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Marcas que Conectam

Ter a ferramenta não significa ter a expertise

16/10/2026 • 14:45 • Por Marcia Fialho

Não sei costurar. Nem uma bainha consigo fazer direito. Se alguém colocar uma máquina de costura sofisticadíssima na minha frente, com dezenas de recursos e funções automáticas, provavelmente vou continuar sem conseguir fazer uma bainha decente. Afinal, me falta o conhecimento necessário para utilizá-la adequadamente.

Este é o problema de confundir o acesso à ferramenta com o domínio de uma especialidade.

Uma máquina de costura não transforma ninguém em Coco Chanel. Ter pincéis e tintas não faz de uma pessoa um Pablo Picasso. E comprar um piano de cauda não significa adquirir o talento, o conhecimento musical e a experiência de Oscar Peterson.

Esses profissionais não se destacaram porque tinham acesso a instrumentos extraordinários. Desenvolveram conhecimentos, habilidades, repertório e uma maneira própria de criar. As ferramentas eram recursos utilizados para materializar aquilo que sabiam fazer.

A tecnologia democratizou as ferramentas

Quando os computadores pessoais começaram a se popularizar, muitas atividades que antes dependiam de equipamentos especializados passaram a ser realizadas em casa. Pessoas começaram a diagramar seus próprios documentos, criar apresentações, editar fotografias, desenhar logotipos, produzir materiais gráficos e até publicar livros.

Mais tarde, surgiram plataformas com modelos prontos, bancos de imagens, recursos de edição e sistemas cada vez mais intuitivos. Hoje, praticamente qualquer pessoa consegue produzir peças de comunicação que, décadas atrás, exigiriam equipamentos caros e conhecimentos técnicos específicos.

Considero essa democratização extremamente positiva. Ela permite que pequenos negócios, profissionais autônomos e pessoas com poucos recursos realizem trabalhos que talvez não pudessem contratar. Também estimula a criatividade, a experimentação e o aprendizado.

E o resultado fica bom? Muitas vezes, sim. Se atende à necessidade de quem produziu, cumpre sua função e gera satisfação, ótimo.

Mas existe uma diferença entre conseguir produzir alguma coisa e dominar os conhecimentos necessários para tomar todas as decisões envolvidas naquela produção.

A inteligência artificial levou essa discussão a outro patamar

Agora, com a inteligência artificial generativa, a situação ficou ainda mais interessante. Já não precisamos sequer dominar completamente o funcionamento de determinados programas. Basta descrever o que queremos e, em poucos segundos, uma ferramenta pode produzir textos, imagens, apresentações, vídeos, análises e propostas de estratégias. É impressionante o que conseguimos fazer.

Uma pessoa sem formação em design pode criar uma identidade visual. Alguém sem experiência em redação publicitária pode gerar uma campanha. Um empreendedor pode pedir à IA um plano de marketing, uma estratégia de posicionamento ou uma análise dos concorrentes. E, muitas vezes, o resultado parece excelente.

Mas aqui aparece uma questão que considero fundamental: como saber se o resultado está realmente correto, adequado e eficiente quando não temos conhecimento suficiente para avaliá-lo?

A inteligência artificial consegue produzir respostas convincentes, bem estruturadas e visualmente atraentes. Isso não significa que todas sejam verdadeiras, originais ou apropriadas para o problema apresentado. Ela pode cometer erros, utilizar informações desatualizadas, reproduzir soluções genéricas e apresentar recomendações que não consideram particularidades importantes de determinado negócio. O problema é que, sem conhecimento da área, nem sempre conseguimos identificar essas limitações. E existe uma diferença enorme entre receber uma resposta que parece boa e reconhecer uma solução tecnicamente adequada, capaz de produzir os resultados esperados.

A expertise está também na capacidade de avaliar

Um profissional experiente não se diferencia apenas por saber executar determinada tarefa. Seu conhecimento permite identificar problemas, formular perguntas, avaliar alternativas, antecipar consequências e reconhecer quando alguma coisa não está funcionando.

Imagine alguém utilizando inteligência artificial para criar a identidade visual de uma marca. A ferramenta pode gerar dezenas de alternativas esteticamente interessantes. Mas quais delas comunicam adequadamente o posicionamento do negócio? Quais são coerentes com o público que se pretende alcançar? Quais funcionam em diferentes aplicações? Quais apresentam problemas de legibilidade, diferenciação ou possíveis conflitos com marcas existentes? A IA pode contribuir para agilizar a investigação de várias dessas questões, mas alguém precisa saber o que perguntar, como interpretar as respostas e quais critérios utilizar para tomar a decisão.

O mesmo acontece em outras áreas. Uma ferramenta pode produzir um texto juridicamente convincente, mas isso não significa que esteja correto. Pode sugerir uma orientação sobre saúde, mas não substitui a avaliação clínica de um profissional habilitado. Pode gerar um planejamento financeiro aparentemente consistente, mas utilizar premissas inadequadas à realidade atual de quem pretende executá-lo. Quanto maior a complexidade ou a consequência de uma decisão, maior a importância de uma avaliação especializada.

A ferramenta produz possibilidades. A expertise permite julgar quais delas fazem sentido.

O profissional também precisa saber utilizar as novas ferramentas

Isso não significa que o especialista deva rejeitar a inteligência artificial. Pelo contrário. Profissionais experientes podem se beneficiar enormemente dessas tecnologias, automatizando tarefas, ampliando sua capacidade de pesquisa, explorando alternativas e ganhando tempo para atividades que exigem análise e decisões mais complexas. Mas a responsabilidade pelo resultado continua existindo.

Um designer que utiliza IA para gerar imagens precisa avaliar a qualidade visual, a coerência e a adequação das peças. Um redator precisa verificar informações, ajustar a linguagem e considerar o contexto. Um consultor precisa analisar criticamente os dados e as recomendações antes de apresentá-los ao cliente. A ferramenta pode acelerar etapas do trabalho, mas não transfere automaticamente para quem a utiliza a experiência acumulada por alguém que passou anos estudando, praticando, errando, corrigindo e aperfeiçoando suas competências.

E também não torna desnecessário continuar aprendendo. A própria expertise precisa ser atualizada, especialmente quando as tecnologias modificam os processos e as possibilidades de uma profissão.

Nem todo trabalho exige um especialista. Mas é importante saber quando exige

Se você precisa criar um convite para uma festa, uma apresentação simples ou uma imagem para uma publicação pessoal, talvez uma ferramenta digital ou de inteligência artificial resolva perfeitamente sua necessidade.

Se está começando um pequeno negócio e ainda não tem recursos para contratar determinados serviços, utilizar essas ferramentas pode ser uma excelente alternativa temporária. É possível experimentar, aprender e construir soluções satisfatórias.

Mas, quando o trabalho envolve decisões estratégicas, investimentos importantes, riscos relevantes ou resultados que dependem de conhecimentos específicos, confiar exclusivamente na ferramenta pode sair bem mais caro do que ter contratado um profissional no início do processo. E há um detalhe importante: contratar um especialista também não significa receber uma garantia absoluta de sucesso. Nenhum profissional sério pode prometer isso. O que a experiência oferece são melhores condições para diagnosticar problemas, avaliar riscos, justificar escolhas e corrigir caminhos quando necessário.

A inteligência artificial está transformando a maneira como trabalhamos, e isso é extraordinário. Mas precisamos distinguir a capacidade de produzir alguma coisa da capacidade de compreender profundamente o que está sendo produzido. Afinal, ter acesso à melhor ferramenta do mundo não significa saber qual é a melhor solução para o problema que temos diante de nós.

E talvez a pergunta mais importante, antes de decidir fazer tudo sozinho, seja: eu tenho conhecimento suficiente para avaliar se aquilo que a ferramenta me entregou é realmente o que preciso?

Marcia Fialho

Marcia Fialho é designer estrategista de marcas, especialista em Neurobranding, com mais de 40 anos de experiência em branding e comunicação. Nesta coluna semanal, compartilha reflexões e estratégias para empresas que desejam fortalecer sua marca e se adaptar ao mercado atual.