Amazonas registra explosão de 271% nos focos de incêndio em outubro de 2026, enquanto poluição chega a 59 vezes a referência da OMS e ameaça a saúde da população
O Brasil parece estar pegando fogo, e a conta dessa destruição já chegou aos pulmões da população. Depois de registrar, em 2024, uma das maiores tragédias ambientais de sua história, com aproximadamente 30 milhões de hectares consumidos pelas chamas, o país volta a enfrentar uma grave escalada de queimadas na Amazônia. Em Manaus, capital do Amazonas, o céu azul desapareceu sob uma espessa cortina de fumaça, transformando o simples ato de respirar em um risco à saúde. Neste sábado, 17, a concentração de partículas poluentes chegou a superar em 59 vezes a referência anual estabelecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS), colocando a cidade entre as mais poluídas do país. A crise ambiental expõe uma realidade preocupante: enquanto milhões de hectares de vegetação são atingidos pelo fogo, moradores da Região Norte enfrentam dificuldades respiratórias, irritação nos olhos e uma atmosfera carregada de substâncias tóxicas que ameaça principalmente crianças, idosos e pessoas com doenças crônicas.
A dimensão do problema começou a ganhar contornos ainda mais alarmantes em 2024. Segundo o Relatório Anual do Fogo do MapBiomas, divulgado em junho de 2025, o Brasil teve aproximadamente 30 milhões de hectares atingidos pelas queimadas naquele ano, extensão 62% superior à média histórica de 18,5 milhões de hectares anuais. Foi a segunda maior área queimada desde 1985, atrás apenas de 2007, enquanto a Amazônia registrou o maior território afetado pelo fogo em toda a série histórica. No bioma amazônico, foram cerca de 15,6 milhões de hectares queimados, número 117% acima da média. O levantamento também revelou que 24% do território brasileiro sofreu queimadas pelo menos uma vez entre 1985 e 2024. O cenário demonstra que os incêndios florestais deixaram de representar apenas perdas ambientais e passaram a constituir uma ameaça recorrente à saúde pública, à biodiversidade e à qualidade de vida de milhões de brasileiros.
Da floresta em chamas aos pulmões em risco
Em outubro de 2026, o Amazonas voltou a enfrentar uma escalada preocupante dos incêndios. Dados do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam) mostram que, somente nos dez primeiros dias do mês, foram registrados 1.380 focos de calor, contra 372 no mesmo período de 2025, um crescimento de 271%. Entre janeiro e 12 de outubro, o estado acumulou 7.815 focos, aumento de 116% em relação ao ano anterior. A fumaça produzida pelas queimadas, transportada pelos ventos e agravada pela estiagem, alcançou Manaus e outros municípios, comprometendo a qualidade do ar em uma extensa área da região. Na capital, o Índice de Qualidade do Ar chegou a 441 pontos na manhã deste sábado, classificação considerada perigosa pela plataforma IQAir. A concentração de partículas finas PM2,5 atingiu 295,9 microgramas por metro cúbico, aproximadamente 59 vezes a diretriz anual de 5 microgramas por metro cúbico da OMS, embora essa referência anual não seja um limite para medições instantâneas. Essas partículas microscópicas conseguem penetrar profundamente nos pulmões e até alcançar a corrente sanguínea, aumentando o risco de crises de asma, bronquite, agravamento de doenças cardiovasculares e outros problemas de saúde.
A relação entre a destruição ambiental e o adoecimento da população torna a situação ainda mais grave. A exposição prolongada à fumaça pode provocar inflamações nas vias respiratórias, agravar doenças preexistentes e elevar a procura por atendimento médico, especialmente entre os grupos mais vulneráveis. Em Manaus, a gravidade da poluição já levou à suspensão de aulas presenciais na rede municipal e à emissão de alertas para que os moradores evitem atividades ao ar livre, mantenham portas e janelas fechadas e utilizem máscaras adequadas, como as do tipo PFF2, quando necessário. O governo federal mobilizou aeronaves, brigadistas, e recursos emergenciais para combater os incêndios, enquanto autoridades investigam a origem humana de diversos focos. Entretanto, os números revelam que o desafio ultrapassa as operações de combate às chamas: exige fiscalização permanente, prevenção, políticas ambientais eficazes e proteção à saúde das comunidades atingidas. Depois dos 30 milhões de hectares queimados em 2024 e da nova explosão de incêndios em 2026, a Amazônia enfrenta uma crise que não termina quando o fogo se apaga. A floresta perde sua vegetação, o ar perde sua qualidade, e a população paga o preço da destruição a cada respiração.