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Rivalidade sem jogo: Briga por futebol termina em feminicídio e condenação cinco anos depois

01/09/2026 12:25 Por João Vieira

Empresário que torcia pelo Corinthians é condenado a 13 anos de prisão por matar a esposa palmeirense com oito facadas diante dos filhos do casal

O Palmeiras havia acabado de levantar uma taça, mas dentro de um apartamento em São Paulo a rivalidade entre clubes atravessaria uma fronteira que nada tinha a ver com futebol. Cinco anos depois de matar a esposa, Érica Fernandes Alves Ceschini, de 34 anos, com oito golpes de faca, o empresário Leonardo Souza Ceschini foi condenado pelo Tribunal do Júri de São Paulo a 13 anos e 24 dias de prisão em regime fechado. O crime aconteceu em 31 de janeiro de 2021, um dia depois de o Palmeiras vencer o Santos por 1 a 0 no Maracanã e conquistar a Copa Libertadores. Érica era palmeirense; Leonardo, corintiano. Uma discussão relacionada à rivalidade entre os clubes antecedeu o ataque, ocorrido dentro do apartamento onde o casal morava, na presença dos filhos gêmeos, que tinham cerca de dois anos na época. O julgamento, realizado nesta segunda-feira, 31, no Fórum Criminal da Barra Funda, na Zona Oeste da capital paulista, encerrou uma espera de mais de cinco anos pela decisão dos jurados. O Conselho de Sentença reconheceu a autoria e a materialidade do homicídio, além das qualificadoras de feminicídio e emprego de meio cruel. Também considerou a circunstância especialmente grave de o assassinato ter acontecido diante dos filhos da vítima, transformando uma discussão aparentemente banal em uma tragédia familiar cujas consequências ultrapassaram a morte de Érica.

A perícia ajudou a reconstruir a violência daquele 31 de janeiro. Érica recebeu três facadas no peito, quatro nas costas e uma na perna. Leonardo também sofreu ferimentos e precisou passar por atendimento médico e cirurgia. Ao longo do processo, ele apresentou diferentes versões sobre o episódio. Inicialmente, afirmou que a mulher havia se ferido e chegou a atribuir a ela a responsabilidade pelo ocorrido. Posteriormente, confessou ter desferido os golpes, mas sustentou que agiu após ser atacado e que teria se excedido durante o confronto. A defesa trabalhou com a tese de legítima defesa, enquanto a acusação apresentou o caso como um feminicídio praticado em ambiente doméstico, com violência desproporcional e na presença das crianças. Preso em flagrante depois do crime, Leonardo conseguiu posteriormente o direito de responder ao processo em liberdade e permaneceu nessa condição durante os anos que antecederam o júri. A denúncia do Ministério Público de São Paulo havia sido apresentada em julho de 2021. No julgamento, formado por sete jurados, prevaleceu o entendimento de que o empresário foi responsável pela morte da esposa e de que as circunstâncias reconhecidas pelo Conselho de Sentença agravavam o homicídio. O laudo psicológico realizado com os filhos também teve peso no processo ao indicar que as crianças presenciaram o assassinato da mãe. Atualmente, os gêmeos estão sob os cuidados da avó materna.

Muito além da arquibancada

Embora a discussão sobre futebol apareça como elemento desencadeador do episódio, o julgamento coloca o caso em uma dimensão muito mais ampla do que a rivalidade entre Corinthians e Palmeiras. O crime foi reconhecido pelo júri como feminicídio, inserindo a morte de Érica no contexto da violência contra mulheres dentro de relações afetivas e familiares. A irmã da vítima, Aline Oliveira, acompanhou a expectativa pelo julgamento e afirmou desejar que os jurados compreendessem a dimensão da dor vivida pela família, relacionando o caso às inúmeras mulheres silenciadas pela violência. A tragédia também chama atenção para um fenômeno estudado fora dos tribunais: pesquisas vêm investigando a relação entre grandes eventos esportivos, consumo de álcool, exacerbação de comportamentos agressivos e aumento de episódios de violência doméstica. Isso não significa responsabilizar o futebol por crimes cometidos dentro de relacionamentos, mas evidencia como rivalidades e frustrações esportivas podem funcionar como gatilhos em ambientes nos quais comportamentos violentos já estão presentes. No caso de Érica, reduzir o assassinato a uma simples “briga de torcedores” também corre o risco de minimizar aquilo que os próprios jurados reconheceram: uma mulher foi morta pelo companheiro dentro de casa, mediante meio cruel, enquanto seus dois filhos pequenos estavam no local. O futebol ajuda a explicar o contexto da discussão; não explica nem justifica a violência que veio depois.

A sentença foi definida pelo juiz Antonio Carlos Pontes de Souza, que presidiu a sessão da 5ª Vara do Júri da Capital. Na dosimetria da pena, foram consideradas as qualificadoras reconhecidas pelos jurados e a causa de aumento decorrente de o crime ter ocorrido na presença física dos filhos da vítima, ao mesmo tempo em que também entraram no cálculo fatores relacionados à confissão do réu e à causa de diminuição ligada ao privilégio reconhecida no julgamento. A condenação ainda admite recurso, mas determina o cumprimento da pena em regime inicialmente fechado. Para a família, o resultado chega depois de cinco anos convivendo não apenas com a ausência de Érica, mas com as consequências deixadas para duas crianças que crescerão carregando a perda da mãe em circunstâncias particularmente violentas. O desfecho judicial também desloca o foco da história para onde ele precisa permanecer: Corinthians e Palmeiras continuarão se enfrentando, títulos serão comemorados e derrotas provocarão frustrações, como acontece há mais de um século. O que ocorreu naquele apartamento, porém, não pertence à lógica de uma rivalidade esportiva. O futebol pode ter iniciado a discussão, mas oito facadas transformaram a briga em feminicídio — e uma provocação que deveria terminar junto com o apito final terminou com uma família destruída e, cinco anos depois, com uma condenação no Tribunal do Júri.

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