Com 1.475 espécies catalogadas, maior metrópole do país ainda guarda uma surpreendente vida selvagem entre áreas verdes, territórios indígenas e florestas recuperadas
Entre buzinas, prédios, avenidas e milhões de passos apressados, há patas, asas e focinhos seguindo caminhos bem mais antigos. Por trás da imagem de selva de pedra, São Paulo mantém uma surpreendente vida selvagem, com animais que resistem à expansão urbana e ajudam a contar uma história iniciada muito antes de o concreto dominar a paisagem. De pequenos insetos a grandes mamíferos, a biodiversidade paulistana sobrevive em fragmentos de mata, territórios protegidos e áreas recuperadas, revelando uma metrópole onde natureza e urbanização continuam disputando — e, em alguns casos, compartilhando — espaço.
A memória dessa fauna está gravada até no mapa da cidade. Nomes conhecidos dos paulistanos guardam referências indígenas aos animais que historicamente habitavam a região: M'Boi Mirim remete à cobra pequena, Tatuapé significa “caminho do tatu” e Tamanduateí faz referência aos tamanduás. Na Terra Indígena Jaraguá, essa relação entre natureza, cultura e ancestralidade permanece viva entre 45 famílias Guarani, que mantêm vínculos culturais e espirituais com diferentes espécies. Entre elas estão as abelhas nativas sem ferrão, tradicionalmente valorizadas pelos indígenas. A presença desses animais mostra que preservar a biodiversidade significa também conservar conhecimentos, referências culturais e uma parte da identidade paulistana muitas vezes escondida sob as sucessivas camadas da urbanização.
A selva por trás da pedra
Os números ajudam a revelar a dimensão desse patrimônio natural. Segundo o Inventário da Fauna Silvestre de São Paulo, a cidade possui 1.475 espécies catalogadas, sendo 223 ameaçadas de extinção. Sobreviver em uma das maiores áreas urbanas do planeta, entretanto, impõe uma série de perigos: atropelamentos, choques elétricos, tráfico de animais e acidentes provocados por linhas de pipa estão entre os principais riscos. Ao mesmo tempo, ações de preservação e recuperação ambiental mostram que alguns desses habitantes conseguem reconquistar territórios. Um exemplo é a anta, que voltou a ocupar áreas de floresta restauradas no extremo sul da capital. Além de indicar a importância da recuperação desses ambientes, o retorno do animal contribui para a própria regeneração das matas, já que a espécie dispersa sementes durante seus deslocamentos.
Existe, portanto, uma São Paulo muito diferente daquela retratada apenas por arranha-céus, trânsito e multidões. A vida selvagem não desapareceu à medida que a metrópole cresceu: resistiu, adaptou-se e, quando encontra condições favoráveis, volta a ocupar espaços antes perdidos. Proteger esses animais significa preservar espécies, áreas verdes, relações ecológicas, saberes tradicionais e capítulos da própria formação da cidade. Afinal, muito antes de bairros, avenidas e estações de metrô redesenharem o território, cobras, tatus, tamanduás, antas e inúmeras outras espécies já percorriam essas terras. A selva virou pedra, mas seus antigos moradores continuam encontrando caminhos para sobreviver.