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Opinião

O silêncio como instrumento de poder

01/08/2026 18:00 Por Redação NTD

Há uma antiga máxima da política segundo a qual o protagonismo é tão valioso quanto perigoso. Quem domina a cena pública dita a pauta do debate, mas também se transforma no alvo preferencial das críticas. Por isso, líderes experientes sabem que há momentos em que o silêncio produz mais efeitos do que o confronto. A disputa entre o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro tem demonstrado que, em uma era marcada pela hiperexposição e pelas redes sociais, administrar a própria visibilidade tornou-se uma estratégia tão importante quanto formular discursos ou apresentar propostas.

Nos meses em que o governo enfrentou uma sucessão de desgastes, Flávio Bolsonaro optou por uma presença discreta. Enquanto o senador evitava ocupar diariamente o centro do debate político, Lula concentrava praticamente sozinho o desgaste provocado pelas notícias envolvendo a relação de seu filho com o chamado “careca do INSS”, pelos questionamentos em torno dos encontros com o banqueiro Daniel Vorcaro e pelas derrotas sofridas pela base governista no Senado. Ao não disputar espaço nas manchetes, Flávio permitiu que a fotografia daquele momento registrasse apenas um protagonista: um governo pressionado, e obrigado a responder sucessivamente às crises.

O cenário, contudo, começou a se inverter quando a oposição passou a produzir seus próprios fatos políticos. A revelação do patrocínio do Banco Master ao filme Dark Horse, inspirado na trajetória de Jair Bolsonaro, os atritos públicos entre Flávio Bolsonaro e Michelle Bolsonaro, e a crescente aproximação do senador com integrantes do governo Donald Trump — frequentemente apresentado por Lula como um adversário dos interesses brasileiros — deslocaram parte da pressão para o campo bolsonarista. O foco do noticiário deixou de incidir exclusivamente sobre o Palácio do Planalto, e passou a iluminar as contradições da oposição.

Foi nesse momento que Lula pareceu compreender que a melhor resposta talvez fosse não responder. Em vez de transformar cada episódio envolvendo Flávio em um novo embate político, o Presidente reduziu o tom e deixou que o senador administrasse sozinho o desgaste decorrente de suas próprias escolhas. Trata-se de uma lógica conhecida por estrategistas eleitorais: quando o adversário enfrenta dificuldades, muitas vezes a intervenção apenas divide responsabilidades e oferece a ele uma oportunidade de reorganizar sua narrativa.

Não por acaso, o próprio Flávio Bolsonaro dá sinais de que compreende os riscos da superexposição. A sinalização de que só deverá participar de debates televisivos caso Lula também esteja presente não parece decorrer apenas de uma questão protocolar. Há um evidente cálculo político nessa decisão. Sem o Presidente no palco, Flávio naturalmente se tornaria o principal alvo dos demais candidatos, concentrando críticas de diferentes espectros ideológicos. Com Lula diante das câmeras, o desgaste tende a ser compartilhado e a polarização volta a organizar o debate em torno de dois polos já conhecidos do eleitorado. Em outras palavras, o senador parece buscar exatamente aquilo que conseguiu evitar durante boa parte dos últimos meses: não carregar sozinho o peso da exposição.

Esse comportamento revela uma transformação importante na política contemporânea. A disputa eleitoral deixou de ser apenas uma competição de propostas e passou a envolver, sobretudo, a gestão da atenção pública. Saber quando aparecer, quando confrontar e quando simplesmente observar tornou-se uma competência estratégica. Em um ambiente onde as narrativas se formam, e se desfazem em velocidade recorde, a capacidade de administrar o tempo político pode valer mais do que um bom discurso.

É cedo para afirmar se essa alternância de protagonismo produzirá efeitos permanentes sobre a sucessão presidencial. O humor do eleitor muda rapidamente, novas crises surgem, e o noticiário dificilmente permanece concentrado em uma única personagem por muito tempo. Ainda assim, a movimentação recente dos dois principais campos políticos revela que ambos parecem compreender uma lição elementar: a visibilidade excessiva raramente é gratuita.

A questão que permanece em aberto, portanto, não é apenas quem liderará as pesquisas ou vencerá os próximos embates. O verdadeiro desafio será identificar quem conseguirá dominar o relógio da política. Afinal, campanhas não costumam ser decididas por quem permanece mais tempo sob os holofotes, mas por quem sabe escolher o instante exato de voltar ao centro do palco... Quando os refletores deixam de iluminar o adversário e passam, novamente, a buscar um novo protagonista.

Leo Pinheiro é diretor de Cinema e Jornalista, com passagem por revistas como Veja, Isto É, Exame e Viver Brasil, onde atuou como correspondente internacional, em Nova Iorque.