Ao declarar apoio à reeleição de Lula em nome da democracia, a entidade corre o risco de esquecer justamente a missão que deveria preservar: desconfiar de quem manda
Existe uma cena particularmente curiosa na política brasileira: uma entidade criada para defender a liberdade de imprensa descobrir que, em ano eleitoral, a melhor maneira de defender a democracia é escolher quem deve ficar no Palácio do Planalto. Foi exatamente esse o caminho adotado pela Associação Brasileira de Imprensa (ABI), que declarou apoio à reeleição de Lula e justificou a decisão como coerente com sua história e com os princípios que orientam sua atuação desde 1908. A entidade afirma rejeitar “discursos e práticas de candidatos a Presidente da República que colocam em risco a democracia e os direitos do povo brasileiro”, além de acusar adversários, sem citá-los nominalmente, de conivência com o golpismo, submissão do país, e entrega de riquezas nacionais a uma potência estrangeira. É uma declaração política lícita. O que não deixa de ser, porém, é uma declaração política. E esse pequeno detalhe talvez seja justamente o grande problema.
Millôr Fernandes tinha uma definição incômoda, e, por isso mesmo, bastante útil, sobre a imprensa: “Jornalismo é oposição. O resto é armazém de secos e molhados”. Não se trata de defender uma imprensa partidária, militante ou eternamente contra o governo. É quase o contrário. “Oposição”, nesse caso, é uma atitude diante do poder: desconfiança permanente, independência, investigação, e disposição para fazer perguntas desagradáveis, inclusive quando as respostas vêm de quem está do lado considerado “certo”.
É aí que a posição da ABI merece ser questionada. Uma entidade de imprensa pode, evidentemente, ter opinião. Pode denunciar ameaças à democracia; pode condenar tentativas de ruptura institucional; pode defender direitos fundamentais. Tudo isso faz parte da liberdade que ela própria se propõe a proteger. Mas existe uma diferença considerável entre defender a democracia e recomendar eleitoralmente quem deve governá-la.
Porque, se o argumento é que determinados candidatos representam uma ameaça à democracia, surge uma pergunta bastante simples: quem fiscalizará o candidato escolhido como solução democrática?
A imprensa? Deveria. Mas como manter a necessária distância crítica depois de anunciar publicamente que deseja a permanência daquele governo? Como cobrar com a mesma contundência decisões controversas, eventuais escândalos, gastos públicos, nomeações políticas, abusos de autoridade ou erros de gestão quando a instituição já declarou sua preferência eleitoral?
Não é uma questão de Lula ser Lula. Amanhã poderia ser qualquer outro Presidente. O princípio deveria sobreviver ao personagem. Uma imprensa independente não pode ser independente apenas quando o poder está nas mãos de seus supostos adversários.
A democracia não precisa de imprensa oficial... Nem informalmente
Há uma tentação perigosa no debate brasileiro: transformar a defesa da democracia em uma espécie de autorização para selecionar previamente quem merece confiança. De um lado, os “democratas”; de outro, os “ameaçadores”. De um lado, os que supostamente podem receber a confiança institucional; do outro, os que devem ser tratados como riscos à República.
O problema dessa lógica é que democracia não funciona por procuração. Nenhum candidato recebe certificado permanente de virtude democrática. E nenhum governo deveria ganhar imunidade moral por ter derrotado um adversário considerado menos alinhado com a imprensa.
A função dos jornalistas é justamente impedir que isso aconteça.
Se o governo erra, denuncia-se; se acerta, registra-se; se mente, desmente-se; se investiga-se uma autoridade, acompanha-se; se a investigação atinge um aliado, acompanha-se da mesma maneira. Se o poder tenta avançar sobre instituições, critica-se; se a oposição faz o mesmo, critica-se também. O compromisso não é com o Presidente. É com a pergunta incômoda.
Talvez seja essa a parte de Millôr que tenha ficado convenientemente esquecida. Jornalismo não é escolher o governante mais simpático à redação, à diretoria ou à entidade; jornalismo é fazer com que qualquer governante saiba que haverá alguém olhando por cima do ombro.
Ao apoiar a reeleição de Lula, a ABI não deixa de ser livre para opinar. Mas passa a carregar uma contradição que não pode ser escondida atrás de discursos solenes sobre democracia: uma entidade de imprensa decidiu entrar na disputa para escolher o poder e, depois, pretende continuar se apresentando como fiscal do poder escolhido.
Pode funcionar. Mas é difícil não lembrar da velha provocação de Millôr.
Porque, quando o fiscal começa a torcer pelo fiscalizado, talvez o problema não seja apenas quem está dentro do armazém; mas, sim, descobrir quem ficou responsável por vigiar o estoque.
Leo Pinheiro é diretor de Cinema e Jornalista, com passagem por revistas como Veja, Isto É, Exame, e Viver Brasil, onde atuou como correspondente internacional, em Nova Iorque.