Em sua quarta passagem pelo festival, banda entrega repertório que o público sabe de cor, enquanto vocal pouco potente volta a expor um problema percebido desde 2011
Era praticamente impossível não conhecer as músicas. Mas difícil mesmo, em vários momentos, era conseguir ouvir quem estava cantando. O Maroon 5 encerrou o penúltimo dia do Rock in Rio 2026 neste sábado, 12, com uma coleção de sucessos capaz de transformar o Palco Mundo em um karaokê de dezenas de milhares de pessoas. “Moves Like Jagger”, “She Will Be Loved” e “Sugar” estão entre aquelas canções que dispensam apresentação e atravessaram gerações desde que a banda americana explodiu mundialmente no início dos anos 2000. O problema apareceu justamente no elemento que deveria conduzir essa máquina de hits: a voz de Adam Levine. Afinado e tecnicamente seguro, o vocalista tem um timbre reconhecível, mas pouca potência para enfrentar a dimensão de um espaço como a Cidade do Rock. Para quem estava mais distante do palco, em determinados momentos a sensação era de que Levine desaparecia atrás da banda e, principalmente, do coro da própria plateia.
Não é exatamente uma novidade no relacionamento do Maroon 5 com o Rock in Rio. Esta foi a quarta participação da banda no festival, depois das apresentações de 2011, 2017 duas vezes, e 2024, e a dificuldade de projeção dos vocais de Levine já havia sido percebida em passagens anteriores. O contraste chama atenção porque o cantor não demonstra necessariamente problemas de afinação: a questão é que sua voz naturalmente mais leve precisa disputar espaço com bateria, guitarras, baixo, efeitos, bases e dezenas de milhares de pessoas cantando ao mesmo tempo. Em um ambiente dessa dimensão, cabe à estrutura técnica encontrar o equilíbrio que permita ao vocal ocupar seu devido lugar na mixagem. Depois de tantas apresentações do mesmo artista, porém, permanece a impressão de que a organização do festival ainda não encontrou uma solução satisfatória — seja por ajustes de equipamentos, equalização, distribuição das caixas ou pelas próprias limitações acústicas de um evento realizado a céu aberto. O resultado é curioso: o público conhece praticamente todas as letras, mas acaba ouvindo a própria voz com mais facilidade do que a de Levine.
Hits que falam por si
E talvez seja justamente o tamanho do repertório que impeça o problema de comprometer completamente a apresentação. O Maroon 5 chegou ao palco carregando mais de duas décadas de sucessos radiofônicos e mostrou como poucas bandas de sua geração conseguiram produzir uma sequência tão extensa de músicas imediatamente reconhecíveis. Quando os primeiros acordes surgiam, a plateia rapidamente assumia os vocais e preenchia os espaços deixados pela pouca projeção da voz do cantor. “This Love” remete ao início da trajetória internacional do grupo; “She Will Be Loved” virou uma das baladas mais conhecidas dos anos 2000; “Moves Like Jagger” ajudou a reinventar comercialmente a banda uma década depois; enquanto “Sugar”, “Maps”, “Girls Like You” e “Memories” mantiveram o Maroon 5 presente nas paradas e nas playlists de diferentes gerações. É uma vantagem rara: mesmo quando Adam Levine praticamente se perde na massa sonora, milhares de vozes diante dele conseguem terminar cada verso.
O paradoxo ajuda a resumir a quarta passagem do Maroon 5 pelo Rock in Rio. Musicalmente, a banda possui material de sobra para comandar um festival; acusticamente, a voz de sua principal personagem continua exigindo um cuidado que parece não ter encontrado solução definitiva na Cidade do Rock. Quinze anos separaram a estreia do grupo no festival, em 2011, da apresentação deste sábado, e a recorrência dessa percepção torna difícil tratá-la apenas como uma surpresa daquela noite. Se a característica vocal de Levine é conhecida — afinada, aguda, marcante, mas sem a potência de outros frontmen habituados a grandes arenas — seria razoável esperar que uma produção que recebe o Maroon 5 pela quarta vez estivesse preparada para valorizá-la. No fim, quem salvou boa parte do espetáculo foi justamente aquilo que ninguém consegue regular em uma mesa de som: a memória afetiva do público. Adam Levine podia até ser difícil de ouvir, mas cada vez que sua voz sumia, dezenas de milhares de pessoas já sabiam exatamente o que cantar.