Conhecido por atender a alta sociedade de Cuiabá, profissional é alvo de operação que investiga venda de entorpecentes, lavagem de dinheiro e movimentações financeiras suspeitas de até R$ 1,4 milhão
Entre tesouras, escovas, penteados sofisticados e uma clientela de alto poder aquisitivo, a Polícia Civil de Mato Grosso encontrou suspeitas de um negócio que iria muito além dos serviços de beleza. Elielson Gonçalves Vieira, conhecido como “cabeleireiro das estrelas”, foi preso pela terceira vez nesta quinta-feira, 8, em Cuiabá, suspeito de participar de um esquema de tráfico de drogas voltado a clientes de alto padrão. O profissional, que construiu sua imagem atendendo pessoas da alta sociedade mato-grossense, foi detido em casa durante a Operação Fio, deflagrada pela Delegacia Especializada de Repressão a Narcóticos (Denarc). Segundo as investigações, ele seria responsável por intermediar e revender entorpecentes a consumidores de elevado poder aquisitivo, enquanto outros integrantes do grupo cuidariam do fornecimento das substâncias e da movimentação dos recursos financeiros. O caso ganhou repercussão não apenas pela notoriedade do cabeleireiro, mas também por seu histórico de envolvimento em ocorrências relacionadas ao tráfico. A operação investiga ainda possíveis crimes de associação para o tráfico e lavagem de dinheiro, levantando suspeitas sobre uma estrutura que utilizaria relações comerciais e movimentações bancárias para ocultar a origem de recursos ilícitos.
A trajetória de Elielson já havia sido marcada por outros episódios envolvendo entorpecentes. Em 2012, ele foi preso pela Polícia Federal após receber pelos Correios uma encomenda contendo 239 comprimidos de ecstasy, caso que resultou em uma condenação a seis anos de prisão, dos quais cumpriu parte em regime fechado. Mais recentemente, em setembro de 2025, o cabeleireiro voltou a ser detido durante uma investigação relacionada à Operação Renegados 2, que apurava um esquema envolvendo traficantes e suspeitas de corrupção de servidores públicos. Na ocasião, policiais apreenderam seu telefone celular no salão de beleza e localizaram, dentro de uma geladeira em sua residência, mais de meio quilo de skunk, uma variedade de maconha com elevada concentração de THC. Segundo os investigadores, mensagens analisadas indicavam contatos com fornecedores e negociações envolvendo quantidades, valores, pagamentos por Pix e entregas de drogas. Elielson respondia em liberdade ao processo decorrente daquela prisão quando voltou a ser alvo da polícia. Nas redes sociais, onde reúne mais de nove mil seguidores, o profissional afirma possuir mais de 30 anos de experiência no setor de beleza e divulga transformações capilares, além de registros de uma rotina associada ao luxo, incluindo publicações em veículos de alto padrão. A investigação atual, entretanto, ainda precisa esclarecer a eventual relação entre seu patrimônio, suas atividades profissionais e os recursos suspeitos.
Do salão à investigação policial
A Operação Fio mobilizou equipes policiais em Mato Grosso e São Paulo para cumprir 26 ordens judiciais, sendo cinco mandados de prisão preventiva, nove de busca e apreensão e 12 determinações de bloqueio de ativos financeiros. As ações ocorreram simultaneamente em Cuiabá, Várzea Grande, Mirassol D'Oeste e municípios do litoral sul paulista, com autorização do Núcleo de Justiça 4.0 do Juízo das Garantias, Polo Cuiabá. Entre os investigados está Hebert Felipe de Almeida Vieira, de 36 anos, apontado como possível fornecedor das drogas que seriam recebidas e revendidas pelo cabeleireiro. Ele foi preso em Santos, no litoral de São Paulo, depois de ter deixado a região metropolitana de Cuiabá. Em agosto, Hebert sobreviveu a uma tentativa de homicídio dentro de um hotel em Várzea Grande, quando homens armados invadiram o estabelecimento e dispararam diversas vezes em sua direção, sem conseguir atingi-lo. A Polícia Civil investiga se o atentado possui ligação com as atividades atribuídas ao grupo. Outro ponto central da operação envolve a suspeita de utilização de contas bancárias de terceiros, conhecidos como laranjas, e de pessoas jurídicas para movimentar valores e dificultar a identificação da origem do dinheiro. Os investigadores identificaram indícios de transações financeiras incompatíveis com a renda declarada de alguns envolvidos, circunstância que motivou medidas patrimoniais destinadas a preservar recursos e impedir sua eventual dissipação.
O alcance financeiro da investigação chama atenção pelos valores envolvidos. A Justiça autorizou bloqueios de ativos com limites individualizados, que podem variar de aproximadamente R$ 300 mil até R$ 1,4 milhão no maior teto estabelecido para um dos investigados, além de determinações de indisponibilidade integral dos recursos encontrados em determinadas contas. As medidas não significam que esses valores tenham sido efetivamente apreendidos, mas representam uma tentativa de impedir a movimentação de patrimônio que possa estar relacionado aos crimes investigados. O material recolhido durante as buscas, incluindo dispositivos eletrônicos, documentos e registros financeiros, deverá passar por análise para esclarecer a estrutura do grupo, identificar possíveis outros participantes e verificar como ocorria a circulação do dinheiro. Para a Polícia Civil, a investigação também procura determinar a extensão da rede de distribuição de entorpecentes e a eventual participação de empresas ou intermediários na ocultação de recursos. A terceira prisão de Elielson coloca novamente seu nome no centro de uma investigação criminal e amplia a repercussão de um caso que mistura o universo dos salões de beleza frequentados pela elite com suspeitas de tráfico e lavagem de capitais. Apesar do histórico judicial do cabeleireiro, as acusações relacionadas à Operação Fio ainda dependem de apuração e eventual julgamento, com garantia do direito de defesa. Até a publicação das informações consultadas, não havia manifestação da defesa sobre a nova prisão.