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Papo de Líderes

Mudar de opinião não é fraqueza; às vezes, é a maior prova de inteligência

12/10/2026 • 18:47 • Por Felício Ferraz

Existe uma frase que ouvimos com frequência no mundo corporativo: "Ele sabe o que quer".

Normalmente isso é entendido como elogio; associamos liderança a convicção, firmeza e capacidade de defender uma posição mesmo diante de resistência. Tudo isso é importante. Mas existe uma linha muito tênue entre convicção e teimosia.

Ao longo de quase três décadas liderando pessoas e negócios em diferentes países, precisei tomar milhares de decisões. Algumas relativamente simples, outras capazes de afetar organizações inteiras, investimentos importantes e, principalmente, a vida de muitas pessoas.

Em vários desses momentos comecei uma discussão absolutamente convencido de que sabia qual era a melhor decisão. E, muitas vezes, terminei a reunião pensando exatamente o contrário. Hoje considero isso uma vitória, não uma derrota. Porque uma das maiores armadilhas da liderança é acreditar que mudar de opinião significa demonstrar fraqueza.

Quanto mais alto chegamos em uma organização, mais perigosa essa armadilha se torna. As pessoas começam a nos ouvir mais, questionar menos e, muitas vezes, concordar conosco antes mesmo de terminarmos uma frase. O cargo aumenta nosso poder. Mas não aumenta automaticamente nossa inteligência.

Talvez faça exatamente o contrário quando deixamos de ser confrontados. Por isso sempre admirei líderes capazes de dizer três frases extremamente simples:

  • "Eu estava errado"
  • "Você me convenceu"
  • "Ok, então vamos fazer diferente"

Essas frases exigem muito mais segurança do que aparentam.

O líder inseguro precisa defender suas ideias porque confunde sua opinião com sua identidade. Quando alguém questiona a ideia, sente que está sendo questionado pessoalmente. O líder maduro consegue separar as duas coisas. Ele defende suas convicções com energia, mas continua disponível para abandoná-las quando aparecem fatos melhores, argumentos melhores ou novas circunstâncias.

Isso não significa mudar de opinião a cada reunião. Liderança também exige consistência e coragem para sustentar decisões impopulares. A diferença está na razão pela qual continuamos defendendo determinada posição:

  • É porque ainda acreditamos que ela é a melhor alternativa?
  • Ou porque nosso ego já investiu demais nela para admitir que existe outro caminho?

Essas perguntas valem para presidentes de empresas, empreendedores, políticos, professores, pais, e para qualquer pessoa que exerça influência sobre outras.

Vivemos, inclusive, uma época em que parece cada vez mais difícil mudar de opinião. As redes sociais registram nossas posições, os algoritmos nos aproximam de quem pensa parecido conosco, e a polarização transforma qualquer mudança de pensamento em sinal de incoerência.

Talvez precisemos recuperar o direito de aprender. Aprender significa permitir que uma informação nova modifique uma convicção antiga. Caso contrário, não estamos aprendendo. Estamos apenas acumulando argumentos para continuar pensando da mesma maneira.

Depois de tantos anos liderando pessoas, tenho hoje menos certezas absolutas do que tinha aos trinta. E, curiosamente, considero isso uma evolução.

A experiência deveria nos oferecer repertório, não arrogância. Porque maturidade não é passar a vida provando que sempre estivemos certos.

Maturidade é ter segurança suficiente para reconhecer quando encontramos uma ideia melhor do que a nossa.

Felício Ferraz

@felicio_ferraz

Felício Ferraz trabalhou como executivo de empresas multinacionais como Shell e Souza Cruz; é conselheiro, professor, empreendedor em série; e ex-CEO da BAT - British American Tobacco - no Caribe, America Central, Sri Lanka, e Caucasus.