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Fogo amigo, dor em dobro: Enterrado subtenente do Bope baleado por PMs um ano após perder irmão em operação

13/10/2026 • 05:14 • Por João Vieira

Gláucio Marcelo Fonseca da Silva, de 54 anos, era irmão de Heber Carvalho Fonseca morto em outubro de 2025

Foto: Reprodução/Instagram

Gláucio Marcelo Fonseca da Silva, de 54 anos, foi sepultado sob forte comoção no Rio; família questiona falha de comunicação entre batalhões que terminou com um policial morto e outros cinco feridos

Dois irmãos, a mesma farda, a mesma paixão pelo Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) e duas mortes em menos de um ano. A família do subtenente Gláucio Marcelo Fonseca da Silva, de 54 anos, voltou a enfrentar a dor de perder um integrante da tropa de elite da Polícia Militar do Rio de Janeiro, desta vez em circunstâncias que levantam questionamentos sobre a atuação da própria corporação. O policial morreu na madrugada de domingo, 11, após ser atingido durante um tiroteio entre agentes do Bope e militares do 18º BPM (Jacarepaguá), na região da Gardênia Azul, Zona Sudoeste da capital fluminense. A principal hipótese investigada é que os policiais do batalhão de área tenham confundido uma abordagem realizada pelos colegas com uma ação criminosa e aberto fogo, provocando um confronto que deixou seis agentes baleados, um deles fatalmente. Fonseca foi sepultado nesta segunda-feira, 12, no cemitério Jardim da Saudade, em Sulacap, sob forte comoção de familiares, amigos e centenas de policiais militares. Durante a cerimônia, integrantes do Bope formaram um corredor de honra para a passagem do caixão, enquanto um helicóptero da unidade sobrevoou o local e lançou rosas brancas e vermelhas. A despedida foi marcada pela lembrança de uma frase que o subtenente costumava repetir: "Se um dia eu morrer, eu quero estar fardado", recordou sua ex-mulher, Aline Viana. A homenagem também reacendeu uma tragédia ainda recente: em outubro de 2025, Heber Carvalho Fonseca, irmão de Gláucio Fonseca e também integrante do Bope, morreu durante a megaoperação realizada nos complexos da Penha e do Alemão. Agora, a família enfrenta a segunda perda enquanto cobra explicações sobre como policiais da mesma instituição acabaram disparando uns contra os outros.

O confronto aconteceu na Rua Guilherme Moreira, conhecida como Beco do Saci, um dos acessos à comunidade da Gardênia Azul, durante uma operação realizada na madrugada de domingo. Segundo a Polícia Militar, agentes do Bope, devidamente fardados e utilizando uma viatura caracterizada, abordavam os ocupantes de um automóvel quando policiais do 18º BPM chegaram ao local e teriam confundido a movimentação com uma ação criminosa. A baixa luminosidade da via foi apontada inicialmente como um dos fatores que podem ter contribuído para o erro de identificação. Os disparos provocaram uma troca de tiros entre as equipes, deixando cinco integrantes do Bope e um policial do batalhão de Jacarepaguá feridos. Gláucio Fonseca foi socorrido e encaminhado ao Hospital Municipal Lourenço Jorge, na Barra da Tijuca, mas chegou à unidade sem vida. Os demais militares receberam atendimento médico, e parte deles permaneceu internada. Moradores da região relataram momentos de pânico diante da intensidade dos disparos. Uma testemunha que vive no bairro há 43 anos afirmou que nunca havia presenciado uma situação semelhante e estimou que o tiroteio tenha durado cerca de 20 minutos. Assustados, moradores buscaram proteção dentro das próprias residências, sem saber de onde partiam os tiros. Uma câmera de segurança de um condomínio próximo registrou o som dos disparos, material que poderá contribuir para a reconstituição dos acontecimentos. A principal dúvida é como uma equipe especializada, identificada por uniformes e viatura próprios, pôde ser confundida com criminosos por integrantes de outro batalhão da mesma corporação. A Delegacia de Homicídios da Capital realizou perícia no local, recolheu cápsulas de munição e iniciou a análise das circunstâncias do confronto, enquanto os policiais envolvidos começaram a prestar depoimentos.

Dois irmãos, uma tragédia

Durante o sepultamento, a ex-mulher do subtenente, Aline Viana, descreveu um homem profundamente identificado com a profissão e que havia dedicado praticamente toda a carreira à unidade de operações especiais. "Não é que ele fazia parte do Bope, o Bope fazia parte dele", afirmou, ao recordar a relação do subtenente com a tropa de elite. Segundo Aline, Gláucio fazia questão de se apresentar como um "caveira", expressão utilizada pelos integrantes do batalhão, e considerava os companheiros de farda uma extensão de sua família. Ele completaria 26 anos de serviço na Polícia Militar em dezembro e deixou três filhos. Mesmo após o divórcio, Aline e Gláucio Fonseca mantinham uma relação próxima e costumavam conversar antes e depois das operações. Na semana anterior à morte, o policial contou que participaria de uma missão, mas não poderia revelar detalhes. Os dois combinaram de conversar novamente no dia seguinte, como faziam habitualmente. Na manhã de domingo, por volta das 7h00, Aline enviou uma mensagem perguntando como ele estava e como havia sido a operação, mas não recebeu resposta. A morte também trouxe de volta as lembranças de Heber Carvalho Fonseca, irmão mais novo de Gláucio, que morreu em 28 de outubro de 2025 durante a Operação Contenção, realizada nos complexos da Penha e do Alemão. Segundo Aline, Heber tinha o irmão mais velho como referência profissional e decidiu ingressar no Bope inspirado por sua trajetória, o que fortalecia ainda mais os laços entre os dois. Gláucio havia sofrido profundamente com a perda do caçula e, de acordo com a família, a missão de domingo marcava seu retorno às atividades na unidade. Menos de um ano depois, a família que ainda tentava superar a primeira tragédia voltou ao mesmo cemitério para se despedir de outro policial.

Além da dor, os familiares querem respostas sobre uma possível falha nos protocolos de comunicação e identificação entre as unidades da Polícia Militar. Aline Viana afirmou que a família recebeu inicialmente a informação de que não havia ocorrido comunicação prévia entre os batalhões, mas posteriormente soube que a presença do Bope na região teria sido informada. Diante dessa divergência, ela questionou quem recebeu o aviso, se a informação foi repassada aos policiais que estavam nas ruas e por que o confronto aconteceu mesmo com a suposta comunicação. A ex-mulher também levantou dúvidas sobre a possibilidade de os militares do 18º BPM não terem reconhecido os uniformes diferenciados dos integrantes da tropa de elite e sobre as circunstâncias que levaram à abertura de fogo. A investigação deverá esclarecer se houve erro de identificação, falha operacional, deficiência na comunicação ou descumprimento de procedimentos de segurança. A Corregedoria Interna da Polícia Militar, por meio da 2ª Delegacia de Polícia Judiciária Militar, e a Delegacia de Homicídios da Capital conduzem as apurações. As armas utilizadas foram apreendidas para perícia, e as imagens das câmeras corporais dos agentes foram requisitadas. O caso também reacendeu o debate sobre a necessidade de aperfeiçoar os protocolos de atuação conjunta entre diferentes batalhões, especialmente em operações realizadas durante a madrugada e em áreas com baixa iluminação. Para os investigadores, será fundamental estabelecer a sequência dos disparos, identificar quais policiais abriram fogo e verificar se existiam condições para reconhecer os colegas antes do confronto. A morte do policial expõe uma situação especialmente grave: um policial com quase 26 anos de serviço perdeu a vida durante uma ocorrência em que os tiros partiram de integrantes da própria corporação. Enquanto as investigações procuram esclarecer responsabilidades, a família enfrenta uma perda que se soma à morte de Heber, deixando duas histórias interrompidas dentro da mesma unidade policial e uma pergunta ainda sem resposta: como uma operação entre agentes de segurança terminou em uma tragédia provocada por disparos entre colegas de farda?

João Vieira
Colunista Oficial João Vieira

Diretor de Redação da empresa NTDBR - Notícia Todo Dia