32,6% consideraram insuficiente a oferta de leitos no SUS, diante de apenas 7,7% na rede particular. Esses resultados evidenciam problemas que não podem ser resolvidos apenas com campanhas publicitárias ou anúncios de expansão da estrutura hospitalar. Para um paciente em estado crítico, a ausência de um medicamento, a demora na transferência ou a falta de uma equipe completa podem comprometer o atendimento em um momento decisivo. O governo federal precisa demonstrar, com indicadores verificáveis e melhorias concretas, que os recursos destinados à saúde estão chegando à assistência intensiva. Não basta contabilizar investimentos previstos: é necessário avaliar a qualidade dos serviços efetivamente disponíveis à população.

Entre o discurso e a realidade dos hospitais

Outro ponto preocupante é a disponibilidade de profissionais especializados, indispensáveis ao funcionamento seguro das UTIs. Segundo o levantamento, apenas 23% dos médicos deram nota máxima à presença de equipes multiprofissionais especializadas na rede pública, enquanto 39,2% fizeram a mesma avaliação dos hospitais privados. Quando analisada a presença de enfermeiros com formação específica em terapia intensiva, o contraste permanece: 16,9% consideraram a disponibilidade totalmente adequada no SUS, contra 25,1% na rede particular. As avaliações negativas nesse quesito chegaram a 37,2% nas unidades públicas. A pesquisa também identificou diferenças na adoção de protocolos clínicos, ferramentas fundamentais para padronizar tratamentos e reduzir riscos: 23,1% dos entrevistados deram nota máxima às UTIs públicas, diante de 40,2% às privadas. Esses dados reforçam a necessidade de questionar as prioridades da política nacional de saúde. A ampliação do número de leitos pode produzir resultados visíveis em balanços oficiais, mas uma cama hospitalar, isoladamente, não garante assistência adequada. Sem profissionais suficientes, medicamentos, equipamentos e processos eficientes, a estrutura anunciada corre o risco de não corresponder às necessidades dos pacientes. O Ministério da Saúde tem a responsabilidade de articular soluções com estados e municípios, aprimorar os mecanismos de financiamento e acompanhar a qualidade dos serviços. A cobrança ao governo Lula não deve se limitar à quantidade de recursos anunciados, mas alcançar sua aplicação, a eficiência da gestão e os resultados percebidos por quem depende do SUS.

O levantamento da Amib aponta a necessidade de uma política mais abrangente para a terapia intensiva brasileira, que considere infraestrutura, abastecimento, formação profissional, distribuição regional de recursos e acompanhamento permanente dos indicadores assistenciais. Segundo os dados apresentados pela entidade, o país possui 43.901 leitos de terapia intensiva, sendo 34.927 destinados a adultos e 8.974 ao atendimento pediátrico e neonatal. Entretanto, a existência desses leitos não elimina as desigualdades identificadas pelos médicos. A situação exige planejamento de longo prazo, fiscalização e transparência sobre os resultados das políticas públicas, além de cooperação efetiva entre as três esferas de governo. É importante reconhecer que a pesquisa retrata a percepção dos profissionais entrevistados e não comprova, isoladamente, que as deficiências tenham surgido durante a atual administração federal. Ainda assim, problemas antigos não deixam de ser responsabilidade de quem governa hoje. O governo Lula, que apresenta o fortalecimento do SUS como uma de suas prioridades, precisa mostrar como pretende enfrentar as fragilidades apontadas pelos especialistas, estabelecer metas e prestar contas dos avanços alcançados. A população não pode continuar convivendo com uma diferença tão expressiva nas condições de atendimento conforme sua capacidade de pagar por serviços particulares. Enquanto o governo celebra políticas e investimentos, os médicos alertam que a realidade das UTIs públicas exige muito mais do que promessas. Na hora de salvar vidas, o que importa não é o tamanho do anúncio oficial, mas a presença de medicamentos, profissionais qualificados e atendimento de qualidade ao lado do paciente.

Felipe Masid