Alta na demanda por reconhecimento de diplomas e déficit de especialistas impulsionam movimento migratório
Enquanto o Brasil forma um número cada vez maior de profissionais da saúde, muitos deles começam a enxergar do outro lado do Atlântico a oportunidade de construir uma carreira. A Espanha desponta como um dos principais destinos por reunir proximidade cultural e linguística, além da crescente necessidade de reforçar seu sistema de saúde. No entanto, especialistas alertam que o caminho para exercer a profissão no país europeu começa muito antes da mudança: passa pelo reconhecimento oficial do diploma e pelo cumprimento das exigências legais para atuação em profissões regulamentadas.
A advogada Evânia França, especialista em Direito Migratório e com atuação em mobilidade internacional, destaca que a homologação do diploma é uma etapa indispensável para quem pretende trabalhar na área da saúde na Espanha. “Existe uma diferença importante entre possuir residência legal, ter uma formação reconhecida e estar autorizado a exercer uma profissão regulamentada. O profissional pode ter uma proposta de trabalho ou até autorização para viver no país, mas isso não significa que seu diploma produzirá automaticamente os efeitos necessários para a atuação na área da saúde. A análise deve começar pelo percurso acadêmico, pelos documentos exigidos e pelas regras aplicáveis à profissão”, afirma.
Planejamento é decisivo
O interesse crescente pela Espanha ocorre em um cenário de pressão sobre os sistemas de saúde dos dois países. Dados do Ministério de Ciência, Inovação e Universidades da Espanha mostram que 85.564 pedidos de homologação e equivalência de diplomas foram concluídos em 2025, mais que o dobro dos 39.975 registrados no ano anterior, sendo quase 80% relacionados à medicina. O processo passou a ser realizado de forma digital, com prazo máximo de seis meses e possibilidade de tramitação simplificada em alguns casos. No Brasil, por outro lado, a diferença entre o número de formandos e as vagas de residência médica reforça a busca por oportunidades no exterior: foram 27.263 concluintes de medicina para apenas 16.189 vagas de acesso direto, além da projeção de mais de 42 mil novos médicos formados por ano nos próximos anos.
Segundo Evânia, embora a Espanha tenha modernizado o sistema de homologação por meio do portal Valida TE, a aprovação continua condicionada à correta apresentação do histórico acadêmico, da documentação exigida, do apostilamento e das traduções necessárias. “Os avanços administrativos e o volume de processos concluídos mostram que existe um fluxo internacional relevante de profissionais qualificados, especialmente na saúde, mas isso não elimina as exigências jurídicas. Quando o planejamento começa apenas após uma proposta de emprego ou depois da chegada à Espanha, o profissional pode enfrentar atrasos, custos inesperados e limitações que não havia considerado. A homologação não representa garantia de contratação, mas constitui uma etapa essencial para a construção de uma carreira regular e sustentável no país”, conclui.