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Economia

Soja pisa no freio: Plantio terá menor crescimento em 20 anos, mas Brasil ainda mira safra recorde

16/10/2026 • 13:00 • Por Felipe Masid

A área destinada ao cultivo da oleaginosa deverá alcançar 49,3 milhões de hectares, crescimento de apenas 1,4% em relação à temporada anterior

Foto: James Baltz/Unsplash

Conab prevê expansão de apenas 1,4% na área cultivada em 2026/27; custos elevados, crédito restrito e incertezas climáticas preocupam produtores, enquanto milho e algodão ganham espaço no campo

O gigante da soja brasileira continua crescendo, mas resolveu tirar o pé do acelerador. Depois de duas décadas de expansão que transformaram o país em uma potência mundial do agronegócio, os produtores rurais começam a demonstrar cautela diante de um cenário marcado por margens de lucro apertadas, dificuldades de financiamento e riscos climáticos. Segundo o primeiro levantamento da safra 2026/27, divulgado nesta quinta-feira, 15, pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a área destinada ao cultivo da oleaginosa deverá alcançar 49,3 milhões de hectares, crescimento de apenas 1,4% em relação à temporada anterior. Trata-se da menor taxa de expansão dos últimos 20 anos, um resultado que contrasta com o ritmo acelerado registrado em períodos recentes. Mesmo com a desaceleração, o Brasil ainda poderá alcançar uma produção histórica de 181,6 milhões de toneladas de soja, volume 0,7% superior ao da safra passada. O contraste entre o avanço modesto das lavouras e a possibilidade de um novo recorde revela um momento de transição no campo brasileiro: os agricultores continuam apostando na força da produção nacional, mas estão cada vez mais atentos aos custos e aos riscos de ampliar seus investimentos.

A redução no ritmo de crescimento não acontece por acaso. Os produtores enfrentam uma combinação de fatores que diminui a atratividade econômica da abertura de novas áreas, incluindo preços internacionais menos favoráveis, despesas elevadas com fertilizantes, defensivos, transporte e financiamento, além do endividamento acumulado em algumas regiões. A valorização do real diante do dólar também pode reduzir a receita obtida com as exportações, pressionando a rentabilidade de quem comercializa sua produção no mercado internacional. No Centro-Oeste, principal polo produtor do país, a Conab prevê uma área praticamente estável, reflexo da postura conservadora adotada por agricultores que preferem preservar recursos em vez de assumir novos compromissos financeiros. A preocupação aumenta com as incertezas relacionadas ao fenômeno climático El Niño, que poderá provocar alterações importantes no regime de chuvas e comprometer o desenvolvimento das lavouras. Apesar das dificuldades, a expansão prevista para a soja encontra sustentação em estados das regiões Norte e Nordeste, especialmente Rondônia, Tocantins, Piauí e Maranhão, onde ainda existem oportunidades de crescimento agrícola. Entretanto, essas localidades também poderão enfrentar impactos climáticos significativos, exigindo planejamento e estratégias para reduzir possíveis prejuízos.

O passado volta a germinar

O cenário atual desperta lembranças de uma crise enfrentada pelo agronegócio brasileiro há duas décadas. Na safra 2006/07, a área cultivada com soja sofreu uma retração de aproximadamente 9%, depois de um período marcado por perdas provocadas por problemas climáticos, doenças nas lavouras e deterioração das condições financeiras dos produtores. Naquela época, os preços internacionais estavam enfraquecidos, os custos operacionais aumentavam e a valorização da moeda brasileira reduzia a competitividade das exportações. O resultado foi uma combinação de endividamento elevado e restrições ao crédito rural, que levou muitos agricultores a diminuir o plantio. Agora, embora o Brasil não esteja diante de uma retração semelhante, alguns desses fatores voltam a preocupar o setor. A diferença é que grandes grupos agrícolas capitalizados conseguem manter suas operações e, em determinadas situações, ocupar espaços deixados por produtores com dificuldades financeiras. O histórico também oferece motivos para algum otimismo: depois da queda registrada em 2006/07, a área de soja voltou a crescer 3% na temporada seguinte, iniciando um novo ciclo de expansão. Entre 2020 e 2023, por exemplo, o avanço anual chegou a oscilar entre 5% e 7%, impulsionado pela demanda internacional e pela valorização das commodities agrícolas. A experiência demonstra que períodos de desaceleração podem anteceder uma recuperação, embora o comportamento futuro do mercado dependa de fatores econômicos, climáticos e comerciais que ainda permanecem incertos.

Enquanto a soja avança em ritmo moderado, outras culturas agrícolas ganham terreno e ajudam a sustentar as perspectivas de crescimento do agronegócio nacional. O milho, impulsionado principalmente pela demanda das indústrias de etanol, deverá registrar uma expansão expressiva na primeira safra, com aumento próximo de 11% na área plantada, alcançando aproximadamente 4,5 milhões de hectares. O movimento se concentra em estados como Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Tocantins, Goiás e Paraná, onde a industrialização do cereal abre novas oportunidades de comercialização e diversificação de receitas. Para a segunda safra, conhecida como safrinha, a Conab projeta crescimento de 3,7%, com área estimada em 18,5 milhões de hectares. Já o algodão deverá ampliar sua presença em 3,7%, chegando a 2,09 milhões de hectares, favorecido pela atratividade econômica da cultura e pela busca de alternativas diante dos riscos climáticos. A produção nacional de milho poderá alcançar 148 milhões de toneladas, enquanto a de pluma de algodão está estimada em 4,16 milhões de toneladas. Considerando todas as culturas, a Conab projeta uma safra brasileira de aproximadamente 367,1 milhões de toneladas de grãos, reforçando a importância do país no abastecimento mundial. Os números mostram que, apesar dos desafios financeiros e ambientais, o agronegócio brasileiro mantém capacidade de produção e adaptação. Para os agricultores, entretanto, a prioridade parece estar mudando: mais importante do que expandir as lavouras a qualquer custo será garantir rentabilidade, segurança financeira e condições para continuar produzindo. Afinal, no campo, não basta plantar cada vez mais; é preciso fazer a colheita também render no bolso.

Felipe Masid