Stellantis admite encerrar até duas unidades na Argentina, alerta para custos elevados e afirma que resultado das eleições presidenciais poderá influenciar decisões sobre investimentos no Brasil
O sinal vermelho acendeu nas linhas de montagem da América do Sul, e uma das maiores fabricantes de automóveis do mundo admite que poderá pisar no freio de suas operações industriais. A Stellantis, conglomerado responsável por marcas como Fiat, Jeep, Peugeot, Citroën e Ram, reconheceu que considera fechar uma ou até duas fábricas na Argentina, diante da perda de competitividade, dos elevados custos de produção e do avanço dos veículos importados. O alerta foi feito pelo presidente da companhia na América do Sul, Herlander Zola, que também demonstrou preocupação com as indefinições sobre o futuro da política industrial brasileira. Segundo o executivo, o resultado da disputa presidencial entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) poderá influenciar as próximas decisões estratégicas da montadora, uma vez que o Brasil concentra aproximadamente 65% do volume de veículos comercializados pelo grupo na região. A declaração expõe um momento de incerteza para a indústria automobilística sul-americana, pressionada pela concorrência internacional e pela necessidade de modernização de suas fábricas. Embora a possibilidade de encerramento das unidades argentinas esteja sendo considerada, a empresa ainda não anunciou uma decisão definitiva. O cenário, entretanto, evidencia que até grandes fabricantes estão reavaliando a viabilidade econômica de suas operações diante das mudanças no mercado automotivo.
A situação mais delicada está na Argentina, onde a Stellantis mantém duas importantes unidades industriais: a fábrica de El Palomar, na região de Buenos Aires, responsável pela produção dos Peugeot 208 e 2008, e a unidade de Ferreyra, em Córdoba, onde são fabricados modelos como Fiat Cronos, Fiat Titano e Ram Dakota. Segundo Herlander Zola, o custo da mão de obra argentina chega a ser o dobro do registrado no Brasil, enquanto a cadeia local de fornecedores permanece limitada e dependente de componentes produzidos em território brasileiro. A combinação desses fatores reduz a capacidade das fábricas de competir com veículos importados, especialmente após a abertura comercial promovida pelo governo argentino. O avanço das montadoras chinesas agravou o problema, oferecendo automóveis em condições comerciais que pressionam os fabricantes tradicionais. A Peugeot, uma das principais marcas da Stellantis no país vizinho, viu sua participação no mercado argentino cair de aproximadamente 9% para 5% em apenas um ano, resultado que levou a companhia a reconsiderar o tamanho de sua estrutura produtiva. Entre as alternativas estudadas estão a transferência de modelos entre unidades, a concentração da produção em uma única fábrica ou até o encerramento das duas operações. A unidade de El Palomar enfrenta maior vulnerabilidade, enquanto a produção de picapes em Córdoba apresenta condições relativamente melhores de competição. A possibilidade de fechamento representa uma ameaça à continuidade das atividades industriais e poderá provocar consequências para trabalhadores, fornecedores e municípios economicamente ligados às montadoras, caso seja concretizada.
Eleições brasileiras entram na equação
O futuro das fábricas argentinas também está diretamente relacionado às decisões econômicas e industriais do Brasil, principal mercado da Stellantis na América do Sul. Herlander Zola afirmou que a falta de previsibilidade sobre as regras brasileiras dificulta a definição de novos investimentos e a organização da produção regional, especialmente em um momento de forte expansão das fabricantes chinesas. A preocupação envolve o tratamento dado às empresas que mantêm fábricas instaladas no país em comparação com aquelas que importam veículos completos ou realizam apenas a montagem de automóveis a partir de conjuntos de peças produzidas no exterior. Na avaliação do executivo, é necessário estabelecer condições claras de concorrência, tributação e incentivo à produção local para que as montadoras possam planejar seus próximos lançamentos e decidir onde concentrar recursos. O segundo turno presidencial brasileiro, marcado para 25 de outubro, acrescenta uma variável política ao cenário, já que as diretrizes do próximo governo poderão afetar as estratégias do setor. A empresa ressalta, entretanto, que a necessidade de previsibilidade existe independentemente de quem vença a eleição. O desafio também envolve a transformação tecnológica da indústria, com a chegada de veículos elétricos e híbridos, novas plataformas de produção e concorrentes capazes de oferecer produtos com custos mais competitivos. Para a Stellantis, decisões industriais de longo prazo dependem não apenas do desempenho imediato das vendas, mas também da estabilidade das regras econômicas e das perspectivas de rentabilidade de cada fábrica. Nesse contexto, a companhia procura avaliar quais unidades possuem condições de permanecer competitivas diante das mudanças que estão redesenhando o mercado automobilístico mundial.
Apesar do alerta sobre possíveis fechamentos, a Stellantis ainda mantém projetos de expansão na Argentina, demonstrando que a reestruturação industrial não significa necessariamente uma retirada completa do país. Entre os investimentos previstos está a inauguração de uma fábrica de motores em Córdoba, programada para dezembro, com início da produção do propulsor 2.2 turbodiesel Multijet em 2027. O motor deverá abastecer picapes fabricadas na Argentina e também ser exportado para o Brasil, onde equipa modelos como Fiat Toro e Jeep Commander. A iniciativa revela a importância da integração produtiva entre os dois países, mas também reforça a necessidade de reduzir custos e tornar as operações mais eficientes. O grupo enfrenta o desafio de equilibrar investimentos em novas tecnologias com a manutenção de unidades tradicionais, algumas delas pressionadas pela redução da demanda e pelo crescimento das importações. No Brasil, onde a Fiat mantém forte presença comercial e a Stellantis possui uma extensa estrutura industrial, as decisões sobre tributação, importação e incentivos poderão influenciar a distribuição regional de novos projetos. O alerta da montadora coloca em evidência uma questão que ultrapassa os interesses de uma única empresa: a capacidade da indústria sul-americana de preservar sua produção e seus empregos diante da concorrência global. Com duas fábricas argentinas sob avaliação e o futuro das políticas industriais brasileiras ainda indefinido, a Stellantis deixa claro que poderá reorganizar profundamente suas operações. Por enquanto, nenhuma unidade teve o fechamento confirmado, mas a possibilidade já entrou oficialmente no planejamento estratégico de um dos maiores grupos automobilísticos do mundo.