Há alguma coisa profundamente errada em uma sociedade na qual uma criança de oito anos precisa deixar um estádio escoltada pela polícia porque adultos não aceitaram a forma como ela escolheu viver sua paixão pelo futebol. Foi o que aconteceu depois do clássico entre Corinthians e Santos, no Itaquerão, no último domingo. Corintiano, o menino levou uma faixa dizendo ser muito torcedor do clube, mas também fã de Neymar. O atacante santista viu o pedido e entregou ao garoto a camisa usada na partida. O que deveria ter terminado com o choro emocionado de uma criança diante de um ídolo ganhou contornos assustadores.
Parte dos torcedores corintianos reagiu com hostilidade. Vieram xingamentos, cobranças, e tentativas de agressão, obrigando policiais a escoltar o menino e seus pais para que eles pudessem sair do estádio em segurança. É difícil encontrar qualquer justificativa razoável para uma cena como essa. Estamos falando de adultos direcionando sua fúria contra uma criança de oito anos porque ela teve a ousadia, aparentemente "imperdoável" para alguns, de torcer pelo Corinthians e admirar Neymar, jogador do Santos.
O episódio ultrapassa muito a discussão sobre rivalidade esportiva. Quando um grupo de adultos se sente autorizado a constranger, intimidar ou cogitar agredir uma criança em nome de uma camisa de futebol, é preciso reconhecer que existe algo doente na maneira como estamos convivendo. É uma espécie de linchamento que pode começar moralmente, com insultos, e humilhações coletivas; e perigosamente caminhar para a violência física. A multidão transforma um menino em inimigo porque ele não seguiu um código de comportamento que adultos decidiram impor.
Crianças não deveriam precisar aprender tão cedo que demonstrar admiração pode ser perigoso. Muito menos deveriam ser obrigadas a escolher entre amar seu clube e admirar um jogador adversário. Futebol sempre foi feito também de ídolos capazes de atravessar fronteiras. Pelé foi admirado por torcedores que não eram santistas. Zico conquistou fãs que jamais vestiram a camisa do Flamengo. Romário, Ronaldo, Ronaldinho e tantos outros encantaram pessoas muito além dos clubes que defenderam. Por que Neymar deveria ser diferente para um menino de oito anos?
A resposta do próprio jogador foi simples e muito mais madura do que a atitude dos adultos envolvidos. Neymar lembrou que o garoto era corintiano, mas seu fã, e que uma criança pode admirar um atleta independentemente da rivalidade entre os clubes. O Corinthians também repudiou a agressividade e ressaltou algo que nem deveria precisar ser explicado: paixão, rivalidade e emoção jamais podem estar acima da segurança e do respeito, especialmente quando se trata de uma criança.
Mas talvez seja justamente o fato de precisarmos dizer o óbvio que torne o episódio tão preocupante. A intolerância parece ter contaminado diferentes espaços da vida brasileira. Divergir deixou, para algumas pessoas, de significar apenas pensar ou sentir diferente. O outro precisa ser enquadrado, humilhado, silenciado ou punido. Até uma criança pode se transformar em alvo quando contraria as regras imaginárias de determinado grupo.
O futebol não criou esse comportamento, mas funciona como um espelho poderoso. A arquibancada pode revelar solidariedade, pertencimento e alegria coletiva, mas também pode expor o pior de uma multidão quando indivíduos abandonam seus próprios limites porque se sentem protegidos pelo grupo. O adulto que provavelmente jamais ameaçaria sozinho uma criança passa a participar de xingamentos quando centenas de pessoas ao redor fazem o mesmo. E é justamente aí que mora o perigo.
Não se trata de acabar com a rivalidade. Corinthians e Santos podem e devem continuar protagonizando clássicos intensos, com provocações, cantos, e paixão. Rivalidade faz parte do futebol. Violência contra uma criança, não! Existe uma distância gigantesca entre brincar com o adversário e transformar um menino de oito anos em alvo de uma turba.
Talvez a imagem mais importante daquele domingo não seja Neymar entregando sua camisa, mas uma criança precisando de policiais para sair de um estádio porque recebeu um presente de seu ídolo. É uma cena que deveria constranger qualquer adulto que ame futebol. É uma cena que deveria constranger qualquer ser humano.
Quando uma sociedade chega ao ponto de naturalizar que pessoas crescidas possam ameaçar física ou moralmente uma criança por causa de uma camisa, não estamos mais discutindo Corinthians, Santos ou Neymar. Estamos discutindo que tipo de adultos estamos nos tornando, e, principalmente, que sociedade estamos ensinando nossas crianças a construir.
Leo Pinheiro é diretor de Cinema e Jornalista, com passagem por revistas como Veja, Isto É, Exame, e Viver Brasil, onde atuou como correspondente internacional, em Nova Iorque.