Festival confirma retorno daqui a dois anos, mas encerra 2026 marcado por ingressos encalhados, lama, filas, problemas de som e um line-up que pouco empolgou
O Rock in Rio já marcou o próximo encontro com o público, mas a despedida de 2026 deixou pouca saudade. A organização confirmou que o festival estará de volta em 2028, depois de uma edição que entra para a história pelos motivos errados e pode ser considerada a pior desde a criação do evento. Em cinco dos sete dias, a chuva transformou trechos da Cidade do Rock em um cenário de lama e grandes poças d'água, enquanto problemas de infraestrutura, longas filas nos banheiros, falhas técnicas e uma programação considerada pouco inspirada aumentaram a insatisfação. Até os sistemas criados para facilitar a vida do público deram sinais de descompasso, com relatos de aplicativos oficiais que não refletiam corretamente a lotação dos sanitários. Em alguns pontos, modelos de banheiros unissex ou neutros também foram alvo de críticas pela lentidão do fluxo e pelo tempo de espera.
A falta de entusiasmo apareceu ainda antes de os últimos acordes ecoarem pela Cidade do Rock. Pela primeira vez em muitos anos, o festival chegou a quatro de seus sete dias com ingressos ainda disponíveis, um sinal de que os preços elevados e um line-up sem o mesmo poder de sedução de outras edições pesaram na decisão do público. A presença de nomes recorrentes, como Ivete Sangalo, e Maroon 5, alimentou críticas à falta de inovação entre os headliners, enquanto parte das 45 atrações internacionais passou pelo evento sem provocar grande repercussão. Para completar, problemas técnicos atingiram diferentes palcos: houve momentos de volume baixo notados (principalmente) na apresentação do Maroon 5, no Palco Mundo, e também nas estruturas secundárias; e apresentações prejudicadas por áudio estourado, como ocorreu com Luísa Sonza, cuja voz acabou abafada em parte do show. Nem mesmo a experiência acumulada de décadas pareceu suficiente para evitar falhas básicas justamente em um festival que historicamente vende grandiosidade como uma de suas principais marcas.
Nem tudo desafinou
No meio de tantos tropeços, veteranos mostraram que idade e novidade nem sempre caminham na mesma direção. Aos 79 anos, Elton John, o headliner mais velho da história do Rock in Rio, entregou uma das apresentações mais celebradas da edição, enquanto Gilberto Gil também apareceu entre os grandes destaques, reafirmando a força de artistas capazes de atravessar gerações. A principal novidade, porém, veio da Coreia do Sul. O K-pop estreou em grande estilo no festival, com o Stray Kids assumindo a posição de headliner, e Hwasa reforçando a presença do gênero na programação. A resposta da Geração Z mostrou que existe espaço para renovar o público e indicou um caminho que a organização poderá explorar com muito mais força em 2028. Se faltaram surpresas em boa parte da escalação, a invasão coreana mostrou que apostar no novo ainda pode produzir alguns dos momentos mais vibrantes da Cidade do Rock.
A confirmação de 2028, portanto, chega menos como celebração e mais como oportunidade de reconstrução. Depois de uma edição castigada pela chuva, marcada por lama, filas, dificuldades nos banheiros, falhas de som, ingressos encalhados e atrações incapazes de gerar o entusiasmo esperado, o Rock in Rio terá dois anos para provar que ainda sabe se reinventar. O festival que durante décadas transformou cada anúncio de line-up em acontecimento agora enfrenta um desafio maior do que simplesmente escolher novos headliners: precisa recuperar a sensação de que estar na Cidade do Rock é participar de algo realmente imperdível. Elton John, Gilberto Gil e a estreia do K-pop salvaram alguns dos melhores capítulos de 2026, mas foram ilhas de brilho em uma edição abaixo do tamanho da própria marca. Em 2028, mais do que voltar, o Rock in Rio precisará mostrar que aprendeu a afinar novamente seu maior espetáculo.