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Política

De olho nas urnas, Lula se distancia de Moraes e diz que ministro deve ‘pagar’ se for culpado

10/09/2026 21:05 Por Leo Pinheiro

Em meio ao desgaste do STF e a pesquisas que apontam impacto da crise na corrida presidencial, petista endurece discurso sobre ministro e tenta separar governo das turbulências da Corte

A menos de um mês das eleições, Luiz Inácio Lula da Silva tenta deixar publicamente mais clara a distância entre o Palácio do Planalto e Alexandre de Moraes. Depois de anos em que o ministro do Supremo Tribunal Federal foi frequentemente associado ao campo institucional que enfrentou os ataques de Jair Bolsonaro às urnas e ao próprio STF, o Presidente adotou nesta quinta-feira, 10, um discurso bem menos protetor: afirmou que Moraes terá de “pagar” caso seja considerado culpado pelas suspeitas que agora o colocam no centro da crise da Corte. “Se o Alexandre de Moraes é culpado, ele tem que pagar. Se o Mendonça é culpado, ele tem que pagar. Se o Fachin é culpado, tem que pagar”, declarou Lula em entrevista ao SBT. A frase ganha dimensão eleitoral porque ocorre justamente quando pesquisas e avaliações internas do PT acendem o alerta sobre o custo político de uma identificação excessiva entre Lula e Moraes. Levantamento AtlasIntel/Bloomberg indica que a maneira como o Supremo responder à crise envolvendo o ministro pode afetar diretamente a disputa presidencial. Nos bastidores petistas, também existe a avaliação de que o governo se abraçou “demasiado” a Moraes nos últimos anos e de que esse vínculo pode se transformar em passivo na reta final da campanha. O movimento de Lula, portanto, sinaliza uma tentativa de estabelecer uma fronteira: a crise é do Supremo, enquanto o Presidente busca preservar sua candidatura das consequências políticas do caso.

A mudança de tom não significa um rompimento declarado com Moraes, mas representa uma diferença importante em relação à proximidade institucional exibida anteriormente. Lula e setores do PT estiveram ao lado do ministro principalmente durante as investigações e julgamentos relacionados aos atos de 8 de Janeiro e às investidas contra o sistema eleitoral. Agora, com Moraes passando da posição de condutor de investigações para a de autoridade sob questionamento, o Presidente procura colocar a defesa das instituições acima da defesa de personagens específicos. Na entrevista, Lula fez questão de elogiar Edson Fachin, afirmando que o Presidente do Supremo começou a colocar “ordem na casa”, e apoiou medidas tomadas para tentar controlar a crise interna da Corte. Fachin retirou Moraes do comando do inquérito das fake news, suspendeu decisões conflitantes envolvendo o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e levou ao plenário a discussão sobre uma eventual investigação contra Moraes. Ao mesmo tempo, Lula preservou Andrei, a quem classificou como policial experiente e de sua “total confiança”, mas acrescentou que até mesmo o chefe da PF deverá responder caso tenha cometido irregularidades. A mensagem política construída pelo Presidente é a de que sua lealdade estaria dirigida às instituições, e não necessariamente às autoridades que as ocupam — uma distinção especialmente conveniente quando o desgaste do Supremo começa a atravessar a fronteira do Judiciário e entrar no cálculo eleitoral.

Distância calculada

O reposicionamento ocorre quando a campanha petista demonstra preocupação crescente com a reta final da eleição. Integrantes do partido admitem “medo real” diante da imprevisibilidade das próximas semanas e acompanham pesquisas que mostram uma disputa apertada entre Lula e Flávio Bolsonaro. Nesse ambiente, a crise envolvendo Moraes acrescentou uma variável que o Planalto dificilmente pode ignorar. O ministro está no centro das turbulências provocadas pela revelação de mensagens atribuídas ao banqueiro Daniel Vorcaro e pelas disputas internas desencadeadas no Supremo a partir das investigações do Banco Master. Fachin decidiu retirar Moraes da condução do inquérito das fake news e pautou para o dia 15 de setembro a análise, pelo plenário, do pedido para autorizar uma investigação contra o ministro. A sucessão de acontecimentos muda também a conveniência política de Lula manter uma identificação pública estreita com Moraes. A pesquisa AtlasIntel/Bloomberg sugere que uma eventual percepção de que o STF estaria protegendo o ministro teria potencial para prejudicar eleitoralmente o Presidente. Embora uma pesquisa não permita afirmar qual será o resultado das urnas, ela oferece à campanha um sinal importante sobre o risco de transformar a defesa institucional do Supremo em uma defesa pessoal de Moraes. É nesse contexto que ganha peso a frase “se for culpado, tem que pagar”: além de defender formalmente a responsabilização de qualquer autoridade, Lula procura impedir que seus adversários transformem as suspeitas envolvendo o ministro em uma extensão de sua própria candidatura.

Embora tenha criticado os chamados “vazamentos seletivos”, o Pesidente passou a defender transparência total nas investigações, e também afirmou que os fatos precisam ser esclarecidos “doa a quem doer”. A escolha dessas palavras ajuda Lula a construir uma posição que lhe permita atravessar diferentes desfechos da crise: se Moraes for inocentado, poderá defender que as instituições funcionaram; se forem encontradas irregularidades, poderá sustentar que nunca defendeu qualquer espécie de blindagem ao ministro. A estratégia se torna ainda mais relevante porque a oposição tenta associar Lula ao STF e explorar eleitoralmente o desgaste da Corte, enquanto setores do próprio PT reconhecem que a aproximação construída nos últimos anos pode ter ido longe demais. A poucas semanas do primeiro turno, o cálculo político parece ser o de reduzir essa vulnerabilidade antes que ela se consolide no eleitorado. Lula não rompe com Moraes, mas deixa de se colocar politicamente ao seu lado de forma automática. Ao dizer em público que o ministro deve pagar caso seja culpado, o Pesidente traça uma linha que separa sua candidatura do destino pessoal de Moraes e sinaliza que, diante da escolha entre preservar uma antiga proximidade institucional e proteger sua posição na corrida de outubro, as urnas passaram a falar mais alto.

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