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“Parem de nos matar”: Em Cuiabá, Cármen Lúcia denuncia machismo e cobra fim da violência contra mulheres

14/10/2026 • 04:52 • Por Redação NTD

A magistrada fez um apelo direto pelo fim da violência contra as mulheres: “Parem de nos matar”

Foto: Divulgação

Durante palestra na Universidade Federal de Mato Grosso, ministra do STF afirma que a igualdade garantida pela Constituição ainda não saiu do papel e critica o preconceito que persiste na sociedade brasileira

A Constituição garante igualdade, mas a realidade brasileira continua contando uma história marcada pela discriminação e pela violência. Foi com uma denúncia contundente sobre essa contradição que a ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal (STF), criticou o machismo e a misoginia durante uma palestra realizada nesta terça-feira, 13, na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), em Cuiabá. Diante de estudantes, professores e pesquisadores reunidos no teatro da instituição, a magistrada fez um apelo direto pelo fim da violência contra as mulheres: “Parem de nos matar”. A declaração ocorreu durante a conferência magna da Semana do Conhecimento, cujo tema foi Ciência e Democracia: caminhos para a equidade. Cármen Lúcia destacou que, mesmo após 38 anos da promulgação da Constituição de 1988, a igualdade entre homens e mulheres ainda não se concretizou plenamente. Para demonstrar a gravidade do problema, afirmou que o Brasil registra a morte de uma mulher por razões de gênero em intervalos inferiores a seis horas. Segundo a ministra, essa realidade evidencia a distância entre os direitos assegurados pela legislação e as condições efetivamente enfrentadas pela população feminina. Ela ressaltou que a violência não se limita aos assassinatos, mas também se manifesta em atitudes discriminatórias, agressões psicológicas e comportamentos cotidianos que reforçam a desigualdade.

Ao aprofundar suas críticas, Cármen Lúcia afirmou que o preconceito contra as mulheres permanece presente nas diferentes esferas da sociedade brasileira, incluindo as relações familiares, profissionais, acadêmicas e institucionais. A magistrada observou que a Constituição estabelece direitos e deveres iguais para homens e mulheres, mas que essa previsão jurídica ainda não foi acompanhada de uma transformação social capaz de eliminar práticas discriminatórias. Em sua avaliação, a misoginia continua influenciando comportamentos e oportunidades, contribuindo para a manutenção de desigualdades históricas. A ministra chamou atenção para o fato de que as mulheres representam a maioria da população e do eleitorado brasileiro, mas continuam enfrentando dificuldades para exercer plenamente seus direitos e conquistar espaços de reconhecimento e poder. Ela também destacou que a violência de gênero pode começar em atitudes aparentemente pequenas, como comentários depreciativos, brincadeiras ofensivas e manifestações de desrespeito, antes de assumir formas mais graves. Ao recordar uma declaração feita anteriormente, Cármen Lúcia afirmou que as mulheres precisam exigir o direito de viver sem medo, em uma sociedade que não naturalize agressões nem aceite a violência como parte da rotina. A magistrada ressaltou que a persistência desses comportamentos prejudica toda a coletividade, pois impede a construção de relações sociais fundamentadas na igualdade, na liberdade e no respeito.

Mulheres apagadas da história

A desigualdade de gênero também foi abordada pela ministra sob a perspectiva da ciência e da produção do conhecimento. Cármen Lúcia criticou a falta de reconhecimento histórico de pesquisadoras que contribuíram para descobertas fundamentais, mas tiveram seus trabalhos ignorados, minimizados ou associados principalmente a cientistas homens. Entre os exemplos mencionados estava Marie Curie, pioneira nos estudos sobre radioatividade e vencedora de dois prêmios Nobel, cuja trajetória demonstrou a importância da participação feminina no desenvolvimento científico. A magistrada também citou Rosalind Franklin, pesquisadora britânica cujas imagens e estudos foram fundamentais para a compreensão da estrutura do DNA. Embora seu trabalho tenha contribuído para uma das descobertas científicas mais importantes do século XX, Franklin não recebeu o Nobel concedido em 1962 a James Watson, Francis Crick e Maurice Wilkins; ela havia morrido quatro anos antes, e o prêmio não é concedido postumamente. Outro caso lembrado foi o da astrofísica Jocelyn Bell Burnell, responsável pela descoberta dos pulsares em 1967, quando ainda era estudante. O reconhecimento do Nobel de Física de 1974, entretanto, foi concedido a Anthony Hewish, seu orientador, e Martin Ryle. Cármen Lúcia também mencionou mulheres que participaram de movimentos históricos brasileiros, como Hipólita Jacinta Teixeira de Melo, ligada à Inconfidência Mineira, para demonstrar como contribuições femininas foram frequentemente deixadas em segundo plano. Para a ministra, recuperar essas trajetórias é fundamental para combater a desigualdade e assegurar que meninas e mulheres tenham referências de protagonismo na ciência, na política e na sociedade.

Além da violência e da desigualdade de gênero, Cármen Lúcia defendeu a educação, a ciência e a democracia como instrumentos fundamentais para ampliar direitos e enfrentar o preconceito. Durante a palestra, a ministra afirmou que o conhecimento não pode permanecer restrito a determinados grupos sociais e destacou a responsabilidade das universidades na formação de cidadãos capazes de exercer o pensamento crítico. A magistrada também alertou para os efeitos da desinformação digital e para os riscos associados ao uso indiscriminado da inteligência artificial, especialmente quando essas tecnologias contribuem para a circulação de informações falsas ou para o enfraquecimento da capacidade de reflexão. Em sua avaliação, a democracia depende da confiança nas instituições, da solidariedade e da liberdade para que cada pessoa possa desenvolver suas capacidades e participar da vida pública. A ministra ressaltou que o combate ao machismo exige mudanças culturais profundas, capazes de transformar comportamentos e garantir que os direitos previstos na Constituição sejam efetivamente respeitados. O problema assume dimensão especialmente preocupante em Mato Grosso, onde levantamento do Instituto Caliandra citado pela imprensa local apontava 40 mulheres mortas em 2026, número que reforça a urgência das discussões sobre proteção e prevenção da violência. Ao final da conferência, Cármen Lúcia foi aplaudida de pé pelos participantes da Semana do Conhecimento. Sua mensagem central foi a de que a igualdade não pode existir apenas nos textos legais: precisa estar presente nas oportunidades, no reconhecimento profissional, nas relações sociais e, sobretudo, na garantia do direito das mulheres à vida. A cobrança feita pela ministra resume uma reivindicação que permanece atual no Brasil: transformar a igualdade constitucional em uma realidade concreta e impedir que a violência continue interrompendo a vida de tantas mulheres.