Relatório denuncia ataques contra civis e hospitais, aumento da violência sexual e agravamento da fome no país africano
Enquanto milhares de famílias abandonam suas casas para escapar dos confrontos, hospitais deixam de funcionar após serem bombardeados e comunidades inteiras enfrentam a fome sem acesso à assistência básica, o Sudão do Sul mergulha em uma crise humanitária cada vez mais profunda. O cenário é retratado no novo relatório da organização Médicos Sem Fronteiras (MSF), intitulado “Eles os mataram enquanto fugíamos”, que documenta o avanço da violência entre o início de 2025 e meados de 2026. O documento denuncia ataques sistemáticos contra civis, unidades de saúde e equipes humanitárias, além de alertar para o risco de colapso da assistência médica em diversas regiões do país. Para a organização, a combinação entre conflito armado, destruição da infraestrutura e restrições ao trabalho humanitário tem colocado centenas de milhares de pessoas em situação de extrema vulnerabilidade.
De acordo com o relatório, 12 ataques contra equipes e instalações de MSF deixaram aproximadamente 762 mil pessoas sem acesso a serviços de saúde no período analisado. A organização faz um apelo ao governo do Sudão do Sul, ao Exército de Libertação do Povo do Sudão na Oposição (SPLA-IO) e aos demais grupos armados para que respeitem o Direito Internacional Humanitário e garantam a proteção da população civil e das estruturas essenciais. Entre os episódios registrados estão bombardeios deliberados a hospitais, saques de unidades de saúde, sequestros de profissionais, e ataques indiscriminados contra comunidades. O documento também reúne relatos de sobreviventes, como o de uma mulher que descreve a destruição de seu vilarejo e a morte de familiares idosos queimados dentro de suas casas durante um ataque. “Cidades e vilarejos populosos estão sendo atingidos, resultando em vítimas, deslocamento em massa e destruição da infraestrutura civil”, afirma Zakaria Mwatia, coordenador-geral de MSF no Sudão do Sul.
Violência em alta
Os dados médicos compilados por MSF evidenciam o agravamento do conflito. Em 2025, o país registrou 138 ataques aéreos, número muito superior aos apenas dois contabilizados em 2024. No mesmo período, a organização atendeu 6.095 pessoas feridas pela violência, entre vítimas de disparos de armas de fogo, explosões e agressões relacionadas ao conflito, contra 4.765 atendimentos realizados no ano anterior. Apenas os casos de ferimentos por arma de fogo cresceram 77% em relação a 2024. Já em 2026, cerca de 2.000 pessoas feridas receberam atendimento médico, incluindo 885 sobreviventes de violência sexual e de gênero. O relatório destaca que mulheres e meninas estão entre as principais vítimas dessa realidade, frequentemente submetidas a abusos durante deslocamentos ou enquanto realizam atividades cotidianas, como buscar água ou lenha. Além disso, civis seguem expostos a recrutamento forçado, sequestros, e ataques em áreas densamente povoadas, ampliando o impacto da guerra sobre a população.
Além da violência direta, MSF alerta que o conflito provoca uma sucessão de crises que agravam ainda mais as condições de vida da população. Os deslocamentos forçados interrompem o acesso a alimentos, água potável e meios de subsistência, aumentando os índices de desnutrição e favorecendo a disseminação de doenças. A destruição de hospitais e a redução do espaço humanitário dificultam o atendimento médico justamente quando cresce a demanda por cuidados físicos e psicológicos. Longas jornadas em busca de refúgio, associadas à escassez de ajuda internacional, e às dificuldades logísticas para a entrega de alimentos e medicamentos, têm aprofundado a vulnerabilidade das comunidades afetadas. Diante desse cenário, Médicos Sem Fronteiras reforça que civis, profissionais de saúde, e organizações humanitárias devem ser protegidos em todos os momentos, e defende que o acesso humanitário seja garantido sem obstáculos, para que a assistência possa chegar às populações que mais necessitam antes que a crise alcance níveis ainda mais devastadores.