Uso de estruturas metálicas em contato com recursos hídricos exige estudos técnicos, sobretudo quando a água é destinada ao consumo, irrigação e dessedentação animal
A inauguração de um trecho do Ramal do Apodi, obra que integra o projeto da Transposição do Rio São Francisco, reacendeu o debate sobre os critérios técnicos adotados em grandes empreendimentos hídricos. Durante as agendas do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Rio Grande do Norte, na última quinta-feira, 2, em que foi inaugurada uma estrutura ainda sem água em operação, imagens de drone mostraram um contêiner metálico improvisado sendo utilizado como duto para a passagem de água em um trecho da obra. A estrutura ganhou forte repercussão em meados de 2026 por surgir justamente em um projeto voltado a levar segurança hídrica e combater a seca no semiárido nordestino. O trecho está ligado ao rio Apodi-Mossoró, localizado integralmente no Rio Grande do Norte, que receberá águas da transposição.
Embora o reaproveitamento de containers marítimos na construção civil represente uma importante estratégia de economia circular, reduzindo o consumo de matérias-primas e prolongando a vida útil de estruturas metálicas, especialistas destacam que a situação exige cuidados adicionais quando esses equipamentos deixam de exercer sua função original de transporte internacional e passam a integrar obras permanentes, especialmente em áreas ambientalmente sensíveis. Nesses casos, o uso deve ser acompanhado por rigorosos critérios técnicos, ambientais e sanitários, além de documentação que comprove a origem dos containers, sua condição estrutural, eventual descontaminação, adequação para o novo uso e atendimento às normas técnicas aplicáveis.
Exigências técnicas
A discussão torna-se ainda mais relevante quando estruturas metálicas reutilizadas permanecem em contato direto com recursos hídricos destinados ao abastecimento humano, à dessedentação animal e à irrigação agrícola, como ocorre nas obras ligadas às águas da Transposição do Rio São Francisco. Especialistas afirmam que a avaliação deve ir além da estabilidade estrutural, abrangendo estudos sobre corrosão, durabilidade dos materiais, eventual lixiviação de substâncias presentes em tintas, revestimentos ou tratamentos anticorrosivos e os possíveis reflexos sobre a qualidade da água e dos ecossistemas aquáticos. Dependendo das características da intervenção, também podem ser exigidos estudos de impacto ambiental, pareceres especializados, avaliações sanitárias e comprovação de que os materiais utilizados são compatíveis com ambientes aquáticos e não representam riscos ao meio ambiente ou à saúde pública.
Mais do que discutir o reuso de containers, o episódio reforça a importância da transparência em projetos executados próximos a corpos hídricos de interesse público. A divulgação dos estudos ambientais, dos laudos de inspeção, das avaliações de conformidade dos materiais e das autorizações emitidas pelos órgãos competentes permite o acompanhamento pela sociedade e fortalece a confiança nas soluções adotadas. Quando a água envolvida é destinada ao consumo da população, à produção agrícola e à criação de animais, a observância das normas técnicas e ambientais deixa de ser apenas uma exigência legal e passa a representar um compromisso com a saúde pública, a segurança ambiental e a sustentabilidade.