Inspirado em Hamlet, espetáculo “Duvido” mistura humor, Shakespeare e dilemas contemporâneos para questionar a busca por certezas; temporada segue até 25 de outubro na Sede da Cia dos Atores
Ser ou não ser? Eis a questão. Mas, em um mundo que exige respostas imediatas, decisões certeiras e confiança inabalável, e se a grande questão for justamente não saber o que fazer? É dessa provocação que nasce “Duvido”, monólogo cômico escrito e protagonizado por Marcéli Torquato, com direção de Camila Nhary, em cartaz até 25 de outubro, na Sede da Cia dos Atores, na região da Lapa, no Rio de Janeiro. Inspirada no universo de Hamlet, de William Shakespeare, a montagem transforma hesitações, inseguranças, tropeços e contradições humanas em matéria-prima para o humor e a reflexão. Em vez de apresentar histórias de superação ou respostas prontas, a peça propõe um olhar bem-humorado sobre aquilo que costuma ser tratado como fraqueza: a dúvida. Afinal, em uma sociedade que valoriza tanto as certezas, admitir que não sabemos o próximo passo pode ser um dos gestos mais sinceros e corajosos.
Na trama, uma atriz aguarda a chegada de Hamlet, que está atrasado. Enquanto o personagem mais indeciso da literatura ocidental não aparece, o palco se transforma em aeroporto, casa, espaço de lembranças e território de pensamentos. Entre malas, viagens, expectativas e perguntas sem respostas, a protagonista revisita experiências relacionadas à infância, maternidade, amor, medo, luto e desejo, misturando passagens clássicas de Shakespeare com situações do cotidiano contemporâneo. O famoso questionamento “Ser ou não ser?” ganha novos significados ao atravessar a vida de uma mulher que procura orientação, reconhecimento e segurança nas próprias escolhas. Em diálogo direto com a plateia, a personagem tenta encontrar respostas nos outros, enquanto descobre que nem mesmo aquilo que parece ensaiado está inteiramente sob controle. “A peça mostra a saga de uma mulher que está diante do público em busca de validação, esperando que alguém diga para ela o que fazer, como seguir, o que vestir”, explica Marcéli Torquato, que define a montagem como um convite para continuar caminhando, mesmo sem saber exatamente aonde chegar.
A dúvida entra em cena
O espetáculo também marca a estreia de Camila Nhary na direção teatral. Atriz e uma das fundadoras do grupo Bando de Palhaços, ela conduz uma encenação que explora a fronteira entre realidade e ficção, verdade e mentira, segurança e improviso. Para a diretora, o excesso de informações, a influência das redes sociais, os filtros digitais e a circulação de notícias falsas criaram um ambiente em que as pessoas passaram a questionar não apenas aquilo que veem, mas também seus próprios desejos, sentimentos e percepções. “O mundo atual, com excesso de informação, nos traz muito mais dúvidas do que certezas”, observa Camila. Na montagem, essa instabilidade aparece em um jogo constante com o espectador, que é levado a desconfiar das situações apresentadas e a reconsiderar aquilo que parecia evidente. O teatro, que em Hamlet serve para revelar um assassinato, torna-se em “Duvido” um espaço para ensaiar a própria vida, com suas contradições, imprevistos e possibilidades de recomeço.
Com duração de 60 minutos, “Duvido” permanece em cartaz até 25 de outubro de 2026, com apresentações às sextas e sábados, às 20h, e aos domingos, às 19h, na Sede da Cia dos Atores, localizada na Rua Manuel Carneiro, 12, na região de Santa Teresa e Lapa. O espaço possui capacidade para 67 espectadores, a classificação indicativa é de 12 anos e os ingressos custam R$ 60 a inteira e R$ 30 a meia-entrada, com vendas pela bilheteria e pela plataforma Sympla. Entre situações cômicas, referências literárias e reflexões sobre as pressões da vida contemporânea, a montagem convida o público a abandonar, pelo menos durante uma hora, a obrigação de ter todas as respostas. Como resume Marcéli Torquato, trata-se de “um elogio a seguir em frente catando cavaco, de seguir sem certezas”. No fim das contas, a peça deixa uma provocação: se até Hamlet passou séculos tentando decidir, por que nós precisaríamos ter tanta certeza de tudo?