Notícia Todo Dia NTD
Papo de Líderes

Será que estamos vivendo rápido demais?

27/07/2026 • 18:15 • Por Felício Ferraz

Outro dia participei de uma conversa em um grupo de terapeutas (ELO COLABORATIVO) com alguns membros do comitê de gestão, que despertou minha curiosidade. Um dos membros falou sobre a chamada Ressonância Schumann, um fenômeno natural relacionado às frequências eletromagnéticas da Terra. Algumas pessoas acreditam que pequenas variações nessa frequência poderiam influenciar a forma como percebemos o tempo, nossas emoções ou até nossa capacidade de concentração. Fui estudar mais e descobri que a ciência ainda não confirma essas interpretações, mas confesso que a conversa me fez pensar em algo muito mais importante do que a própria teoria.

Será que o problema não está na frequência da Terra, mas na frequência em que nós decidimos viver?

Tenho a impressão de que aceleramos tudo. Respondemos mensagens enquanto participamos de reuniões. Fazemos ligações durante o trânsito. Almoçamos olhando para uma tela. Assistimos a uma série enquanto navegamos pelas redes sociais. Estamos sempre ocupados e, curiosamente, cada vez mais temos a sensação de que nunca temos tempo.

Vivemos uma época em que velocidade passou a ser confundida com produtividade. Quanto mais cheio estiver o calendário, maior parece ser o reconhecimento social. Quem descansa sente culpa. Quem desacelera parece estar ficando para trás.

Mas será que isso é verdade?

Ao longo da minha carreira, tive a oportunidade de morar em sete países, conheci culturas extremamente diferentes entre si. Algumas vivem em ritmo frenético; outras parecem desafiar o relógio.

Curiosamente, nunca encontrei uma relação direta entre velocidade acelerada e qualidade das decisões.  Na verdade, percebi exatamente o contrário; os melhores líderes que conheci tinham algo em comum: eles sabiam fazer pausas. Reservavam momentos para pensar antes de decidir; escutavam antes de responder; observavam antes de agir.  Eu mesmo ganhei um livro que usei em quase todas as chegadas em países e empresas novas: Os primeiros 90 dias, de Michael D. Watkins

Estes líderes tinham consciência de que algumas decisões exigem rapidez, mas as decisões realmente importantes exigem clareza. E clareza dificilmente nasce no meio do barulho.

Hoje somos constantemente estimulados a produzir mais conteúdo, responder mais rápido, participar de mais reuniões, consumir mais informação, e estabelecer mais conexões. Mas talvez estejamos negligenciando uma competência essencial para a liderança do século XXI.

A capacidade de silenciar.  Silenciar o celular;  silenciar a ansiedade; silenciar a necessidade permanente de estar fazendo alguma coisa... Muitas vezes para impressionar o outro.

Grandes ideias raramente surgem no meio da correria.  Elas aparecem durante uma caminhada.  Em um voo sem internet; em um café tranquilo; em uma conversa sem pressa.  Ou simplesmente quando nos permitimos parar.

Talvez seja por isso que tantos executivos bem-sucedidos incorporaram momentos de reflexão, meditação, leitura ou contato com a natureza em suas rotinas.  Talvez seja parte do Sétimo “d’Os 7 Hábidos das Pessoas Altamente Eficazes”, Stephen R. Covey, O hábito de afiar a serra.

Não porque tenham tempo sobrando, mas porque compreenderam que pensar melhor vale mais do que agir mais rápido.  Liderança não é apenas a capacidade de conduzir pessoas; é também a capacidade de conduzir a própria mente.

Talvez não precisemos viver mais depressa. Mas, sim , precisemos viver com mais presença.

Porque, no final das contas, ninguém se arrepende de não ter respondido um e-mail cinco minutos antes. Mas, muita gente se arrepende de não ter vivido um momento que jamais voltará.

Talvez a maior decisão estratégica que possamos tomar hoje seja simplesmente desacelerar o suficiente para perceber o que realmente importa.

Felício Ferraz trabalhou como executivo de empresas multinacionais como Shell e Souza Cruz; é conselheiro, professor, empreendedor em série; e ex-CEO da BAT - British American Tobacco - no Caribe, America Central, Sri Lanka, e Caucasus.

 

Felício Ferraz

Felício Ferraz trabalhou como executivo de empresas multinacionais como Shell e Souza Cruz; é conselheiro, professor, empreendedor em série; e ex-CEO da BAT - British American Tobacco - no Caribe, America Central, Sri Lanka, e Caucasus.