Ex-governador do Rio de Janeiro, que acumulou condenações por corrupção e lavagem de dinheiro, anuncia apoio à reeleição do petista, elogia antiga parceria e critica Flávio Bolsonaro
A política brasileira ganhou mais um capítulo daqueles em que o passado volta a bater à porta do presente. Sérgio Cabral, ex-governador do Rio de Janeiro que acumulou condenações superiores a 425 anos de prisão em processos ligados à Operação Lava Jato, declarou apoio à reeleição do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), trazendo novamente à cena uma das figuras mais controversas da história política fluminense. Em vídeo divulgado nas redes sociais, Cabral anunciou que votará no petista no segundo turno das eleições presidenciais, marcado para domingo, 25, e aproveitou para criticar posições políticas do senador Flávio Bolsonaro (PL), adversário de Lula na disputa pelo Palácio do Planalto. O apoio chama a atenção pelo histórico judicial do ex-governador, preso durante aproximadamente seis anos em investigações sobre corrupção, lavagem de dinheiro e desvios de recursos públicos. Embora decisões posteriores tenham anulado parte de suas condenações, sua trajetória permanece associada a alguns dos maiores escândalos investigados no Rio de Janeiro. Agora, às vésperas de uma eleição acirrada, Cabral reaparece no debate nacional para defender o retorno de Lula às urnas, desta vez como candidato à continuidade de seu governo.
No vídeo, Sérgio Cabral justificou sua escolha afirmando que compartilha valores e propostas defendidos pelo Presidente, especialmente nas áreas de distribuição de renda e combate às desigualdades sociais. “O Lula representa tudo que eu penso em termos de distribuição de renda, de um país mais igualitário”, declarou o ex-governador, acrescentando uma mensagem direta aos eleitores: “Dia 25 é 13”. Cabral também destacou divergências ideológicas com Flávio Bolsonaro, principalmente em relação às políticas de cotas raciais, afirmando que o senador contestou judicialmente uma legislação sobre o tema no Rio de Janeiro. Apesar das críticas, o ex-governador afirmou conhecer a família Bolsonaro há décadas e reconheceu que manteve uma relação pessoal cordial com seus integrantes. Ao explicar sua decisão, fez questão de separar os vínculos pessoais das diferenças políticas, deixando claro que sua preferência por Lula está relacionada ao projeto de país defendido pelo petista. A manifestação ocorre em um momento em que os candidatos intensificam a busca por apoios públicos capazes de mobilizar eleitores, especialmente em estados estratégicos como o Rio de Janeiro, onde a polarização entre lulistas e bolsonaristas permanece como uma das principais características da disputa eleitoral.
Da Lava Jato ao palanque de Lula
A declaração também trouxe de volta a antiga aliança política entre Sérgio Cabral e Lula, construída durante os anos em que o emedebista governou o Rio de Janeiro, entre 2007 e 2014. O ex-governador relembrou que, ainda na campanha eleitoral de 2006, aproximou-se do petista e apresentou propostas para ampliar investimentos federais no estado. Segundo Cabral, a parceria permitiu desenvolver iniciativas nas áreas de infraestrutura, habitação, segurança pública, e saúde, incluindo projetos de urbanização de comunidades, apoio às Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) e expansão do modelo das Unidades de Pronto Atendimento (UPAs). Ele destacou a participação do governo federal em ações que considerava fundamentais para melhorar as condições de vida da população fluminense. Entretanto, a trajetória política do ex-governador sofreu uma reviravolta em novembro de 2016, quando foi preso no âmbito da Operação Lava Jato. Ao longo dos processos, Cabral acumulou condenações que chegaram a ultrapassar 425 anos de prisão, relacionadas a esquemas de corrupção, recebimento de propinas e lavagem de dinheiro. Ele permaneceu preso até dezembro de 2022, quando deixou o sistema penitenciário após decisões judiciais. Posteriormente, parte das sentenças foi anulada, incluindo três condenações que somavam aproximadamente 40 anos, em março de 2024. Essas anulações modificaram sua situação processual, mas não significaram absolvição geral de todas as acusações.
O apoio de Sérgio Cabral acrescenta um componente politicamente sensível à campanha de Lula, justamente porque aproxima novamente o Presidente de um antigo aliado cuja passagem pelo governo fluminense ficou marcada por escândalos de corrupção e investigações de grande repercussão nacional. Para o ex-governador, a escolha representa uma reafirmação de afinidades políticas e da parceria administrativa mantida durante seus mandatos. Para os adversários do petista, entretanto, o histórico de Cabral oferece um tema potencial para críticas sobre as antigas alianças do PT e sua relação com personagens envolvidos na Lava Jato. É importante distinguir, porém, o apoio eleitoral anunciado individualmente pelo ex-governador de uma eventual participação formal na campanha, que não foi confirmada. Também não há indicação de que Lula tenha solicitado ou negociado publicamente essa manifestação. A poucos dias do segundo turno, a declaração reforça a presença de figuras conhecidas da política fluminense na disputa nacional e reacende discussões sobre corrupção, alianças partidárias e responsabilidade pública. Depois de passar do Palácio Guanabara à prisão e acumular penas que ultrapassaram quatro séculos, Sérgio Cabral volta aos holofotes para pedir votos a Lula. O apoio pode representar a recuperação de uma antiga aliança política, mas também carrega o peso de um passado que continua provocando controvérsias no cenário brasileiro.