Durante boa parte da carreira profissional somos treinados para conquistar posições
Estudamos, buscamos resultados, desenvolvemos competências, disputamos promoções, e assumimos responsabilidades cada vez maiores.
Falamos muito sobre como chegar ao poder.
Mas, falamos muito menos sobre o que fazer conosco quando finalmente chegamos lá.
Talvez essa seja uma das conversas mais importantes sobre liderança.
Ao longo da minha trajetória profissional tive a oportunidade de conviver com executivos de diferentes nacionalidades, culturas, e estilos. Conheci pessoas extraordinárias que se tornaram ainda mais generosas à medida que conquistavam posições maiores. Também observei profissionais brilhantes que, depois de receberem poder, passaram a agir como se as regras aplicáveis aos outros não servissem mais para eles.
Por isso gosto da ideia de que o poder não necessariamente muda uma pessoa. Muitas vezes ele apenas retira os freios que antes existiam.
Quando dependemos dos outros, precisamos ouvir; quando temos pouco poder, precisamos negociar; quando ainda estamos construindo nossa carreira, precisamos cuidar de nossos relacionamentos.
Mas quando chegamos ao topo, surge uma situação perigosa: podemos começar a acreditar que não precisamos mais fazer nada disso.
É justamente nesse momento que o caráter de um líder começa a aparecer com maior clareza.
Essas perguntas dizem muito mais sobre liderança do que qualquer discurso sobre valores.
Existe ainda outro fenômeno interessante. Quanto mais poder acumulamos, menor tende a ser a quantidade de pessoas dispostas a nos dizer aquilo que realmente pensam.
O presidente entra na sala e a conversa muda; o fundador apresenta uma ideia e todos começam a encontrar razões para justificá-la; o diretor pergunta "O que vocês acham?", mas sua linguagem corporal já deixou claro qual resposta gostaria de ouvir.
A partir daí, o líder começa a correr um risco enorme: ele continua recebendo informações, mas deixa de receber a verdade.
Por isso acredito que uma das maiores responsabilidades de quem chega a posições de poder seja criar deliberadamente espaços onde possa ser questionado.
Precisamos de pessoas ao nosso redor que não sejam “vaquinhas de presépio”, pessoas que tenham liberdade para dizer: "não concordo com você".
Mais do que isso, precisamos aprender a agradecer quando alguém tem coragem de fazê-lo.
A verdadeira medida de um líder não está apenas na quantidade de poder que conquistou; está na maneira como escolhe utilizá-lo. Porque qualquer pessoa consegue demonstrar humildade quando precisa dos outros.
O teste começa quando ela já não precisa mais.
No final, talvez o poder seja apenas um grande amplificador. Ele aumenta nossa capacidade de fazer coisas extraordinárias, mas também torna muito mais visível aquilo que sempre esteve dentro de nós.