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Rock in Rio: Lucro privado, faxina pública

08/09/2026 15:01 Por Redação NTD

Enquanto a Comlurb mobiliza 142 garis por dia, a Justiça cobra medidas após denúncias de trabalho análogo à escravidão

Foto: Divulgação/Comlurb

Comlurb mobiliza 142 garis por dia para atuar no festival, enquanto organização privada cobra ingressos de até R$ 1.950 e o Estado distribui 3.110 cortesias

Na Cidade do Rock, a conta parece ter dois palcos: no principal, os organizadores faturam com ingressos que chegam a R$ 1.950; nos bastidores, quem entra em cena é uma empresa pública. A Comlurb mobiliza 142 garis diariamente, durante os sete dias do Rock in Rio, para cuidar da limpeza do festival, dos acessos, banheiros e áreas do entorno. O trabalho de uma companhia pública aparece, assim, dentro da estrutura de um evento privado, organizado por uma empresa que explora comercialmente a venda de ingressos, espaços exclusivos, patrocínios, e outras fontes de receita. O contraste levanta uma questão incômoda: até que ponto recursos e trabalhadores de uma empresa pública devem ser mobilizados para atender uma festa cuja exploração econômica está nas mãos de organizadores privados?

O cenário fica ainda mais curioso quando se observa o tratamento dispensado ao evento pelo poder público. Além da Comlurb, o Estado articula a atuação de órgãos como Polícia Militar, Polícia Civil, Corpo de Bombeiros, Detran e Cedae. Ao mesmo tempo, um Termo de Cooperação Técnica prevê 3.110 ingressos destinados ao governo do Estado, sendo 910 deles VIPs. O documento estabelece uma série de responsabilidades públicas relacionadas ao funcionamento do festival, mas não informa quem são os beneficiários das cortesias. Enquanto o público precisa desembolsar até R$ 870 pelo ingresso de gramado e até R$ 1.950 pela Comfort Zone, a estrutura estatal participa da engrenagem que permite o funcionamento do evento.

Lucro na privada

A discussão ganha outro peso diante do histórico trabalhista envolvendo o festival. Em 2024, uma força-tarefa do Ministério Público do Trabalho no Rio de Janeiro resgatou 14 trabalhadores em condições consideradas análogas à escravidão durante o Rock in Rio. Foram relatadas jornadas de até 21 horas, alojamentos improvisados e condições inadequadas de alimentação e higiene. Em março de 2026, a Justiça do Trabalho determinou que a Rock World S/A adotasse medidas para assegurar condições adequadas aos trabalhadores terceirizados, incluindo controle de jornada, registro profissional, alimentação, água potável, alojamento e equipamentos de proteção.

A decisão estabeleceu multa diária de R$ 50 mil em caso de descumprimento das obrigações determinadas pela Justiça. No centro da controvérsia atual, porém, está uma relação que vai além das questões trabalhistas: de um lado, uma empresa privada organiza um dos maiores eventos de entretenimento do país e obtém as receitas decorrentes de sua exploração comercial; de outro, uma companhia pública como a Comlurb coloca trabalhadores e estrutura a serviço da limpeza do espaço. Ainda que o acordo não estabeleça, segundo as informações divulgadas, um repasse financeiro direto do governo à organização, a utilização de uma empresa pública em um evento privado alimenta o debate sobre quem paga pela operação e quem fica com o lucro. No fim, a pergunta permanece: se o Rock in Rio é privado na hora de faturar, por que parte da conta da operação parece ter endereço público?

Com reportagem de Ralph Lichotti, Ultima Hora