Ex-juiz que se tornou símbolo da maior operação anticorrupção do país supera a barreira dos 50%, contraria pesquisas e troca o Senado pelo governo paranaense
Da Operação Lava Jato ao Palácio Iguaçu, a trajetória que transformou Sergio Moro em uma das figuras mais conhecidas — e também mais importantes — da política brasileira ganhou neste domingo, 4, um novo capítulo decidido diretamente pelas urnas. Sergio Moro (PL), ex-juiz federal que comandou processos centrais da Lava Jato em Curitiba e determinou a prisão do atual Presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2018, foi eleito governador do Paraná já no primeiro turno, alcançando 50,18% dos votos válidos. O senador recebeu 3.106.644 votos, praticamente o dobro dos 1.565.324 conquistados por Sandro Alex (PSD), que terminou com 25,29%. Requião Filho (PDT) ficou na terceira posição, com 23,46% e 1.452.389 votos. A vitória leva ao comando do Executivo paranaense um personagem cuja projeção nacional nasceu muito antes de sua entrada oficial na política: Moro tornou-se o rosto mais conhecido da Lava Jato, operação que investigou um gigantesco esquema de corrupção envolvendo a Petrobras, grandes empreiteiras, empresários, e políticos do PT e partidos aliados. Foi também sob sua atuação como magistrado que Lula foi condenado no processo do tríplex do Guarujá e teve a prisão decretada em abril de 2018, episódio que transformou Moro, para seus apoiadores, em símbolo do combate à corrupção e, para seus críticos, em representante da judicialização da política. As condenações do petista seriam posteriormente anuladas pelo Supremo Tribunal Federal, que considerou incompetente a 13ª Vara Federal de Curitiba para julgar os casos, enquanto a Segunda Turma do STF declarou Moro parcial no processo do tríplex. Agora, oito anos depois daquele momento que marcou profundamente a política nacional, o ex-juiz conquista nas urnas o cargo mais importante de sua trajetória eleitoral.
O resultado deste domingo ganha ainda mais força política porque Moro conseguiu superar não apenas seus adversários, mas também as projeções das pesquisas divulgadas na reta final, que apontavam a possibilidade concreta de a eleição paranaense avançar para uma segunda rodada. A última pesquisa Quaest mostrava o candidato do PL com 43% dos votos válidos, enquanto Sandro Alex aparecia com 29% e Requião Filho registrava 27%, estes dois últimos tecnicamente empatados na disputa pela outra vaga em um eventual segundo turno. Quando as urnas foram abertas, porém, Moro avançou além do patamar indicado pelos levantamentos e ultrapassou, ainda que por margem estreita, a barreira decisiva dos 50%, encerrando a corrida na primeira etapa. A vitória acrescenta uma nova dimensão a uma trajetória que atravessou sucessivas transformações na última década. Depois de deixar a magistratura em 2018, Moro assumiu o Ministério da Justiça e Segurança Pública no governo Jair Bolsonaro em 2019, rompeu com o então Presidente no ano seguinte e posteriormente ingressou na disputa eleitoral. Em 2022, conquistou uma cadeira no Senado pelo Paraná; em 2026, filiou-se ao PL e se tornou um dos principais palanques estaduais de Flávio Bolsonaro na corrida presidencial. O resultado deste domingo demonstra que, apesar das controvérsias acumuladas desde os tempos da Lava Jato, o capital político construído pelo ex-magistrado continuou encontrando respaldo significativo entre os eleitores paranaenses.
Da toga ao voto
A conquista do Palácio Iguaçu consolida uma transformação que poucos personagens da história política recente brasileira experimentaram com tamanha velocidade: Moro deixou de ser o juiz responsável pelos principais processos da Lava Jato em Curitiba para se tornar senador e, agora, governador eleito do Paraná. Sua imagem permanece indissociavelmente ligada à operação que abalou o sistema político brasileiro a partir de 2014 e, sobretudo, ao processo que levou Lula à prisão. Em julho de 2017, Moro condenou o então ex-Presidente no caso do tríplex do Guarujá; a sentença foi confirmada e ampliada pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região e, em abril de 2018, após o STF rejeitar um habeas corpus da defesa, o magistrado expediu a ordem que levou Lula a se entregar à Polícia Federal em Curitiba, onde permaneceu preso por 580 dias. A história judicial ganhou novos contornos anos depois: em 2021, o STF anulou as condenações relacionadas à Lava Jato por entender que a Justiça Federal do Paraná não tinha competência para julgar aqueles processos, devolvendo ao petista seus direitos políticos, e a Segunda Turma da Corte reconheceu a parcialidade de Moro no caso do tríplex. Mesmo com essa reviravolta jurídica, a associação entre o ex-juiz, a Lava Jato e a prisão de Lula permaneceu como elemento central de sua identidade pública. Na eleição deste domingo, Moro conseguiu transformar novamente essa notoriedade em votos, derrotando também o projeto de sucessão do governador Ratinho Junior (PSD), que apoiava Sandro Alex. Com Edson Vasconcelos como vice-governador eleito, Moro se prepara agora para trocar o Congresso pelo Executivo estadual, enquanto sua cadeira no Senado deverá ser ocupada pelo suplente Luis Felipe Cunha.
A vitória no primeiro turno amplia ainda o peso de Moro dentro do PL e da direita paranaense e oferece ao ex-juiz uma plataforma política muito maior do que aquela proporcionada por uma cadeira no Senado. Além de conquistar o governo, seu campo político encerrou a eleição fortalecido no estado, com Filipe Barros (PL) eleito para uma das duas vagas paranaenses no Senado e Deltan Dallagnol (Novo), ex-coordenador da força-tarefa da Lava Jato em Curitiba, conquistando a outra cadeira, embora a situação jurídica de Deltan ainda dependa de julgamento definitivo no TSE. O resultado produz uma imagem carregada de simbolismo: dois dos nomes mais identificados com a Lava Jato voltam a ocupar posições de destaque na política paranaense justamente em uma eleição nacional na qual Lula disputa mais uma vez a Presidência da República. Para Moro, porém, o domingo representa sobretudo a consolidação de uma carreira que começou fora das urnas e que passou a depender delas. O magistrado que ganhou projeção nacional investigando o maior escândalo de corrupção da história recente do país, condenou Lula e determinou sua prisão agora recebe diretamente do eleitorado o comando do Paraná. Se as pesquisas indicavam que o ex-juiz provavelmente teria de enfrentar uma segunda rodada, as urnas encurtaram o caminho: da toga da Lava Jato ao Palácio Iguaçu, Moro passou direto pelo primeiro turno e chega ao governo paranaense com uma vitória de forte peso político e simbólico.