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Política

STF pisa no freio e deixa caso Moraes no meio do caminho

16/09/2026 • 06:34 • Por Leo Pinheiro

O movimento que travou a análise partiu de Flávio Dino, que pediu vista do processo

Foto: Alejandro Zambrana/STF

Pedido de vista de Flávio Dino interrompe julgamento, mantém indefinição sobre investigação de Alexandre de Moraes e amplia debate sobre os limites e procedimentos da própria Corte

O Supremo Tribunal Federal entrou em campo para decidir se avançaria sobre o caso de Alexandre de Moraes, mas terminou a sessão ainda discutindo as regras do jogo. Depois de horas de debates e divergências entre os ministros, a Corte encerrou o julgamento sem chegar ao mérito da eventual abertura de investigação contra o magistrado. O movimento que travou a análise partiu de Flávio Dino, que pediu vista durante uma discussão preliminar fundamental: saber se o procedimento relacionado a Moraes deve seguir sozinho ou ser analisado em conjunto com o caso envolvendo André Mendonça. A questão processual ganhou importância porque pode determinar não apenas a sequência dos julgamentos, mas também a forma como o Supremo avaliará os atos atribuídos aos dois ministros. A interrupção ocorre em um momento de exposição interna da Corte, diante de questionamentos sobre a atuação de integrantes do tribunal e sobre os limites de investigações envolvendo seus próprios membros. Sem uma definição sobre o rito, o plenário adiou uma resposta que poderia abrir caminho para o exame do conteúdo das acusações e dos questionamentos apresentados no processo.

O pedido de vista interrompeu a análise da questão de ordem levantada por Gilmar Mendes, defensor de que os episódios envolvendo Moraes e Mendonça sejam examinados conjuntamente. Edson Fachin, Luiz Fux, Cármen Lúcia e André Mendonça se manifestaram pela manutenção dos julgamentos separados, enquanto Gilmar Mendes, Cristiano Zanin e o próprio Moraes defenderam a reunião dos procedimentos. Dino também havia indicado posição favorável à análise conjunta, mas, ao solicitar mais tempo para examinar o processo, pediu que seu voto não fosse contabilizado naquele momento. Dessa maneira, o placar provisório ficou em 4 a 3 pela separação dos casos. A controvérsia vai além de uma questão meramente formal: os ministros discutem se os fatos possuem conexão suficiente para justificar uma avaliação conjunta e se decisões tomadas separadamente poderiam produzir entendimentos conflitantes dentro do próprio Supremo. O pedido de vista permite a Dino examinar melhor esses argumentos antes de devolver o processo ao plenário. Pelas regras da Corte, o ministro pode permanecer com os autos por até 90 dias, embora nada impeça que a devolução aconteça antes, permitindo a retomada do julgamento.

Impasse no plenário

A paralisação também produz dúvidas sobre os próximos movimentos do Supremo. O julgamento previsto para analisar a situação de André Mendonça continua, até o momento, marcado para 23 de setembro, mas o pedido de vista abriu uma discussão jurídica sobre a possibilidade de esse procedimento avançar enquanto permanece sem solução a controvérsia sobre a conexão entre os dois casos. Juristas apresentam interpretações diferentes sobre o alcance da suspensão. Juristas sustentam que Moraes, por ser diretamente interessado no resultado, não deveria participar da votação relacionada ao início de uma investigação contra ele. Os especialistas entendem também que o tribunal precisa, antes de qualquer avanço sobre o conteúdo das acusações, estabelecer definitivamente se os processos permanecerão independentes. A composição do placar acrescenta outro componente à disputa: caso Dino devolva os autos e vote pela separação, poderá haver empate, cenário que colocaria o presidente do STF, Edson Fachin, em posição relevante para o encaminhamento da questão. Até que essa etapa seja superada, permanece sem resposta a pergunta central que levou o tema ao plenário: quais procedimentos deverão ser adotados para examinar fatos envolvendo integrantes da própria Corte e quais garantias processuais deverão orientar essa análise.

No centro da controvérsia está um relatório da Polícia Federal tornado público depois que André Mendonça retirou o sigilo do documento. O material reúne mensagens atribuídas ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro e encaminhadas a Alexandre de Moraes, elementos que passaram a alimentar o debate sobre a necessidade e os limites de uma eventual apuração. A Procuradoria-Geral da República questionou a validade do conteúdo e pediu sua anulação, argumentando que diligências teriam alcançado integrante do Supremo sem a autorização necessária do plenário. Moraes, por sua vez, nega irregularidades e afirma que não existe pedido formal de investigação criminal contra ele, além de sustentar que os episódios relacionados aos dois ministros devem ser apreciados conjuntamente para impedir decisões incompatíveis. As diferentes interpretações colocaram o STF diante de uma discussão que mistura questões processuais, prerrogativas institucionais e o próprio funcionamento das investigações quando magistrados da mais alta Corte do país aparecem no material analisado. Com a interrupção provocada por Dino, o Supremo encerrou essa etapa sem avançar sobre o mérito das alegações. O processo permanece, portanto, em uma espécie de antessala jurídica: antes de decidir se existe fundamento para qualquer apuração, os ministros terão de definir como, em qual procedimento e sob quais regras o assunto poderá seguir.

Leo Pinheiro