Outro dia participei de uma conversa em um grupo de terapeutas (ELO COLABORATIVO) com alguns membros do comitê de gestão, que despertou minha curiosidade. Um dos membros falou sobre a chamada Ressonância Schumann, um fenômeno natural relacionado às frequências eletromagnéticas da Terra. Algumas pessoas acreditam que pequenas variações nessa frequência poderiam influenciar a forma como percebemos o tempo, nossas emoções ou até nossa capacidade de concentração. Fui estudar mais e descobri que a ciência ainda não confirma essas interpretações, mas confesso que a conversa me fez pensar em algo muito mais importante do que a própria teoria.
Será que o problema não está na frequência da Terra, mas na frequência em que nós decidimos viver?
Tenho a impressão de que aceleramos tudo. Respondemos mensagens enquanto participamos de reuniões. Fazemos ligações durante o trânsito. Almoçamos olhando para uma tela. Assistimos a uma série enquanto navegamos pelas redes sociais. Estamos sempre ocupados e, curiosamente, cada vez mais temos a sensação de que nunca temos tempo.
Vivemos uma época em que velocidade passou a ser confundida com produtividade. Quanto mais cheio estiver o calendário, maior parece ser o reconhecimento social. Quem descansa sente culpa. Quem desacelera parece estar ficando para trás.
Mas será que isso é verdade?
Ao longo da minha carreira, tive a oportunidade de morar em sete países, conheci culturas extremamente diferentes entre si. Algumas vivem em ritmo frenético; outras parecem desafiar o relógio.
Curiosamente, nunca encontrei uma relação direta entre velocidade acelerada e qualidade das decisões. Na verdade, percebi exatamente o contrário; os melhores líderes que conheci tinham algo em comum: eles sabiam fazer pausas. Reservavam momentos para pensar antes de decidir; escutavam antes de responder; observavam antes de agir. Eu mesmo ganhei um livro que usei em quase todas as chegadas em países e empresas novas: Os primeiros 90 dias, de Michael D. Watkins
Estes líderes tinham consciência de que algumas decisões exigem rapidez, mas as decisões realmente importantes exigem clareza. E clareza dificilmente nasce no meio do barulho.
Hoje somos constantemente estimulados a produzir mais conteúdo, responder mais rápido, participar de mais reuniões, consumir mais informação, e estabelecer mais conexões. Mas talvez estejamos negligenciando uma competência essencial para a liderança do século XXI.
A capacidade de silenciar. Silenciar o celular; silenciar a ansiedade; silenciar a necessidade permanente de estar fazendo alguma coisa... Muitas vezes para impressionar o outro.
Grandes ideias raramente surgem no meio da correria. Elas aparecem durante uma caminhada. Em um voo sem internet; em um café tranquilo; em uma conversa sem pressa. Ou simplesmente quando nos permitimos parar.
Talvez seja por isso que tantos executivos bem-sucedidos incorporaram momentos de reflexão, meditação, leitura ou contato com a natureza em suas rotinas. Talvez seja parte do Sétimo “d’Os 7 Hábidos das Pessoas Altamente Eficazes”, Stephen R. Covey, O hábito de afiar a serra.
Não porque tenham tempo sobrando, mas porque compreenderam que pensar melhor vale mais do que agir mais rápido. Liderança não é apenas a capacidade de conduzir pessoas; é também a capacidade de conduzir a própria mente.
Talvez não precisemos viver mais depressa. Mas, sim , precisemos viver com mais presença.
Porque, no final das contas, ninguém se arrepende de não ter respondido um e-mail cinco minutos antes. Mas, muita gente se arrepende de não ter vivido um momento que jamais voltará.
Talvez a maior decisão estratégica que possamos tomar hoje seja simplesmente desacelerar o suficiente para perceber o que realmente importa.
Felício Ferraz trabalhou como executivo de empresas multinacionais como Shell e Souza Cruz; é conselheiro, professor, empreendedor em série; e ex-CEO da BAT - British American Tobacco - no Caribe, America Central, Sri Lanka, e Caucasus.