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Unha e Carne no poder: PF prende Márcio Canella em operação contra esquema de R$ 7,6 bilhões

15/10/2026 • 08:43 • Por João Vieira

Ex-prefeito de Belford Roxo, Márcio Canella foi eleito deputado estadual com 197.178 votosMárcio Canella foi o segundo deputado estadual mais votado do Rio de Janeiro nas últimas eleições — Foto: Divulgação/ Alerj

Foto: Divulgação/Alerj

Deputado estadual eleito com quase 200 mil votos e ex-prefeito de Belford Roxo é preso por ordem de Alexandre de Moraes; ex-chefe da Polícia Civil também está entre os detidos

Uma investigação sobre lavagem de dinheiro em postos de combustíveis chegou novamente ao centro do poder político fluminense. A Polícia Federal prendeu, na manhã desta quinta-feira, 15, Márcio Canella (União Brasil), ex-prefeito de Belford Roxo e deputado estadual eleito com 197.178 votos, o segundo mais votado do Rio de Janeiro nas eleições de outubro. A prisão ocorreu durante a oitava fase da Operação Unha e Carne, que investiga uma organização criminosa suspeita de utilizar uma rede de postos de combustíveis para movimentar e ocultar recursos de origem ilícita. Segundo um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), o esquema investigado teria movimentado mais de R$ 7,6 bilhões em seis anos. Canella foi detido em sua residência, em um condomínio de luxo na Barra da Tijuca, na Zona Sudoeste do Rio. A operação também resultou na prisão do delegado Marcus Vinicius Amim Fernandes, ex-secretário estadual de Polícia Civil, ampliando as suspeitas de participação de agentes públicos em uma estrutura criminosa com ramificações políticas e empresariais.

 

As prisões foram determinadas pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que autorizou o cumprimento de seis mandados de prisão preventiva e 16 de busca e apreensão em sete municípios fluminenses: Rio de Janeiro, Niterói, Nova Iguaçu, São Gonçalo, Petrópolis, Angra dos Reis e Armação dos Búzios. Além de Canella e Marcus Amim, foram presos Christiano Gaspar Fernandes, Giovanni Gaspar Fernandes, José Carlos Alves de Souza Júnior e o inspetor da Polícia Civil Pablo Jukia Felix Ferreira, conhecido como Pablo Russo. A Justiça também determinou o sequestro de bens e valores e a suspensão das atividades econômicas de 112 empresas investigadas, das quais 96 são postos de combustíveis, apontados pela Polícia Federal como possíveis instrumentos para dissimular a origem de dinheiro ilícito. Os investigadores apuram suspeitas de organização criminosa armada, lavagem de dinheiro, corrupção ativa e passiva, violação de sigilo funcional, comercialização ilegal de combustíveis e formação de cartel. A Corregedoria da Polícia Civil acompanhou as diligências envolvendo policiais investigados.

 

Da eleição à prisão

A nova prisão de Márcio Canella ocorre apenas três meses depois de ele ter sido detido em flagrante durante a sexta fase da mesma operação, realizada em julho. Na ocasião, agentes federais encontraram um fuzil de calibre 5,56, de uso restrito, no veículo do político, que alegou que a arma não lhe pertencia. Apesar das investigações, Canella disputou as eleições de 4 de outubro e conquistou seu quarto mandato como deputado estadual, recebendo expressiva votação, especialmente em Belford Roxo, município onde construiu sua trajetória política e exerceu o cargo de prefeito. O político chegou a ser apontado como possível candidato ao Senado, com apoio de Flávio Bolsonaro (PL), mas acabou concorrendo à Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). A Procuradoria Regional Eleitoral havia solicitado o indeferimento de sua candidatura em razão das investigações e das suspeitas de ligações com o crime organizado, mas o Tribunal Regional Eleitoral autorizou sua participação no pleito. Agora, a prisão preventiva acrescenta um novo capítulo à situação judicial do deputado eleito, que ainda não tomou posse no mandato conquistado neste mês.

A Operação Unha e Carne começou em dezembro de 2025, inicialmente para investigar suspeitas de vazamento de informações sigilosas sobre ações policiais contra o Comando Vermelho. Com o avanço das apurações, a Polícia Federal passou a investigar uma possível rede de proteção ao crime organizado, envolvendo agentes públicos, políticos, policiais e operadores financeiros. Segundo os investigadores, a estrutura teria permitido a circulação de bilhões de reais por meio de empresas do setor de combustíveis, com suspeitas de corrupção e influência de integrantes do poder público. A ofensiva desta quinta-feira integra a Força-Tarefa Missão Redentor II, coordenada pela Polícia Federal para combater organizações criminosas no estado, seguindo diretrizes estabelecidas pelo STF no âmbito da ADPF 635, conhecida como ADPF das Favelas. As autoridades pretendem aprofundar o rastreamento financeiro, identificar os beneficiários das movimentações suspeitas e esclarecer o papel de cada investigado. As prisões são medidas cautelares e não representam condenações definitivas. Até o momento das informações consultadas, não havia sido apresentada uma nova manifestação da defesa de Canella sobre a prisão desta quinta-feira.
João Vieira