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Fogo cruzado: Bombardeios na Colômbia matam quatro menores e colocam novo governo sob pressão

01/09/2026 00:09 Por Leo Pinheiro

Ataques contra dissidências das Farc marcam primeiras semanas de Abelardo de la Espriella no poder e reacendem debate sobre crianças recrutadas por grupos armados

A promessa era começar o novo governo com mão de ferro contra guerrilhas, narcotraficantes e organizações armadas que há décadas desafiam o Estado colombiano. Mas os primeiros bombardeios autorizados pelo Presidente Abelardo de la Espriella produziram também uma consequência capaz de transformar uma demonstração de força em um delicado teste político: quatro menores de idade estão entre os mortos nas operações aéreas realizadas desde que ele assumiu o poder, em 7 de agosto. Três adolescentes morreram no bombardeio de 27 de agosto contra um acampamento de dissidentes das antigas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), em uma área rural de El Retorno, no departamento de Guaviare, na Amazônia colombiana. Um quarto menor, de 16 anos, já havia sido morto em uma operação anterior no Catatumbo, região próxima à fronteira com a Venezuela. As mortes colocaram no centro do debate uma das feridas mais persistentes do conflito colombiano: o recrutamento de crianças e adolescentes por grupos armados e o desafio das forças de segurança de enfrentar essas organizações sem atingir jovens que, mesmo integrados às estruturas guerrilheiras, podem ser vítimas de recrutamento forçado. Diante das críticas, De la Espriella não recuou. O Presidente responsabilizou os grupos ilegais por levar menores para suas fileiras, reafirmou apoio às Forças Armadas e sinalizou que a ofensiva militar continuará como um dos pilares de sua estratégia de segurança.

O bombardeio em Guaviare foi realizado dentro da chamada Operação Amón e teve como alvo uma estrutura das dissidências das Farc vinculada ao grupo comandado por Calarcá Córdoba. Dez pessoas morreram no ataque e, após receber os corpos, o Instituto Nacional de Medicina Legal identificou nove das vítimas, confirmando que três eram menores, com idades de 15 e 16 anos. O episódio rapidamente extrapolou o balanço militar da operação e abriu uma discussão sobre as informações disponíveis antes do ataque e sobre as precauções adotadas para verificar a eventual presença de crianças e adolescentes no acampamento. Organizações de proteção à infância e de defesa dos direitos humanos argumentam que o recrutamento por uma organização ilegal não elimina automaticamente a condição de vítima dos menores, sobretudo em um país no qual essa prática continua fazendo parte da estratégia de diferentes grupos armados. O problema está longe de ser residual: em várias regiões colombianas, comunidades indígenas e rurais convivem com ameaças, deslocamentos forçados e pressão para que jovens ingressem nas fileiras de guerrilhas e outras organizações. Para o governo, entretanto, permitir que a presença de menores inviabilize operações militares poderia criar um incentivo perverso para que grupos criminosos continuem utilizando crianças e adolescentes como proteção. É justamente nesse ponto que se instala o impasse: como combater estruturas armadas que recrutam menores sem transformar esses mesmos jovens em vítimas também da resposta do Estado?

Infância na mira

A confirmação das mortes desencadeou críticas de organizações como Vivamos Humanos e Save the Children, que cobraram maior rigor na avaliação dos alvos e medidas adicionais de precaução sempre que houver indícios da presença de menores. O debate alcança diretamente as regras do Direito Internacional Humanitário, que estabelecem princípios como distinção, proporcionalidade e precaução na condução das hostilidades. Para entidades de defesa dos direitos humanos, crianças e adolescentes recrutados representam uma das faces mais vulneráveis do conflito e sua presença deve pesar de forma especial no planejamento de ataques. O governo apresenta uma leitura diferente da responsabilidade pelo ocorrido. De la Espriella sustenta que a origem da tragédia está nas organizações que recrutam menores e os colocam em acampamentos e estruturas militares, prática considerada grave violação do Direito Internacional Humanitário. Ao comentar o caso, o Presidente declarou apoio às operações e prometeu responsabilizar aqueles que incorporam crianças às fileiras dos grupos armados. A controvérsia, porém, vai além da responsabilidade imediata pelas quatro mortes. Ela recupera um dilema que atravessou governos colombianos de diferentes orientações políticas: bombardeios são capazes de destruir acampamentos, atingir comandantes e reduzir a capacidade operacional das guerrilhas, mas tornam-se particularmente controversos quando a inteligência militar não consegue excluir a presença de menores nos locais atacados. A própria história recente da Colômbia mostra que o problema não começou com o atual Presidente. Operações aéreas com adolescentes entre as vítimas também provocaram fortes críticas durante administrações anteriores, inclusive no governo de Gustavo Petro.

As mortes ocorrem justamente no momento em que a Colômbia passa por uma mudança profunda na maneira de enfrentar os grupos armados que permaneceram ativos após o acordo de paz firmado com as Farc em 2016. De la Espriella chegou à Presidência defendendo uma política mais agressiva de segurança e começou o mandato acelerando operações contra dissidências guerrilheiras e outras organizações ilegais. A estratégia contrasta com a chamada “paz total” de Gustavo Petro, que buscou ampliar negociações simultâneas com diferentes grupos na tentativa de reduzir a violência e avançar em processos de desmobilização. O novo governo começou a desmontar parte dessa arquitetura: encerrou mesas de diálogo com algumas organizações e reforçou a opção pela pressão militar, enquanto operações contra grupos ligados ao narcotráfico e às dissidências ganharam protagonismo nas primeiras semanas da administração. O desafio, contudo, é muito maior do que eliminar acampamentos ou neutralizar comandantes. A Colômbia continua convivendo com territórios nos quais a presença limitada do Estado abre espaço para guerrilhas, narcotraficantes e grupos criminosos disputarem rotas, recursos e controle sobre comunidades vulneráveis. É nesse ambiente que o recrutamento de menores encontra terreno fértil. Com quatro adolescentes mortos nas primeiras operações aéreas do novo mandato, De la Espriella enfrenta agora uma equação que nenhum governo colombiano conseguiu resolver por completo: demonstrar força contra organizações armadas sem permitir que a população mais vulnerável pague o preço da ofensiva. Afinal, quando crianças são levadas para uma guerra que não escolheram, definir quem venceu uma batalha pode ser muito mais simples do que determinar quem realmente perdeu.

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