Pioneiro entre os âncoras da televisão brasileira e primeiro apresentador do Bom Dia Brasil, jornalista será velado nesta terça-feira em Brasília, cidade onde construiu parte importante de sua trajetória
Desta vez, Carlos Monforte não estará diante das câmeras para contar a notícia. Depois de quase quatro décadas ajudando milhões de brasileiros a começar e terminar o dia informados, um dos rostos mais conhecidos do telejornalismo nacional será o personagem da despedida nesta terça-feira, 1º de setembro, em Brasília. O jornalista morreu na manhã de segunda-feira, 31, aos 77 anos, após uma carreira que atravessou o jornal impresso, as grandes coberturas políticas e a transformação da maneira de apresentar notícias na televisão brasileira. Monforte estava em tratamento contra um câncer. Familiares, amigos, colegas de profissão e admiradores poderão se despedir do jornalista na Capela 1 do Cemitério Campo da Esperança, na Asa Sul, onde o velório será realizado das 13h às 15h. A cerimônia de cremação está prevista para as 15h15, no mesmo local. Nascido em Santos, no litoral paulista, Monforte adotou Brasília como casa havia 43 anos e fez da capital também o cenário de alguns dos capítulos mais importantes de sua vida profissional. Foi acompanhando o poder de perto, entrevistando autoridades e traduzindo os movimentos da política para o público que ele consolidou um estilo sóbrio e reconhecível. A família agradeceu as manifestações de carinho recebidas e destacou a união de todos neste momento de despedida e oração.
A história de Monforte com o jornalismo começou muito antes de ele se tornar conhecido nacionalmente pela televisão. Ainda estudante da Faculdade de Comunicação de Santos, começou a trabalhar como repórter no jornal A Tribuna e, depois de concluir a graduação, em 1972, teve uma passagem pela área de comunicação da Secretaria de Obras do Estado de São Paulo. No ano seguinte, ingressou em O Estado de S. Paulo, onde atuou como repórter especial até 1978 e ampliou sua formação com cursos de aperfeiçoamento na Espanha e na França. A televisão entrou definitivamente em sua trajetória naquele mesmo ano, quando foi contratado pela Globo em São Paulo. Inicialmente repórter local, logo passou a produzir reportagens para programas de alcance nacional, como Jornal Nacional e Fantástico, participando também da cobertura das históricas greves dos metalúrgicos do ABC Paulista. Em 1982, assumiu a editoria de política do Jornal da Globo e acumulou as funções de editor e apresentador do Bom Dia São Paulo. Poucos meses depois chegaria o trabalho que marcaria definitivamente sua carreira: em janeiro de 1983, participou da criação do Bom Dia Brasil e assumiu como editor-chefe e primeiro apresentador do telejornal. Permaneceu à frente do programa durante nove anos, ajudando a consolidar no país um modelo no qual o apresentador não era apenas a pessoa encarregada de ler as notícias, mas também participava ativamente das decisões editoriais e da construção do conteúdo levado ao público.
Voz de Brasília
A política nacional se tornaria um dos fios condutores da carreira de Carlos Monforte. Depois de deixar temporariamente a Globo, em 1992, para participar da criação do departamento de comunicação da Confederação Nacional da Indústria (CNI), o jornalista retornou à emissora dois anos depois como repórter especial do Jornal da Globo em Brasília. Foi justamente nesse período que seu nome acabou ligado a um dos episódios mais lembrados da história política e televisiva brasileira. Em 1994, durante os preparativos para uma entrevista ao vivo, uma conversa informal entre Monforte e o então ministro da Fazenda Rubens Ricupero foi captada por telespectadores que acompanhavam o sinal por antenas parabólicas. As declarações do ministro, feitas sem que ele soubesse que estavam sendo transmitidas, provocaram enorme repercussão política e culminaram em sua saída do governo. O episódio, conhecido como “escândalo da parabólica”, tornou-se parte da história da comunicação brasileira. A trajetória de Monforte, entretanto, foi muito mais extensa. Em 1998, passou a integrar o Espaço Aberto, da GloboNews, e, no fim de 2000, assumiu a coordenação da emissora de notícias em Brasília. Também esteve à frente do Jornal das Dez e participou de diferentes programas e coberturas especiais, mantendo a política e os acontecimentos da capital federal como território privilegiado de seu trabalho. Depois de aproximadamente 36 anos de trajetória na Globo, deixou a emissora em 2016, encerrando uma carreira televisiva marcada pela combinação entre reportagem, edição e apresentação.
A morte provocou manifestações de jornalistas, antigos colegas e autoridades. O Supremo Tribunal Federal divulgou nota de pesar assinada pelo presidente da Corte, ministro Edson Fachin, que ressaltou o profissionalismo de Monforte e sua contribuição para a história do telejornalismo brasileiro. Profissionais que dividiram redações e coberturas com ele também lembraram o colega e o mestre que encontraram fora das câmeras. Mônica Waldvogel destacou sua importância profissional, enquanto a jornalista Raquel Porto Alegre ressaltou o legado deixado para quem conviveu com Monforte na redação de Brasília, não apenas pelo jornalismo, mas também pela forma como tratava as pessoas. As homenagens ajudam a dimensionar uma carreira que acompanhou mudanças profundas na própria televisão: Monforte começou quando o conceito de âncora ainda dava seus primeiros passos no Brasil, atravessou a consolidação dos telejornais matinais, participou da expansão dos canais de notícias e viu a cobertura política se transformar com novas tecnologias e formas de transmissão. Ao longo desse percurso, tornou-se parte da memória de diferentes gerações de telespectadores. Nesta terça-feira, em Brasília, a cidade que durante mais de quatro décadas foi sua casa e sua principal janela para a política brasileira será também o lugar da despedida. As câmeras continuarão ligadas e os telejornais seguirão contando as notícias do dia, como sempre fizeram. Mas, para quem acompanhou a história da televisão brasileira, uma das vozes que ajudaram a dar forma a esse ritual diário deixa definitivamente a bancada.