Programa eleitoral de Flávio Bolsonaro é exibido sem som em pleno feriado; candidato questiona falha, campanha cobra explicações e TSE anuncia apuração do episódio
O silêncio tomou conta da televisão, mas provocou uma enorme repercussão na corrida presidencial. A propaganda eleitoral de Flávio Bolsonaro (PL) foi transmitida sem áudio nesta segunda-feira, 12, feriado de Nossa Senhora Aparecida e Dia das Crianças, enquanto o programa de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), exibido na sequência, foi ao ar normalmente, com imagem e som. A falha ocorreu por volta das 13h00, durante o horário eleitoral gratuito do segundo turno, atingindo a apresentação do candidato do PL em diferentes emissoras de televisão aberta. Durante praticamente cinco minutos, os telespectadores acompanharam as imagens da campanha sem conseguir ouvir os discursos, as mensagens e as propostas apresentadas. O problema chamou atenção por ocorrer em uma data de feriado nacional, quando parte da população estava em casa, e em um momento decisivo da disputa pelo Palácio do Planalto. Nas redes sociais, eleitores começaram a publicar reclamações e questionamentos sobre a diferença entre as duas transmissões. O episódio ganhou dimensão política depois que o próprio Flávio Bolsonaro divulgou um vídeo criticando o ocorrido e levantando dúvidas sobre a possibilidade de a falha não ter sido apenas um problema técnico. A transmissão sem áudio afetou a comunicação do candidato com o eleitorado a menos de duas semanas do segundo turno, marcado para 25 de outubro, acrescentando uma nova controvérsia à campanha presidencial.
A reação de Flávio Bolsonaro foi imediata. Em vídeo publicado nas redes sociais, o senador afirmou que seu programa havia sido transmitido sem som, enquanto o de Lula não apresentou o mesmo problema. "Você acredita em coincidência? Cara, não. Não acredito, não existe coincidência", declarou o candidato, sugerindo desconfiar das circunstâncias do episódio. Em seguida, afirmou que não conseguirão calar sua voz e pediu aos apoiadores que compartilhassem pela internet a versão completa da propaganda, com áudio. A campanha do PL informou que o material havia sido entregue em perfeitas condições e submetido aos procedimentos de conferência e auditoria previstos antes da veiculação. Segundo a equipe, o arquivo original apresentava som normalmente, o que levantou a hipótese de que o problema tenha ocorrido durante a geração ou a distribuição do sinal televisivo. A equipe também informou ter acionado a Justiça Eleitoral para solicitar esclarecimentos sobre o incidente. A repercussão se espalhou pelas redes sociais, onde apoiadores passaram a questionar o funcionamento do sistema de transmissão e alguns levantaram suspeitas de censura. Apesar das declarações do candidato e das manifestações de seus apoiadores, não havia comprovação de interferência deliberada na exibição da propaganda. O episódio, entretanto, ampliou o debate sobre a necessidade de garantir condições equivalentes de transmissão aos dois concorrentes, especialmente porque o horário eleitoral gratuito representa um dos principais espaços de comunicação direta entre as campanhas e milhões de eleitores.
TSE investiga falha
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) informou que está apurando as razões pelas quais a propaganda de Flávio Bolsonaro foi transmitida sem áudio. Pelas regras estabelecidas para o segundo turno, a geração e a distribuição do sinal dos programas eleitorais são realizadas por um sistema compartilhado de emissoras, conhecido como Pool de Mídia das Eleições 2026, responsável por disponibilizar o conteúdo para retransmissão pelas redes de televisão. Nesse modelo, uma emissora geradora transmite o sinal que é recebido pelas demais, de modo que um problema na origem pode afetar simultaneamente diferentes canais. Segundo informações preeliminares, a falha teria ocorrido na Empresa Brasil de Comunicação (EBC), apontada como origem do problema de transmissão. A informação, porém, ainda dependia de esclarecimento oficial da empresa, que foi procurada para apresentar sua versão. A campanha do PL sustenta que cumpriu corretamente os procedimentos de entrega do material e que o áudio estava funcionando antes da veiculação. A apuração deverá esclarecer em que etapa ocorreu a interrupção sonora, se houve falha operacional ou de equipamento e quais medidas poderão ser adotadas para evitar novos episódios. O fato de o programa de Lula ter sido transmitido normalmente, logo depois da propaganda de Flávio, tornou a ocorrência ainda mais questionada pelos apoiadores do candidato do PL, embora essa diferença, isoladamente, não permita concluir que tenha existido qualquer ação intencional. Até a divulgação dos primeiros posicionamentos, o TSE não havia apresentado uma conclusão definitiva sobre a causa do problema.
A controvérsia ocorre em uma fase especialmente sensível da disputa presidencial, quando cada minuto de exposição na televisão representa uma oportunidade para apresentar propostas, responder a críticas e conquistar eleitores ainda indecisos. No segundo turno, Flávio Bolsonaro e Lula têm direito a tempos iguais de propaganda eleitoral gratuita, com dez minutos diários de programas em bloco, divididos igualmente entre os candidatos, além de inserções distribuídas ao longo da programação das emissoras. A igualdade de tempo é uma das garantias previstas para a competição eleitoral, razão pela qual falhas que comprometam a transmissão de qualquer candidatura exigem esclarecimentos técnicos e institucionais. No caso desta segunda-feira, a ausência de som impediu que a mensagem de Flávio fosse integralmente recebida pelos telespectadores durante a exibição, enquanto o adversário teve seu programa apresentado sem a mesma interrupção. A campanha do PL passou a utilizar as redes sociais para divulgar a versão com áudio e buscar compensar a exposição prejudicada. O episódio também reforçou a importância das plataformas digitais como canais alternativos de comunicação, capazes de ampliar rapidamente a repercussão de acontecimentos ocorridos na televisão. A principal questão agora é esclarecer a origem da falha e verificar se houve prejuízo à igualdade de condições entre os candidatos, além de identificar eventuais responsabilidades e medidas corretivas cabíveis. Enquanto a Justiça Eleitoral investiga o ocorrido, o caso acrescenta um novo capítulo de tensão à reta final da campanha: um programa que ficou em silêncio na televisão, mas que acabou produzindo intensa discussão política fora dela.