Deputado estadual eleito com quase 200 mil votos e ex-prefeito de Belford Roxo é preso por ordem de Alexandre de Moraes; ex-chefe da Polícia Civil também está entre os detidos
Uma investigação sobre lavagem de dinheiro em postos de combustíveis chegou novamente ao centro do poder político fluminense. A Polícia Federal prendeu, na manhã desta quinta-feira, 15, Márcio Canella (União Brasil), ex-prefeito de Belford Roxo e deputado estadual eleito com 197.178 votos, o segundo mais votado do Rio de Janeiro nas eleições de outubro. A prisão ocorreu durante a oitava fase da Operação Unha e Carne, que investiga uma organização criminosa suspeita de utilizar uma rede de postos de combustíveis para movimentar e ocultar recursos de origem ilícita. Segundo um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), o esquema investigado teria movimentado mais de R$ 7,6 bilhões em seis anos. Canella foi detido em sua residência, em um condomínio de luxo na Barra da Tijuca, na Zona Sudoeste do Rio. A operação também resultou na prisão do delegado Marcus Vinicius Amim Fernandes, ex-secretário estadual de Polícia Civil, ampliando as suspeitas de participação de agentes públicos em uma estrutura criminosa com ramificações políticas e empresariais.
As prisões foram determinadas pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que autorizou o cumprimento de seis mandados de prisão preventiva e 16 de busca e apreensão em sete municípios fluminenses: Rio de Janeiro, Niterói, Nova Iguaçu, São Gonçalo, Petrópolis, Angra dos Reis e Armação dos Búzios. Além de Canella e Marcus Amim, foram presos Christiano Gaspar Fernandes, Giovanni Gaspar Fernandes, José Carlos Alves de Souza Júnior e o inspetor da Polícia Civil Pablo Jukia Felix Ferreira, conhecido como Pablo Russo. A Justiça também determinou o sequestro de bens e valores e a suspensão das atividades econômicas de 112 empresas investigadas, das quais 96 são postos de combustíveis, apontados pela Polícia Federal como possíveis instrumentos para dissimular a origem de dinheiro ilícito. Os investigadores apuram suspeitas de organização criminosa armada, lavagem de dinheiro, corrupção ativa e passiva, violação de sigilo funcional, comercialização ilegal de combustíveis e formação de cartel. A Corregedoria da Polícia Civil acompanhou as diligências envolvendo policiais investigados.
Da eleição à prisão
A nova prisão de Márcio Canella ocorre apenas três meses depois de ele ter sido detido em flagrante durante a sexta fase da mesma operação, realizada em julho. Na ocasião, agentes federais encontraram um fuzil de calibre 5,56, de uso restrito, no veículo do político, que alegou que a arma não lhe pertencia. Apesar das investigações, Canella disputou as eleições de 4 de outubro e conquistou seu quarto mandato como deputado estadual, recebendo expressiva votação, especialmente em Belford Roxo, município onde construiu sua trajetória política e exerceu o cargo de prefeito. O político chegou a ser apontado como possível candidato ao Senado, com apoio de Flávio Bolsonaro (PL), mas acabou concorrendo à Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). A Procuradoria Regional Eleitoral havia solicitado o indeferimento de sua candidatura em razão das investigações e das suspeitas de ligações com o crime organizado, mas o Tribunal Regional Eleitoral autorizou sua participação no pleito. Agora, a prisão preventiva acrescenta um novo capítulo à situação judicial do deputado eleito, que ainda não tomou posse no mandato conquistado neste mês.