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Rock in Rio vira “dança dos ingressos” e governo recua diante da pressão por transparência

08/09/2026 21:13 Por Redação NTD

A iniciativa do governador Ricardo Couto premia os alunos nota 10 da rede pública estadual de ensino

Foto: Ultima Hora

Após receber 3.110 cortesias do festival, governo do Rio anuncia parte dos ingressos para alunos nota 10, mas segue sem esclarecer quem recebeu as demais entradas

No Rock in Rio, onde o público costuma disputar espaço diante dos palcos, outra disputa ganhou os bastidores: a corrida pelos ingressos distribuídos ao poder público. O governo do Estado do Rio de Janeiro recebeu 3.110 cortesias da organização do festival por meio do Termo de Cooperação Técnica nº 025/2026, sendo 2.200 ingressos de Gramado e 910 credenciais VIP. O episódio ganhou repercussão depois que vieram à tona informações de que a Casa Civil recebia cerca de 130 pedidos diários de convites, incluindo o de um desembargador que teria solicitado cinco entradas para um único dia. Diante da pressão da imprensa e de uma ação judicial, o governo interino começou a recuar e anunciou que parte das cortesias será destinada a estudantes da rede estadual que se destacaram como alunos nota 10. A mudança, porém, não encerra a principal dúvida do caso: quem recebeu — ou receberá — os outros milhares de ingressos?

O acordo firmado entre a Secretaria de Estado da Casa Civil e a Rock World S.A. foi publicado no Diário Oficial em 3 de setembro e prevê 2.200 ingressos de Gramado distribuídos ao longo dos sete dias do festival, além de 910 ingressos VIP, numa cota de 130 credenciais por dia. Embora o gabinete do governador interino Ricardo Couto sustente que não houve repasse financeiro direto aos cofres públicos, o volume de cortesias transformou a distribuição das entradas em uma questão de interesse público. O próprio acordo estabelece que os ingressos não podem ser comercializados e que o órgão público deve observar a Lei Anticorrupção na distribuição. A situação ganhou ainda mais repercussão quando a possibilidade de divulgação dos nomes dos beneficiários no Diário Oficial teria levado interessados a desistirem dos pedidos. Para os críticos da prática, o episódio expõe justamente o problema que a publicidade deveria solucionar: quando um benefício recebido pelo Estado é distribuído sem critérios previamente conhecidos, abre-se espaço para que uma relação institucional se transforme em privilégio pessoal.

Do favor ao mérito

A reação do governo interino representa uma mudança em relação à lógica de distribuição de cortesias que vinha sendo questionada. Parte dos ingressos será destinada a estudantes da rede estadual com desempenho destacado, que poderão ir ao festival acompanhados de pais ou responsáveis, dentro de uma iniciativa apresentada como reconhecimento ao mérito escolar. A medida é positiva do ponto de vista do critério objetivo, mas também deixa uma pergunta inevitável: se o mesmo instrumento jurídico utilizado para receber as cortesias permite estabelecer uma finalidade pública para os ingressos, por que esse critério não foi adotado desde o início? A ação civil pública apresentada pelo Instituto José do Patrocínio e pelo Instituto de Advocacia Racial e Ambiental (IARA) levou a discussão ao Judiciário e questiona, entre outros pontos, a forma de distribuição das entradas e a necessidade de critérios de igualdade, incluindo a adoção de cotas raciais. O processo foi distribuído à 10ª Vara da Fazenda Pública da Comarca da Capital e tem como réus a Rock World S.A., o Estado do Rio de Janeiro e o Município do Rio de Janeiro.

Mais do que decidir quem pode assistir ao Rock in Rio, o episódio colocou em debate como o poder público deve administrar benefícios que recebe em razão de sua posição institucional. A discussão envolve transparência, impessoalidade e igualdade, mas também a própria imagem do Estado diante da sociedade. De um lado, estão os alunos que podem transformar uma boa performance escolar em acesso a um grande evento cultural; de outro, permanece a cobrança para que o governo apresente, de maneira clara, a destinação dos 3.110 ingressos recebidos. O caso também ocorre em meio a questionamentos judiciais envolvendo a organização do festival, incluindo uma decisão da Justiça do Trabalho relacionada às condições de trabalho na edição de 2024. No fim, a questão não é apenas quem entra na Cidade do Rock, mas qual critério determina quem fica de fora. Se a administração pública pretende transformar as cortesias em instrumento de reconhecimento e interesse público, terá de fazer isso às claras. Afinal, quando o ingresso é recebido pelo Estado, a pergunta sobre o destino dele deixa de ser curiosidade de bastidor e passa a ser cobrança de cidadania.

Com reportagem de Ralph Lichotti, Ultima Hora