Londres diz que compromisso com arquipélago é “absoluto e inabalável” após presidente argentino anunciar sanções contra empresas e reforçar reivindicação de soberania
Mais de quatro décadas depois de Argentina e Reino Unido se enfrentarem pelas Malvinas, o arquipélago voltou a esquentar as relações entre Buenos Aires e Londres — desta vez com petróleo, sanções e geopolítica no centro da disputa. O governo britânico reagiu nesta sexta-feira, 4, ao endurecimento do discurso do presidente argentino, Javier Milei, e reafirmou que as ilhas são britânicas e continuarão contando com o apoio de Londres. A resposta veio depois de Milei anunciar medidas contra empresas envolvidas na exploração de recursos naturais na região sem autorização argentina e declarar que existem “ventos de mudança” no cenário internacional favoráveis à histórica reivindicação de seu país. O ministro da Defesa britânico, Wes Streeting, respondeu que o compromisso do Reino Unido com as ilhas é “absoluto e inabalável” e atribuiu as declarações do presidente à política interna argentina.
O novo capítulo da disputa ganhou força com o avanço do projeto petrolífero Sea Lion, liderado pela britânica Rockhopper e pela israelense Navitas, que prevê a exploração de reservas localizadas nas proximidades das Malvinas. Milei anunciou que vai endurecer as sanções e acelerar punições contra companhias envolvidas direta ou indiretamente em operações no arquipélago sem autorização de Buenos Aires. O governo argentino também pretende enviar ao Congresso uma Lei de Defesa da Soberania Nacional, criar um Conselho de Segurança Nacional e ampliar os recursos destinados à construção de uma base naval integrada em Ushuaia, na Terra do Fogo. Segundo a Casa Rosada, o objetivo é fortalecer a presença estratégica argentina no Atlântico Sul e impedir a exploração de recursos que o país considera pertencentes ao seu território.
Petróleo no fogo
A reação britânica foi direta. Streeting sustentou que as ilhas permanecem sob soberania britânica porque essa é a vontade de seus habitantes, posição respaldada por Londres no referendo realizado em 2013, quando a população local votou de forma esmagadora pela manutenção do status de território ultramarino britânico. Milei, por outro lado, rejeita esse argumento e afirmou que os moradores constituem uma população implantada em um território que considera ocupado, razão pela qual Buenos Aires não reconhece a consulta como fundamento para definir a soberania. O presidente argentino também tenta aproveitar uma mudança no tabuleiro internacional: declarações recentes do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre uma possível revisão da tradicional posição americana em relação à disputa foram recebidas por Milei como sinal de que o cenário pode estar se tornando mais favorável à Argentina.
A disputa pelas ilhas atravessa quase dois séculos e provocou seu capítulo mais sangrento em 1982, quando Argentina e Reino Unido travaram uma guerra de 74 dias que terminou com a rendição argentina e deixou 649 militares argentinos e 255 britânicos mortos. Agora, sem falar em confronto armado e reiterando a reivindicação por outros meios, Milei eleva o tom com instrumentos diplomáticos, econômicos e jurídicos e coloca a exploração de petróleo no coração da disputa. A Organização das Nações Unidas reconhece desde 1965 a existência de uma controvérsia de soberania e recomenda uma solução negociada entre os dois países. Londres, no entanto, deixa claro que não pretende ceder: diante da nova ofensiva de Buenos Aires, a resposta britânica é que a posição sobre as Malvinas permanece inalterada. Mais de 40 anos depois da guerra, as armas estão caladas, mas a batalha pela bandeira — agora alimentada também pelo petróleo — voltou a ganhar temperatura no Atlântico Sul.