“Minha Estrela Dalva” estreia como uma declaração de amor à cantora e revisita sua trajetória sob um olhar poético, afetivo e contemporâneo
Há paixões que nascem na infância e atravessam uma vida inteira. Foi assim com Renato Borghi e Dalva de Oliveira. Aos seis anos, ao ouvir pela primeira vez a voz da cantora em um disco da trilha sonora de Branca de Neve, o ator iniciou uma admiração que resistiu ao tempo e agora ganha forma nos palcos em Minha Estrela Dalva. O espetáculo transforma essa devoção em uma emocionante celebração da artista, misturando lembranças pessoais, música e ficção para apresentar uma Dalva intensa, humana e atemporal.
Escrita por Borghi, a montagem está longe de ser uma biografia convencional. Sob direção de Elias Andreato e Elcio Nogueira Seixas, a peça propõe um encontro imaginário entre o dramaturgo e sua musa, interrompendo as barreiras entre passado e presente. Soraya Ravenle assume o papel de Dalva de Oliveira com a missão de revelar não apenas a voz da “Rainha do Rádio”, mas também a mulher que enfrentou preconceitos, escândalos e o machismo de sua época sem abrir mão da própria identidade. Para a atriz, a interpretação representa um mergulho na alma de uma artista cuja obra continua dialogando com o Brasil contemporâneo.
Entre memória e resistência
A encenação também coloca Renato Borghi frente a frente com sua juventude. No palco, Elcio Nogueira Seixas interpreta o ator nos anos 1960, recriando o momento em que o jovem artista do Teatro Oficina descobriu em Dalva uma representação da alma brasileira. Ivan Vellame completa o elenco ao dar vida aos homens que marcaram a trajetória da cantora, especialmente o compositor Herivelto Martins, trazendo à cena os amores, os conflitos públicos e os bastidores da era de ouro do rádio. A montagem ainda conta com direção musical de William Guedes, cenário de Márcia Moon, iluminação de Wagner Pinto, figurinos de Fábio Namatame e direção de movimento assinada por Roberto Alencar e Irupe Sarmiento.
Mais do que celebrar uma das maiores vozes da música brasileira, Minha Estrela Dalva lança um olhar atual sobre temas como liberdade feminina, violência simbólica e o julgamento público das mulheres. Ao mostrar uma Dalva contraditória, forte, vulnerável e dona da própria história, o espetáculo aproxima sua trajetória das discussões contemporâneas sobre empoderamento e igualdade de gênero. Entre canções inesquecíveis e cenas carregadas de emoção, a montagem reafirma que o legado da cantora permanece vivo não apenas em sua música, mas também na coragem de desafiar convenções e transformar a dor em arte.