Petista ataca reação de gigantes do futebol contra restrições às bets, cita Flamengo e Corinthians e provoca cena inusitada com a primeira-dama durante comício
O jogo esquentou, e o primeiro pedido para baixar a bola veio de dentro de casa. Em pleno discurso durante um comício em Guarulhos, São Paulo, o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva entrou de carrinho na discussão sobre as bets e mirou alguns dos maiores clubes do país. Ao afirmar que o Flamengo liderava a reação dos times contra eventuais restrições ou até uma proibição das casas de apostas eletrônicas, Lula provocou uma reação imediata de Janja. Torcedora rubro-negra, a primeira-dama, posicionada atrás do Presidente, gesticulou para que ele não concentrasse a crítica apenas no clube carioca. Lula percebeu o recado e rapidamente ampliou o alvo: acrescentou o Corinthians, seu time de coração, e depois incluiu os demais clubes envolvidos na mobilização. A cena deu um ingrediente extra a uma discussão que já extrapolou os gramados e colocou frente a frente o governo e parte importante do futebol brasileiro.
Depois do sinal de Janja, Lula manteve o ataque às alegações dos clubes de que medidas mais duras contra as bets poderiam comprometer financeiramente o futebol. Para rebater o argumento, o Presidente recorreu à história e lembrou que alguns dos maiores títulos conquistados por equipes brasileiras ocorreram muito antes de as empresas de apostas dominarem espaços nas camisas, placas de publicidade e transmissões esportivas. Citou conquistas de São Paulo, Santos, Grêmio, Internacional e, até, do Flamengo, lembrando que o Corinthians foi duas vezes campeão mundial sem depender desse tipo de patrocínio. No embalo, ainda provocou o Palmeiras ao afirmar que o rival corintiano não havia conquistado o Mundial. O discurso arrancou reação de Janja, mas o pano de fundo era uma disputa de bilhões: as bets se transformaram em uma importante fonte de financiamento do futebol nacional, e qualquer mudança significativa na regulamentação pode atingir contratos já incorporados ao orçamento dos clubes.
Bola dividida de R$ 1 bilhão
A ofensiva de Lula ocorre depois de clubes se mobilizarem contra mudanças que possam restringir drasticamente o mercado regulado de apostas. Flamengo, Fluminense, São Paulo, Santos, Botafogo, Vasco e Palmeiras estiveram entre os times que divulgaram uma manifestação conjunta, enquanto o Corinthians publicou a nota em seu próprio site. A campanha utilizou a expressão “O fim do futebol brasileiro” para alertar sobre as consequências financeiras de uma eventual proibição do setor. Segundo os clubes, o impacto poderia chegar a aproximadamente R$ 1 bilhão apenas nessa fonte de receitas. O tamanho da dependência ajuda a explicar a reação: 14 dos 20 clubes da Série A possuem contratos de patrocínio master com casas de apostas, transformando as bets em personagens centrais da economia do futebol. Dirigentes também passaram a articular uma audiência com Lula para discutir as medidas estudadas pelo governo, especialmente diante da possibilidade de restrições aos cassinos on-line operados pelas empresas do setor.
Lula, porém, elevou ainda mais o tom ao defender que o futebol encontre outras formas de financiamento. O Presidente argumenta que o país pode abrir mão de arrecadação se isso reduzir os problemas sociais que ele associa às apostas e afirmou que pretende combater supostas práticas de lavagem de dinheiro no setor. Para reforçar sua posição, lembrou que a Seleção Brasileira conquistou suas cinco Copas do Mundo sem patrocínio das plataformas de apostas. Dias depois, Lula voltou ao assunto e declarou que os clubes deveriam aprender a sobreviver sem recursos que ele associou à lavagem de dinheiro. A afirmação provocou reação do presidente do Flamengo, Luiz Eduardo Baptista, o Bap, que disse que o clube atua dentro das regras, e rechaçou a acusação presidencial. Assim, o confronto deixou de ser apenas uma discussão sobre propaganda ou patrocínio: tornou-se uma queda de braço envolvendo bilhões de reais, gigantes do futebol, empresas de apostas e o governo federal. E, no meio desse Fla-Flu político e econômico, Janja mostrou que, pelo menos quando o Flamengo entra na conversa, Lula pode receber um pedido de correção até do próprio palanque.