Linfoma não Hodgkin, responsável pela morte do cantor aos 60 anos, atinge células de defesa do organismo e pode provocar caroços, febre, suor noturno e perda de peso inexplicável
A voz que embalou multidões ao som do axé foi silenciada por uma doença que pode se desenvolver sem provocar sintomas específicos em seus estágios iniciais. A morte do cantor Netinho, aos 60 anos, na terça-feira, 13, em Salvador, chamou a atenção para o linfoma não Hodgkin, um grupo de cânceres que afeta o sistema linfático, responsável por parte das defesas do organismo. O artista enfrentava a recorrência de um linfoma plasmoblástico, subtipo raro e agressivo da doença, caracterizado pela multiplicação descontrolada de células originadas dos linfócitos B. Segundo a hematologista Talita Maira Bueno da Silveira, do A.C. Camargo Cancer Center, essa variante apresenta maior dificuldade de tratamento e menores possibilidades de cura em comparação com alguns tipos mais comuns. O sistema linfático é formado por vasos, gânglios e órgãos como o baço e as amígdalas, responsáveis por funções importantes na proteção contra infecções. Quando determinadas células desse sistema sofrem alterações genéticas, podem se multiplicar de maneira desordenada e formar tumores em diferentes regiões do corpo.
Entre os principais sinais de alerta estão o aumento dos gânglios linfáticos, percebido como caroços geralmente indolores no pescoço, nas axilas ou na virilha, além de febre persistente, suor noturno intenso, cansaço excessivo e emagrecimento sem explicação. Dependendo da localização e da evolução do câncer, também podem surgir coceira na pele, dores abdominais, náuseas, vômitos, tosse, dificuldade para respirar e alterações neurológicas. Como essas manifestações podem ser confundidas com sintomas de infecções e outras doenças, especialistas recomendam procurar avaliação médica quando persistirem ou aparecerem sem causa aparente. O linfoma não Hodgkin reúne mais de 20 tipos diferentes, com comportamentos bastante distintos: alguns apresentam crescimento lento, enquanto outros avançam rapidamente e exigem tratamento imediato. Aproximadamente 85% dos casos têm origem nos linfócitos B, células responsáveis pela produção de anticorpos. A doença pode atingir pessoas de diferentes idades, mas sua ocorrência aumenta com o envelhecimento. Entre os fatores associados ao risco estão alterações do sistema imunológico, doenças autoimunes, determinadas infecções virais e bacterianas e exposição a substâncias químicas.
Diagnóstico precoce faz diferença
A identificação da doença exige investigação médica especializada, principalmente porque os sintomas variam conforme o subtipo e a região atingida. O diagnóstico costuma ser confirmado por biópsia, procedimento que retira uma amostra de tecido para análise laboratorial, permitindo identificar as características das células cancerígenas. Exames como tomografia computadorizada, ressonância magnética, PET-CT e avaliação da medula óssea podem complementar a investigação e determinar a extensão do tumor. O estágio do linfoma é classificado de I a IV, considerando a distribuição da doença pelo organismo e o comprometimento de órgãos. Essa avaliação é fundamental para definir o tratamento mais adequado e estimar as possibilidades de resposta. O Instituto Nacional de Câncer (Inca) ressalta que não há recomendação de exames de rastreamento para pessoas sem sintomas, mas destaca a importância de investigar sinais suspeitos. Embora o caso de Netinho tenha envolvido uma forma particularmente agressiva, muitos outros tipos de linfoma não Hodgkin apresentam boas respostas às terapias disponíveis, especialmente quando diagnosticados e tratados adequadamente.
Os avanços da medicina ampliaram as possibilidades de tratamento do linfoma não Hodgkin, com alternativas que incluem quimioterapia, radioterapia, imunoterapia, medicamentos direcionados às células tumorais e transplante de células-tronco. Nos últimos anos, novas estratégias passaram a utilizar o próprio sistema imunológico do paciente para combater o câncer, como os anticorpos biespecíficos e a terapia celular CAR-T, indicada em situações específicas. Nesse procedimento, células de defesa são modificadas para reconhecer e atacar as células malignas. A escolha do tratamento depende do tipo de linfoma, do estágio, da idade e das condições clínicas de cada paciente. Enquanto algumas formas de evolução lenta podem ser acompanhadas inicialmente sem intervenção imediata, os subtipos agressivos geralmente exigem rapidez na abordagem terapêutica. A morte de Netinho reforça a importância da informação sobre uma doença que pode comprometer órgãos vitais e provocar complicações graves. Reconhecer sintomas persistentes, buscar atendimento especializado e iniciar o tratamento adequado são medidas fundamentais para aumentar as possibilidades de controle e cura, transformando a conscientização sobre o câncer em uma importante ferramenta de proteção à saúde.