Notícia Todo Dia NTD
Mundo

Da vaga à guerra: Rússia atrai estrangeiros com empregos falsos e os envia à Ucrânia

10/09/2026 16:52 Por Leo Pinheiro

Edifício destruídos pela guerra, em Kiev, Ucrânia

Foto: Jade Koroliuk/Unsplash

Anistia Internacional denuncia esquema de recrutamento que promete trabalho, bons salários e até cidadania, mas termina com estrangeiros enviados para a linha de frente

Uma oferta de emprego, a promessa de um salário atraente e a perspectiva de começar uma vida melhor no exterior. Para estrangeiros recrutados para trabalhar na Rússia, aquilo que parecia uma oportunidade profissional acabou, em alguns casos, transformado em uma passagem para a guerra. A Anistia Internacional acusa as Forças Armadas russas de utilizar fraude, coerção e exploração para atrair cidadãos de outros países e enviá-los para combater na Ucrânia, prática que, segundo a organização, pode configurar tráfico de pessoas. O relatório divulgado nesta quinta-feira, 10, reúne depoimentos de pessoas originárias de países como Brasil, Colômbia, Cuba, Egito, Serra Leoa, Sri Lanka, Somália e África do Sul. Segundo a entidade, os recrutadores se aproveitam principalmente da vulnerabilidade econômica de cidadãos de países de baixa renda e de migrantes e refugiados que já se encontram em território russo. Em diferentes casos, os estrangeiros acreditavam que exerceriam funções civis em áreas como tecnologia, construção, segurança, logística e transporte, mas, depois de chegarem ao país e assinarem documentos que muitas vezes não conseguiam compreender, descobriram que haviam sido incorporados às forças militares. A partir daí, segundo os depoimentos, passaportes e celulares chegaram a ser confiscados, a liberdade de circulação foi restringida e os novos recrutas receberam treinamento militar reduzido antes de serem enviados para áreas de combate.

A investigação foi construída a partir de entrevistas realizadas entre 2024 e 2026 em dois campos ucranianos de prisioneiros de guerra, além de conversas com estrangeiros que ainda servem nas forças russas, familiares, advogados, jornalistas e defensores dos direitos humanos. Um dos casos relatados é o de um brasileiro identificado como Pedro, profissional de tecnologia da informação que acreditava ter assinado contrato para um emprego bem remunerado na Rússia. Segundo seu depoimento, ao tentar abandonar o serviço depois de descobrir a verdadeira natureza da atividade, teria sido ameaçado de prisão ou morte por um comandante. Outros estrangeiros contaram histórias semelhantes. Dois cidadãos do Sri Lanka afirmaram que imaginavam que trabalhariam como cozinheiros, mas foram enviados para a linha de frente e acabaram capturados pelas forças ucranianas poucas semanas depois. Um sul-africano, de acordo com o relato de sua mulher, candidatou-se pela internet a uma vaga de motorista na Polônia e recebeu instruções para viajar a Moscou, onde supostamente buscaria um caminhão. Ao desembarcar, porém, teria seus pertences retirados e seria informado de que não seguiria para a Polônia: passaria a integrar o Exército russo. Em outros casos, os anúncios ofereciam salários elevados, bônus de contratação e caminhos facilitados para conseguir a cidadania russa, benefícios que, de acordo com os entrevistados, muitas vezes não foram cumpridos integralmente.

Do contrato ao front

O levantamento aponta ainda que a estratégia não se restringiria ao recrutamento de pessoas que vivem fora da Rússia. Migrantes e refugiados em situação vulnerável dentro do próprio país também estariam sendo pressionados a integrar as Forças Armadas, especialmente aqueles com problemas relacionados à documentação migratória ou envolvidos em processos criminais. A Anistia relata casos de estrangeiros que haviam ultrapassado o prazo de seus vistos de trabalho e receberam o alistamento como alternativa à detenção ou deportação. Cidadãos acusados de crimes também teriam sido apresentados à possibilidade de assinar contratos militares em vez de cumprir integralmente penas de prisão. Depois da assinatura, os relatos descrevem restrições severas à liberdade de movimento, dificuldades para abandonar instalações militares e transporte realizado de maneira controlada. A falta de experiência prévia em combate tampouco impediria o envio para a guerra: segundo os testemunhos reunidos pela organização, vários estrangeiros chegaram às zonas de confronto depois de aproximadamente duas semanas de treinamento, enfrentando ainda equipamentos insuficientes e barreiras de comunicação com comandantes russos. Para a secretária-geral da Anistia Internacional, Agnès Callamard, o padrão identificado demonstra a exploração de pessoas economicamente vulneráveis para reforçar as fileiras militares russas. A entidade afirma que o conjunto de fraude, coerção, retenção de documentos e restrição de liberdade encontrado em diversos casos se enquadra nos critérios de tráfico de pessoas previstos pelo Protocolo de Palermo das Nações Unidas.

A Anistia Internacional cobra que a Rússia interrompa imediatamente práticas abusivas no recrutamento de estrangeiros, investigue as denúncias e responsabilize eventuais envolvidos em violações de direitos humanos. A organização também recomenda que governos de países cujos cidadãos possam ser alvo desses esquemas publiquem alertas claros sobre falsas propostas de emprego relacionadas à Rússia ou a terceiros países e ofereçam proteção às vítimas. O problema ultrapassa, assim, as fronteiras do campo de batalha: redes de recrutamento utilizariam anúncios de trabalho e intermediários locais para alcançar comunidades economicamente vulneráveis a milhares de quilômetros da Ucrânia. A própria investigação da entidade enfrenta limitações, já que, desde maio de 2025, as autoridades russas proibiram formalmente a atuação da Anistia Internacional no país, impedindo que a organização investigue livremente denúncias em território russo. Ainda assim, os testemunhos reunidos desenham um caminho recorrente: a promessa começa com emprego, dinheiro e uma oportunidade de futuro, mas pode terminar com uniforme, treinamento às pressas e uma arma nas mãos diante de uma guerra para a qual muitos afirmam nunca ter escolhido ir.

.