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Nem Tudo é Carta Marcada

31/08/2026 18:27 Por Leo Pinheiro

Estudo, matemática, controle emocional e gestão financeira fazem parte de uma atividade ainda confundida com cassino e simples sorte.

Quando Eduardo Luz diz que é jogador profissional de pôquer, a resposta costuma vir antes mesmo de qualquer pergunta. "Isso vicia", "você vive de aposta?" ou "cuidado para não perder tudo" são frases que o carioca de 45 anos já ouviu inúmeras vezes. Até quem acompanhou de perto sua mudança de carreira demonstrou preocupação quando ele deixou o serviço público para se dedicar integralmente às mesas, há quatro anos. A imagem construída ao longo de décadas, que aproxima o pôquer dos jogos de azar, ainda pesa mais do que a rotina de quem vive da modalidade. Com o passar do tempo, porém, o receio deu lugar à confiança. "Quando as pessoas viram as contas sendo pagas todos os meses, a preocupação acabou", conta, entre risos. A experiência de Eduardo ajuda a revelar um universo pouco conhecido fora do meio. Longe do glamour das transmissões televisivas e das grandes premiações, a maior parte da carreira de um jogador profissional acontece diante de planilhas, softwares de análise, livros, vídeos, cálculos estatísticos e muitas horas de estudo. Para eles, o sucesso depende muito mais da capacidade de tomar boas decisões repetidamente do que da carta que aparece em uma única mão.

Essa preparação faz parte da rotina do paulista Stefano Porto, de 35 anos, jogador profissional há três e patrocinado pela Gorila's Poker. Antes mesmo de iniciar uma sessão de jogo, ele dedica cerca de quatro horas à preparação, que inclui academia, meditação, estudo técnico, análise de mãos disputadas anteriormente, aulas especializadas e treinamento psicológico. "A maior parte da carreira de um jogador de pôquer não é viajando para torneios, mas dentro de um quarto, estudando durante horas e depois jogando outras tantas na frente do computador", afirma. Segundo Stefano, a popularização das apostas esportivas e dos cassinos online acabou reforçando uma confusão que os profissionais tentam desfazer há anos. "Quando digo que sou jogador de pôquer, muitas pessoas respondem que também jogam roleta, blackjack ou caça-níquel, como se tudo fosse a mesma coisa". A associação não é completamente descabida, reconhecem os próprios jogadores, afinal o acaso faz parte do jogo. Uma carta inesperada pode mudar completamente o desfecho de uma partida. A diferença, segundo eles, aparece quando milhares de decisões são acumuladas ao longo de meses ou anos, reduzindo a influência da sorte sobre os resultados de longo prazo.

Muito além da sorte

A convivência diária com a incerteza talvez seja justamente o maior desafio da profissão. Vitor Villela, de 33 anos, joga pôquer há 13, mas prefere definir sua relação com a modalidade como um "hobby lucrativo", já que não depende financeiramente dos resultados para viver. Ainda assim, ele conhece bem o peso da variância (termo utilizado para explicar as oscilações naturais provocadas pela sorte no curto prazo). "Há muitos bons jogadores que não conseguem o resultado esperado devido à alta variância do jogo, mesmo jogando muito bem", observa. A percepção dos profissionais encontra respaldo em estudos científicos. Uma pesquisa publicada na revista PLOS ONE, baseada em uma ampla amostra de partidas de pôquer online, identificou persistência no desempenho dos jogadores ao longo do tempo e concluiu que a habilidade exerce influência significativa nos resultados, tornando-se cada vez mais perceptível conforme aumenta o número de mãos analisadas. Isso, entretanto, não elimina o risco nem garante lucro. Pelo contrário. Saber perder faz parte da profissão. Vinícius Palaia Neto, de 42 anos e profissional há dois, afirma que nem mesmo a experiência elimina completamente o impacto emocional de uma derrota. "Com o tempo tiltamos menos, mas dizer que não tiltamos é mentira". Tilt é o termo usado no pôquer para definir o momento em que a frustração começa a interferir na capacidade de tomar decisões racionais, um dos principais inimigos de quem joga profissionalmente.

Controlar as emoções, entretanto, é apenas uma parte da equação. A gestão financeira aparece como outro pilar indispensável para quem pretende transformar o pôquer em profissão. Os jogadores mantêm uma banca — conhecida internacionalmente como bankroll — destinada exclusivamente às competições, completamente separada das despesas pessoais. Eduardo afirma já ter visto excelentes jogadores quebrarem financeiramente não por falta de habilidade, mas por ignorarem regras básicas de administração da própria banca. Stefano reforça que disciplina financeira é o que diferencia um profissional de alguém que tenta recuperar rapidamente uma perda por impulso. O reconhecimento institucional da modalidade também tem avançado. A legislação brasileira define como jogo de azar aquele em que ganhos e perdas dependem "exclusiva ou principalmente da sorte", sem mencionar especificamente o pôquer. No cenário internacional, a modalidade ganhou força ao se aproximar dos chamados esportes da mente, após a World Poker Federation tornar-se membro afiliado da International Mind Sports Association (IMSA), entidade que reúne organizações ligadas a modalidades como o xadrez. No Brasil, o tema também chegou às universidades. A Unicamp, por exemplo, já desenvolveu atividades envolvendo estratégia e tomada de decisão a partir do pôquer. Depois de mais de uma década convivendo com o baralho, Vitor encontrou uma definição que costuma sintetizar sua visão sobre o jogo: "O xadrez é um esporte da mente. O pôquer é um xadrez com baralho". A sentença resume uma realidade pouco visível para quem observa apenas as cartas sobre a mesa. Por trás delas existe estudo, estatística, disciplina, inteligência emocional e uma rotina que, segundo os próprios jogadores, está muito mais próxima de uma profissão baseada em desempenho do que da imagem construída em torno da sorte.

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