Associação afirma que campanha entregou material em perfeitas condições; problema no processamento deixou programa do PL sem áudio, enquanto o de Lula foi corrigido antes de ir ao ar
O silêncio que atingiu a propaganda eleitoral de Flávio Bolsonaro (PL) na televisão ganhou uma explicação oficial, mas também abriu uma discussão sobre a responsabilidade pela falha em plena reta final da corrida presidencial. A Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert) confirmou nesta segunda-feira, 12, que um problema técnico no processamento da mídia provocou a ausência de áudio no programa do candidato do PL, exibido por volta das 13h00, durante o horário eleitoral gratuito do segundo turno. O episódio chamou atenção porque a propaganda de Flávio foi transmitida sem som em diferentes emissoras de televisão aberta, enquanto o programa de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), apresentado logo depois, chegou normalmente aos telespectadores. Segundo a associação, o material encaminhado pela campanha de Flávio havia sido recebido em perfeitas condições, indicando que a falha ocorreu posteriormente, durante os procedimentos técnicos necessários à transmissão. A confirmação veio depois de horas de questionamentos nas redes sociais, manifestações de integrantes da campanha e pedidos de esclarecimento à Justiça Eleitoral. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) também reconheceu o problema e anunciou que a propaganda prejudicada será reexibida, medida destinada a assegurar ao candidato a apresentação integral de seu conteúdo. A ocorrência ganhou repercussão nacional por acontecer a menos de duas semanas do segundo turno, marcado para 25 de outubro, quando cada oportunidade de comunicação com os eleitores assume importância para as duas campanhas.
De acordo com a nota divulgada conjuntamente pela Abert e pela Associação Brasileira de Televisões e Rádios Legislativas (Astral), o problema foi identificado pela equipe técnica do chamado grupo único de emissoras públicas e privadas, constituído em conjunto com o TSE para organizar a transmissão da propaganda eleitoral gratuita. Esse sistema funciona de maneira compartilhada, reunindo profissionais e equipamentos responsáveis pelo recebimento dos arquivos enviados pelos partidos, pela preparação dos programas e pela geração e distribuição do sinal que chega às emissoras de todo o país. A associação esclareceu que o arquivo original da campanha de Flávio estava em condições adequadas, mas apresentou uma falha durante o processamento necessário à exibição. O TSE acrescentou que, no momento da finalização das mídias, os áudios das propagandas dos dois presidenciáveis não haviam sido carregados corretamente. A diferença ocorreu porque os responsáveis pela operação conseguiram identificar e corrigir o problema antes da transmissão do programa de Lula, enquanto a peça de Flávio já havia sido exibida sem som. A explicação esclarece por que apenas um dos candidatos foi efetivamente prejudicado, embora o erro inicial tenha atingido os arquivos das duas campanhas. A Abert informou que a ocorrência foi comunicada prontamente ao tribunal e que aguardava o posicionamento da Justiça Eleitoral sobre a petição apresentada pela representação do candidato do PL. A entidade também destacou que o modelo de operação conjunta é utilizado há diversas eleições, com procedimentos padronizados para garantir a transmissão simultânea do horário eleitoral pelas emissoras participantes.
Falha reconhecida, propaganda recuperada
A repercussão começou imediatamente após a exibição do programa, quando telespectadores perceberam que as imagens de Flávio Bolsonaro apareciam normalmente, mas sem qualquer áudio. Nas redes sociais, apoiadores questionaram a interrupção e destacaram que a transmissão do presidente Lula não havia apresentado o mesmo defeito. O próprio Flávio publicou um vídeo manifestando desconfiança sobre o episódio e afirmando que não acreditava em coincidências, além de pedir que seus seguidores compartilhassem a versão original de sua propaganda, com som. Pessoas próximas à campanha chegaram a classificar internamente o ocorrido como possível sabotagem, interpretação que não foi comprovada pelas informações técnicas divulgadas posteriormente. A equipe do PL sustentou que o material havia sido entregue corretamente e informou que buscaria providências junto à Justiça Eleitoral. O conteúdo prejudicado tinha como um dos principais objetivos responder a acusações divulgadas contra o candidato durante a campanha. A primeira parte da propaganda abordava o feriado de Nossa Senhora Aparecida, enquanto a segunda apresentava a economista Daniella Marques contestando informações sobre eventuais cortes de programas sociais em um futuro governo de Flávio. A ausência de áudio impediu que essas mensagens fossem compreendidas integralmente pelos telespectadores durante a exibição original. Diante da confirmação da falha, o TSE informou que o arquivo havia sido corrigido e seria novamente transmitido, conforme os procedimentos previstos na Resolução nº 23.776/2026. A decisão representa uma medida de reparação da exposição comprometida, sem significar, por si só, o reconhecimento de qualquer interferência intencional na propaganda eleitoral.
A discussão também envolveu a Empresa Brasil de Comunicação (EBC), que chegou a ser apontada como possível responsável pelo problema, mas divulgou uma nota negando participação na falha. A estatal esclareceu que a operação do horário eleitoral é conduzida pelo grupo de emissoras responsável pela geração do sinal e afirmou que, naquele dia, a exibição estava sob responsabilidade de outra empresa integrante do sistema compartilhado. A EBC ressaltou que cabe ao conjunto de emissoras receber os arquivos das campanhas, preparar o material e distribuir o sinal para transmissão nacional, enquanto a divisão das tarefas é organizada pela Abert. A empresa também mencionou que o SBT reconheceu ter se equivocado ao atribuir inicialmente a responsabilidade à estatal. Com os esclarecimentos divulgados, a explicação apresentada pelas entidades responsáveis passou a apontar para um erro operacional no carregamento e processamento das mídias, e não para uma falha no arquivo entregue pela campanha de Flávio Bolsonaro. Ainda assim, a ocorrência levantou questionamentos sobre os mecanismos de conferência utilizados antes da exibição dos programas, especialmente porque o problema foi corrigido a tempo de preservar a transmissão de Lula, mas não a de seu adversário. A reexibição anunciada pelo TSE busca restabelecer o tempo de propaganda prejudicado, enquanto eventuais pedidos adicionais da campanha do PL dependerão de análise da Justiça Eleitoral. O episódio evidencia a importância de procedimentos técnicos capazes de assegurar condições equivalentes de comunicação aos candidatos, sobretudo em uma eleição marcada por intensa disputa política e digital. Ao final, a propaganda que ficou muda na televisão ganhou uma nova oportunidade de ser ouvida, enquanto a explicação oficial confirmou que o material havia sido entregue corretamente e que o erro ocorreu na estrutura responsável pela transmissão.