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Política

Menos ataque, mais proposta: Avanço de Cury faz Lula recalcular a rota eleitoral

01/09/2026 12:14 Por Leo Pinheiro

Crescimento do candidato do Avante acende alerta no núcleo petista, que pretende reduzir o tom de confronto e ampliar discurso sobre propostas e futuro do país

Depois de começar a campanha com a artilharia apontada para Flávio Bolsonaro, Luiz Inácio Lula da Silva parece disposto a trocar parte da munição por uma vitrine de propostas. O crescimento de Augusto Cury (Avante) nas pesquisas presidenciais acendeu um sinal de alerta no núcleo político petista e levou a campanha do Presidente a reavaliar o tom adotado nas primeiras semanas da corrida pelo Palácio do Planalto. A ascensão do escritor e psiquiatra, que entrou na disputa ocupando um espaço inicialmente considerado secundário, passou a ser interpretada por aliados de Lula como algo maior do que uma simples redistribuição das intenções de voto: pode ser um sintoma do desgaste de parte do eleitorado com uma eleição novamente dominada pela polarização e pela troca de ataques. A percepção interna é de que existe um público que não necessariamente rompeu com Lula ou aderiu definitivamente a Cury, mas demonstra disposição para ouvir uma candidatura que fale de futuro sem transformar o adversário no centro de sua mensagem. Diante desse cenário, estrategistas defendem uma redução da chamada “postura bélica” na televisão, no rádio, nas redes sociais e nas próprias manifestações do Presidente. A mudança não significa abandonar o confronto com Flávio Bolsonaro, considerado o principal adversário na disputa, nem deixar de explorar temas que possam desgastá-lo. A ideia é alterar o equilíbrio da comunicação: diminuir o espaço dedicado exclusivamente à desconstrução do candidato do PL e aumentar a exposição de propostas, realizações do governo e compromissos para um eventual novo mandato. Para a campanha, a eleição precisa deixar de parecer apenas uma escolha sobre quem o eleitor deseja impedir de chegar ao Planalto e voltar a ser também uma discussão sobre quem apresenta o projeto mais convincente para governar o Brasil a partir de 2027.

O sinal de que essa revisão poderia ser necessária apareceu com força nos levantamentos eleitorais. Cury, que inicialmente oscilava entre 1% e 2% das intenções de voto, alcançou dois dígitos em pesquisas recentes e passou a ocupar com maior clareza a terceira posição na corrida presidencial. O avanço foi acompanhado pelo aumento de sua exposição nas redes sociais e por uma estratégia discursiva que procura apresentar o candidato como alternativa aos dois polos que dominam a política brasileira há anos. Na estreia do horário eleitoral, essa diferença ficou particularmente evidente: enquanto Lula e Flávio Bolsonaro investiram parte de seu tempo em críticas mútuas e na tentativa de aumentar a rejeição do adversário, Cury direcionou sua mensagem contra a própria polarização, procurando transformar a fadiga com o conflito político em ativo eleitoral. Para integrantes da campanha petista, o movimento merece atenção porque pode alcançar especialmente eleitores moderados, independentes e pessoas que não se sentem integralmente representadas pelos dois principais campos. Há, entretanto, divergências sobre a origem dos votos conquistados pelo candidato do Avante. Parte das análises indica que seu crescimento tem ocorrido com maior intensidade entre eleitores identificados com a direita ou que anteriormente consideravam outras candidaturas desse espectro, o que também pode representar um problema para Flávio Bolsonaro. Ainda assim, o Palácio do Planalto e a campanha de Lula evitam tratar o fenômeno como uma questão exclusiva do adversário. Em uma disputa na qual cada ponto percentual poderá ser determinante para a configuração do segundo turno, a existência de uma terceira candidatura competitiva muda o cálculo eleitoral, interfere na distribuição do tempo e das mensagens de campanha e, sobretudo, desafia a expectativa inicial de que a eleição caminharia rapidamente para uma repetição do confronto direto entre lulismo e bolsonarismo.

Troca de marcha

A revisão de estratégia também passa por uma avaliação mais ampla sobre a capacidade da campanha de apresentar Lula como candidato do futuro, e não apenas como Presidente que reivindica as realizações de seus governos anteriores. Entre aliados, existe a percepção de que o petista se movimenta com facilidade quando fala de programas implementados, indicadores econômicos, políticas sociais e do legado acumulado em seus mandatos, mas ainda precisa construir uma narrativa igualmente simples e poderosa sobre o que pretende entregar ao país nos próximos quatro anos. O início da propaganda eleitoral privilegiou o contraste com Flávio Bolsonaro e utilizou episódios de sua trajetória política e judicial para aumentar a rejeição ao candidato do PL. O caso das “rachadinhas”, suspeitas envolvendo pessoas próximas ao senador e outras controvérsias ganharam espaço na comunicação petista, em uma estratégia clássica de campanha negativa. Uma das peças, apresentada como um “currículo” de Flávio, acabou suspensa por decisão do Tribunal Superior Eleitoral, acrescentando também um risco jurídico à opção por uma comunicação mais agressiva. Agora, a intenção é ampliar a presença de assuntos diretamente relacionados à vida cotidiana do eleitor. Saúde, educação, segurança pública, emprego, renda, custo de vida e redução da jornada de trabalho estão entre os temas que podem ganhar maior protagonismo, ao lado de entregas do atual governo utilizadas para sustentar a defesa da continuidade. A aposta é que propostas concretas permitam à campanha disputar não apenas o eleitor fiel, cuja escolha já está praticamente definida, mas principalmente aquele que ainda compara alternativas. Esse segmento tende a ganhar importância conforme a campanha avança e pode ser justamente onde uma candidatura que rejeita o confronto permanente encontra espaço. Para Lula, portanto, a necessidade não é simplesmente suavizar o discurso: é ocupar o terreno propositivo antes que outro candidato consiga transformá-lo em sua principal vantagem competitiva.

O reposicionamento, porém, não deve retirar Flávio Bolsonaro da mira da campanha petista. A avaliação continua sendo de que o confronto é inevitável em uma eleição marcada por projetos políticos profundamente distintos e por índices elevados de rejeição aos principais candidatos. A diferença estará na dosagem. Em vez de fazer do adversário o personagem permanente da propaganda, a intenção é combinar o contraste político com uma narrativa que explique por que Lula deseja permanecer no Planalto e quais mudanças pretende implementar caso conquiste outro mandato. O crescimento de Cury tornou essa necessidade mais urgente porque introduziu uma terceira voz em uma disputa que parecia encaminhada para funcionar exclusivamente como um plebiscito entre dois campos antagônicos. Pesquisas recentes mostram Lula na liderança e Flávio Bolsonaro na segunda colocação, mas também revelam o candidato do Avante alcançando um patamar suficiente para interferir na dinâmica da eleição e na estratégia dos favoritos. Ainda será necessário observar uma sequência maior de levantamentos para saber se a arrancada de Cury representa uma tendência consolidada ou um movimento circunstancial provocado pelo aumento de sua exposição durante o início oficial da campanha. Também pesam diferenças metodológicas entre os institutos e o fato de alguns dos levantamentos que registraram crescimento mais acentuado terem sido realizados por telefone ou pela internet. Para o comando petista, entretanto, a prudência recomenda reagir antes que o fenômeno esteja completamente estabelecido. Se Cury conseguir transformar o discurso contra a polarização em uma identidade eleitoral reconhecida, poderá ampliar sua capacidade de atrair justamente os votos que Lula e Flávio precisarão conquistar fora de suas bases mais fiéis. A corrida presidencial ganha, assim, uma nova camada: enquanto os dois favoritos continuam olhando um para o outro, um terceiro candidato tenta convencer o eleitor de que existe outro caminho. Lula parece ter percebido o risco e começa a ajustar a bússola. Porque, depois do susto das pesquisas, a campanha petista enfrenta uma pergunta que nenhum ataque ao adversário consegue responder sozinho: mais do que dizer contra quem está disputando, terá de convencer o eleitor sobre o país que pretende construir.

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