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Papo de Líderes

O poder não transforma as pessoas; ele revela quem elas são

19/10/2026 • 17:29 • Por Felício Ferraz

Durante boa parte da carreira profissional somos treinados para conquistar posições

Estudamos, buscamos resultados, desenvolvemos competências, disputamos promoções, e assumimos responsabilidades cada vez maiores.

Falamos muito sobre como chegar ao poder.

Mas, falamos muito menos sobre o que fazer conosco quando finalmente chegamos lá.

Talvez essa seja uma das conversas mais importantes sobre liderança.

Ao longo da minha trajetória profissional tive a oportunidade de conviver com executivos de diferentes nacionalidades, culturas,  e estilos. Conheci pessoas extraordinárias que se tornaram ainda mais generosas à medida que conquistavam posições maiores. Também observei profissionais brilhantes que, depois de receberem poder, passaram a agir como se as regras aplicáveis aos outros não servissem mais para eles.

Por isso gosto da ideia de que o poder não necessariamente muda uma pessoa. Muitas vezes ele apenas retira os freios que antes existiam.

Quando dependemos dos outros, precisamos ouvir; quando temos pouco poder, precisamos negociar; quando ainda estamos construindo nossa carreira, precisamos cuidar de nossos relacionamentos.

Mas quando chegamos ao topo, surge uma situação perigosa: podemos começar a acreditar que não precisamos mais fazer nada disso.

É justamente nesse momento que o caráter de um líder começa a aparecer com maior clareza.

- Como ele trata alguém que não pode ajudá-lo?
- Como reage quando é contrariado por uma pessoa hierarquicamente inferior?
- Como utiliza informações confidenciais?
- Como distribui reconhecimento?
- Como se comporta quando ninguém tem coragem de dizer "não"?

Essas perguntas dizem muito mais sobre liderança do que qualquer discurso sobre valores.

Existe ainda outro fenômeno interessante. Quanto mais poder acumulamos, menor tende a ser a quantidade de pessoas dispostas a nos dizer aquilo que realmente pensam.

O presidente entra na sala e a conversa muda; o fundador apresenta uma ideia e todos começam a encontrar razões para justificá-la; o diretor pergunta "O que vocês acham?", mas sua linguagem corporal já deixou claro qual resposta gostaria de ouvir.

A partir daí, o líder começa a correr um risco enorme: ele continua recebendo informações, mas deixa de receber a verdade.

Por isso acredito que uma das maiores responsabilidades de quem chega a posições de poder seja criar deliberadamente espaços onde possa ser questionado.

Precisamos de pessoas ao nosso redor que não sejam “vaquinhas de presépio”, pessoas que tenham liberdade para dizer: "não concordo com você".

Mais do que isso, precisamos aprender a agradecer quando alguém tem coragem de fazê-lo.

A verdadeira medida de um líder não está apenas na quantidade de poder que conquistou; está na maneira como escolhe utilizá-lo. Porque qualquer pessoa consegue demonstrar humildade quando precisa dos outros.

O teste começa quando ela já não precisa mais.

No final, talvez o poder seja apenas um grande amplificador. Ele aumenta nossa capacidade de fazer coisas extraordinárias, mas também torna muito mais visível aquilo que sempre esteve dentro de nós.

Felício Ferraz

Felício Ferraz trabalhou como executivo de empresas multinacionais como Shell e Souza Cruz; é conselheiro, professor, empreendedor em série; e ex-CEO da BAT - British American Tobacco - no Caribe, America Central, Sri Lanka, e Caucasus.