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Opinião

Descomissionamento offshore: Uma nova fronteira para a economia e a sustentabilidade no Rio de Janeiro

21/10/2026 • 09:24 • Por Redação NTD

Por Jamerson Freitas de Souza 

O futuro da indústria de petróleo e gás não se resume à descoberta de novas reservas ou à ampliação da produção. Existe uma etapa igualmente estratégica, que ganha relevância à medida que instalações marítimas chegam ao fim de sua vida útil: o descomissionamento de plataformas offshore. Mais do que retirar estruturas do mar, esse processo envolve engenharia, logística, infraestrutura portuária, segurança, gestão ambiental e destinação responsável de materiais. Para o Brasil, especialmente para o Estado do Rio de Janeiro, esse cenário representa um desafio industrial e uma oportunidade de diversificação econômica.

O descomissionamento precisa ser compreendido como uma cadeia integrada, que começa no planejamento técnico e ambiental e se estende à preparação das unidades, à remoção marítima, ao recebimento em terra, ao desmonte e à destinação dos materiais. Cada etapa exige recursos especializados, profissionais qualificados e coordenação entre operadores, estaleiros, portos, transportadoras, órgãos reguladores e empresas de tratamento de resíduos. Quando essa integração falha, aumentam os riscos operacionais, os atrasos e os custos. Por isso, a eficiência não depende de uma instalação isolada, mas da capacidade de organizar toda a cadeia produtiva.

É nesse contexto que a infraestrutura existente ganha importância estratégica. O Rio de Janeiro reúne atividades ligadas ao petróleo e gás, instalações portuárias, estaleiros, fornecedores e mão de obra com experiência naval. Aproveitar essa base pode favorecer o desenvolvimento de novos serviços e reduzir a necessidade de criar estruturas inteiramente novas. O EISA – Estaleiro Ilha S.A., por exemplo, constitui uma referência prática de atividade de desmantelamento de embarcações e pode contribuir para a formação de competências e fornecedores. Isso não significa, entretanto, presumir sua aptidão para receber qualquer plataforma: cada operação exige avaliação específica de calado, capacidade estrutural, equipamentos, licenciamento e condições ambientais.

Outro eixo fundamental é a economia circular. Plataformas descomissionadas não devem ser tratadas simplesmente como estruturas destinadas ao descarte. Aços, equipamentos, cabos e componentes podem, conforme suas condições, ser reutilizados, recuperados ou reciclados, reinserindo materiais na atividade econômica. Essa possibilidade, porém, exige inventário, classificação, descontaminação e rastreabilidade. Materiais contaminados ou resíduos que demandem tratamento especial não podem ser confundidos com sucata comum. A sustentabilidade, nesse setor, precisa ser demonstrada por procedimentos, documentação e destinação ambientalmente adequada, e não apenas por discursos sobre preservação.

A dimensão logística talvez seja um dos maiores testes para a consolidação dessa atividade no país. A escolha entre remover uma plataforma integralmente, transportá-la por módulos ou realizar desmontagens parciais depende de suas características estruturais, das embarcações disponíveis, das condições marítimas e da capacidade da instalação de destino. Em terra, entram em cena o calado, a resistência dos cais e pisos, a disponibilidade de retroáreas, os equipamentos de movimentação e as condições para transportar cargas especiais. Não existe uma solução universal: cada projeto demanda engenharia própria, planejamento antecipado e compatibilidade entre as etapas marítima e terrestre.

As oportunidades também alcançam o mercado de trabalho e o desenvolvimento regional. Engenharia, soldagem, corte, manutenção, segurança operacional, transporte especializado, gestão ambiental e reciclagem são algumas das áreas que podem ser mobilizadas. Para transformar esse potencial em atividade econômica duradoura, entretanto, será necessário articular empresas, universidades, instituições de formação profissional, portos, estaleiros e poder público. O Estado pode contribuir com planejamento, coordenação institucional e previsibilidade regulatória, enquanto a iniciativa privada avalia investimentos, contratos e modelos de negócio. A dimensão financeira não pode ser ignorada: sem estudos consistentes de custos, receitas, riscos e demanda, não é possível afirmar a viabilidade de empreendimentos específicos.

O descomissionamento offshore deve, portanto, entrar na agenda estratégica brasileira como uma oportunidade de unir competitividade industrial, responsabilidade ambiental e desenvolvimento econômico. Para o Rio de Janeiro, o caminho passa por mapear capacidades existentes, identificar gargalos, qualificar profissionais, integrar fornecedores e estabelecer critérios técnicos rigorosos para cada operação. A transição entre o encerramento da vida útil de uma plataforma e a destinação de seus componentes não precisa representar apenas um custo para a indústria: pode estimular uma nova cadeia de serviços, desde que seja conduzida com planejamento, segurança e visão de longo prazo. O desafio não é apenas desmontar plataformas, mas transformar uma obrigação industrial em uma oportunidade sustentável para o país.

Jamerson Freitas de Souza é engenheiro civil, mestre em engenharia civil e atual diretor da Mútua, Caixa de Assistência dos profissionais do CREA.