Notícia Todo Dia NTD
Carros & Mais

Gasolina nas alturas, elétricos na mira: 87% dos brasileiros consideram abandonar os postos

11/10/2026 • 14:10 • Por Redação NTD

Apesar do entusiasmo demonstrado pela pesquisa, o preço de compra continua sendo o principal obstáculo para transformar o interesse em vendas efetivas

Foto: Juice World

Pesquisa revela que economia com combustível atrai 78% dos interessados em carros elétricos, mas preço elevado dos veículos ainda dificulta a mudança

O brasileiro está fazendo as contas e descobrindo que o maior problema do carro pode não estar no motor, mas no preço cobrado nas bombas. Com a gasolina pressionando cada vez mais o orçamento das famílias, 87% dos motoristas brasileiros entrevistados afirmam que considerariam comprar um carro elétrico, segundo levantamento do Instituto Locomotiva divulgado na sexta-feira, 9. Entre aqueles que cogitam a mudança, 78% apontam a economia com combustível como um dos principais motivos para abandonar os veículos tradicionais. Os números revelam uma transformação importante na maneira como os consumidores avaliam a mobilidade: antes associados principalmente à sustentabilidade e à inovação tecnológica, os automóveis elétricos passaram a ser vistos também como uma alternativa para reduzir despesas. A pesquisa mostra que metade dos entrevistados afirma que certamente compraria um veículo elétrico, enquanto outros 37% dizem que provavelmente fariam essa aquisição. O interesse cresce em um momento de instabilidade no mercado internacional de petróleo, marcado por conflitos geopolíticos e oscilações expressivas nas cotações da matéria-prima. Na quinta-feira (8), o barril do petróleo Brent encerrou o dia cotado a US$ 104,13, enquanto o WTI terminou a US$ 91,35. A pressão sobre os combustíveis levou o governo federal a anunciar, na sexta-feira, medidas emergenciais para tentar conter os preços, incluindo a redução temporária de tributos federais sobre a gasolina. O pacote tem impacto fiscal estimado em R$ 5,2 bilhões em 30 dias, demonstrando a dimensão econômica do problema. Para milhões de motoristas, entretanto, a preocupação é mais imediata: quanto custa abastecer o carro e quanto do orçamento mensal continuará sendo consumido pelos deslocamentos cotidianos.

A economia aparece como protagonista, mas não é o único fator que desperta o interesse dos brasileiros pela eletrificação. Entre os motoristas que consideram adquirir um carro elétrico, 61% mencionam a sustentabilidade como um atrativo, 56% destacam a tecnologia mais avançada e 51% apontam o maior conforto oferecido pelos veículos. A combinação desses fatores indica que os consumidores começam a avaliar o automóvel de maneira mais ampla, considerando não apenas o preço pago na concessionária, mas também os gastos acumulados durante os anos de utilização. Essa percepção aparece claramente no levantamento: 76% dos entrevistados acreditam que a economia proporcionada por um carro elétrico pode compensar seu preço inicial mais elevado, enquanto 24% discordam dessa avaliação. A diferença de custo por quilômetro rodado tornou-se um argumento importante, especialmente para quem utiliza o automóvel diariamente e percorre longas distâncias. Veículos elétricos também costumam apresentar vantagens relacionadas à menor necessidade de determinados serviços de manutenção, embora os custos efetivos dependam do modelo, da tarifa de energia, da quilometragem percorrida e das condições de utilização. A pesquisa ainda identificou que 84% dos motoristas consideram os carros elétricos mais atraentes quando o preço do petróleo aumenta, percepção registrada em julho, antes das oscilações mais recentes no mercado internacional. A relação entre combustível caro e interesse pela eletrificação demonstra como fatores econômicos podem acelerar mudanças de comportamento que, anteriormente, estavam mais associadas à preocupação ambiental. Entretanto, reconhecer as vantagens financeiras de uma tecnologia não significa necessariamente ter condições de adquiri-la.

O sonho esbarra no preço

Apesar do entusiasmo demonstrado pela pesquisa, o preço de compra continua sendo o principal obstáculo para transformar o interesse em vendas efetivas. O levantamento revela que 84% dos entrevistados teriam maior probabilidade de adquirir um carro elétrico caso os modelos fossem mais baratos. O resultado evidencia uma contradição do mercado brasileiro: muitos consumidores reconhecem que poderiam economizar durante a utilização do veículo, mas não dispõem dos recursos necessários para enfrentar o investimento inicial. A diferença entre o preço de um automóvel elétrico e o de modelos convencionais ainda pesa especialmente entre os compradores de menor renda, que dependem de financiamento e precisam considerar juros, seguro, manutenção e eventual desvalorização. Além disso, a infraestrutura de recarga continua sendo um fator decisivo para quem mora em edifícios sem carregadores, depende de estacionamentos públicos ou precisa realizar viagens frequentes. A possibilidade de carregar o automóvel em casa pode representar uma vantagem importante, mas não está igualmente disponível para todos os consumidores. Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva, destacou que o desafio do setor é aproximar o preço de aquisição da economia que os motoristas já percebem no uso cotidiano, além de ampliar as alternativas de recarga. A declaração resume uma dificuldade central da transição tecnológica: a disposição para comprar existe, mas a capacidade financeira e a infraestrutura disponível ainda limitam o acesso. Assim, a expansão dos carros elétricos dependerá não apenas do preço da gasolina, mas também da chegada de modelos mais acessíveis, de condições de financiamento competitivas e do crescimento da rede de carregamento.

Outro fator que favorece o interesse pelos veículos elétricos é a experiência compartilhada por consumidores que já utilizam essa tecnologia. Segundo a pesquisa, 69% dos motoristas entrevistados conhecem alguém que possui um carro elétrico, e 92% daqueles que conhecem proprietários afirmam receber avaliações positivas sobre os veículos. Esse contato contribui para reduzir dúvidas relacionadas à autonomia, ao desempenho e aos custos de utilização, aproximando a tecnologia de consumidores que anteriormente a consideravam distante de sua realidade. Entre os entrevistados que já possuem veículos elétricos ou híbridos, 98% afirmam que considerariam adquirir outro automóvel elétrico, sendo que 85% certamente fariam a compra e 13% provavelmente repetiriam a escolha. Os resultados indicam um elevado nível de interesse entre usuários familiarizados com a eletrificação, embora intenção declarada de compra não seja equivalente a uma venda realizada. O avanço dessa tecnologia também pode alterar o mercado automotivo brasileiro, estimulando investimentos em novos modelos, infraestrutura energética, serviços especializados e alternativas de mobilidade. Ao mesmo tempo, a concorrência entre fabricantes tende a ganhar importância para ampliar as opções disponíveis aos consumidores. O levantamento do Instituto Locomotiva mostra que a gasolina cara se tornou um dos principais argumentos a favor dos elétricos, mas revela também que o brasileiro ainda enfrenta uma barreira financeira para realizar essa mudança. Enquanto o custo dos combustíveis pressiona o orçamento e o preço dos veículos elétricos permanece elevado, milhões de motoristas ficam diante de uma escolha difícil: continuar pagando para abastecer ou assumir um investimento maior na expectativa de economizar no futuro. A eletrificação desperta interesse crescente, mas sua expansão dependerá da capacidade do mercado de transformar essa disposição em acesso real.