Celebrado internacionalmente em 8 de setembro, o Dia Mundial da Alfabetização foi instituído pela UNESCO com o propósito central de avaliar os progressos globais no combate ao analfabetismo e reafirmar o acesso à leitura e à escrita como direitos fundamentais. No Brasil, os indicadores educacionais mais recentes revelam um cenário de dualidade, marcado por conquistas graduais, mas ainda desafiado por profundas assimetrias regionais e sociais. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que a taxa de analfabetismo no país recuou para abaixo de 5%, registrando cerca de 8,4 milhões de pessoas com 15 anos ou mais que ainda não sabem ler ou escrever. Apesar da expressiva redução histórica — impulsionada pelo maior acesso das novas gerações à escola —, o país ainda concentra bolsões de exclusão, sendo o Nordeste a região mais afetada e a população idosa e negra a mais penalizada por esse déficit estrutural.
Nesse contexto, os retrocessos e a lentidão na erradicação definitiva do analfabetismo estão umbilicalmente ligados aos impactos socioemocionais na vida dos cidadãos, transcendendo a mera instrução técnica. O analfabetismo e o analfabetismo funcional geram barreiras diárias que afetam diretamente a saúde mental de crianças, adultos e idosos, incutindo sentimentos crônicos de inadequação, ansiedade, vergonha e isolamento social. Nas crianças, a dificuldade de consolidação da leitura nos anos iniciais pode desencadear transtornos de aprendizagem e baixa autoestima duradoura. Para os adultos e a longevidade, a exclusão letrada limita drasticamente a autonomia, o acesso a serviços básicos de saúde e o exercício pleno da cidadania, acelerando quadros de vulnerabilidade psicológica e cognitiva na velhice. Promover a alfabetização humanizada significa, portanto, resgatar a dignidade humana e proteger a saúde mental em todas as fases da existência.
O exemplo que já existe no Brasil é a validação desse ecossistema de sucesso é o município de Sobral e, posteriormente, o estado do Ceará, que desenharam a maior vitrine de alfabetização em contexto de vulnerabilidade socioeconômica do planeta. O modelo cearense provou que a combinação de três fatores é capaz de blindar a educação contra as adversidades econômicas, o alinhamento pedagógico estruturado que são materiais didáticos claros que orientam a prática docente diária focada em habilidades preditivas da leitura, avaliação formativa e externa que é o monitoramento contínuo da fluência leitora de cada aluno, gerando dados em tempo real para correções de rota imediatas e a gestão meritocrática e despolitizada com a seleção de lideranças escolares por critérios técnicos e vinculação de incentivos fiscais (como a redistribuição do ICMS) aos resultados de alfabetização dos municípios.
Compreender as propostas e o histórico de atuação dos candidatos a cargos públicos é uma exigência cívica indispensável nos períodos eleitorais, pois a educação de qualidade depende essencialmente de políticas de Estado perenes e bem financiadas. O eleitor consciente deve analisar criticamente o que cada postulante propõe para a valorização docente, a infraestrutura das escolas públicas, os programas de alfabetização de jovens e adultos (EJA) e a integração entre creches e o ensino fundamental. Sem o escrutínio rigoroso dessas diretrizes nas urnas, corre-se o risco de perpetuar gestões ineficientes que negligenciam a base educacional. Votar com foco na educação é garantir que o orçamento público seja direcionado para erradicar as desigualdades e assegurar que nenhum brasileiro seja deixado à margem da sociedade letrada.
Como possíveis soluções para acelerar esse processo, o Brasil, também pode mirar em experiências internacionais bem-sucedidas que uniram metodologias científicas e amparo socioemocional. O exemplo mais contundente de virada estrutural ocorreu na Inglaterra. A partir de 2012, o país oficializou o Phonics Screening Check (um teste de checagem fônica) e estabeleceu a instrução fônica sistemática como pilar obrigatório do primeiro ano escolar. Ao decodificar a relação explícita entre grafemas (letras) e fonemas (sons), o sistema britânico mitigou a adivinhação de palavras e impulsionou o país para as primeiras posições no PIRLS (Progress in International Reading Literacy Study). Esse fenômeno não é isolado. Cingapura e Brunei Darussalam mostram que o letramento de alto desempenho exige o desenvolvimento intencional da consciência fonológica e do vocabulário rico desde a primeira infância.
O modelo adotado pelo Vietnã, que implementou reformas focadas na equidade e na formação intensiva de professores em comunidades vulneráveis, alcançando patamares de excelência educacional comparáveis aos de países desenvolvidos. Outra referência relevante é o programa cubano "Yo, sí puedo", amplamente replicado em nações da América Latina e da África, que utiliza estratégias lúdicas associando letras a números para alfabetizar adultos rapidamente, resgatando a autoestima dos educandos. Tais iniciativas demonstram que, com vontade política, métodos baseados em evidências e respeito à individualidade psíquica dos alunos, é perfeitamente possível transformar a realidade educacional e promover uma longevidade cognitiva saudável e ativa.
O sucesso dessas nações prova que o cérebro humano não aprende a ler de forma natural, como aprende a falar; a leitura é uma tecnologia cultural que exige ensino explícito, sistemático e estruturado
Como você percebe a atuação das lideranças políticas da sua cidade na priorização da alfabetização e no apoio às escolas públicas locais?